QUE O SENHOR TE ABENÇOE!
Na Solenidade da Santa Mãe de Deus, celebrada no início de cada ano, a liturgia propõe como primeira leitura o texto do Livro dos Números (6,22-27), no qual se encontra a antiga fórmula da bênção sacerdotal:
“O Senhor falou a Moisés, dizendo:
‘Fala a Aarão e a seus filhos:
Ao abençoar os filhos de Israel, dizei-lhes:
O Senhor te abençoe e te guarde!
O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e se compadeça de ti!
O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!
Assim invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel,
e eu os abençoarei.’”
Esse texto, segundo os estudiosos, foi provavelmente redigido por sacerdotes durante o exílio na Babilônia e utilizado como uma fórmula litúrgica de bênção sobre o povo de Deus. No original hebraico, o texto apresenta-se em três frases: a primeira composta por três palavras, a segunda por cinco e a terceira por sete. A soma total resulta em quinze palavras, número que, na numerologia judaica, corresponde ao valor simbólico do Nome divino “Iah”. Por isso, o versículo 27 afirma que, ao pronunciar tal bênção, invoca-se o Nome de Deus sobre o povo.
Invocar o Nome de Deus é, portanto, desejar bênção, proteção, o esplendor do rosto divino, a misericórdia e a paz. O verbo “abençoar” aparece quatro vezes nesse trecho. Curiosamente, sua primeira ocorrência na Sagrada Escritura encontra-se na narrativa da Criação, quando Deus abençoa as aves e os peixes, desejando-lhes fecundidade e multiplicação sobre a terra (cf. Gn 1,22). Assim, abençoar, em sua acepção mais profunda, significa desejar vida e fecundidade.
Em latim, “benedicere” quer dizer “dizer o bem”, enquanto “maldição” corresponde a “dizer o mal”, ou seja, desejar a morte ou a esterilidade. O Novo Testamento reforça esse ensinamento ao exortar os cristãos a nunca amaldiçoarem, mas abençoarem até mesmo os inimigos, conforme ensina o próprio Cristo: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5,44), e conforme repete São Paulo: “Abençoai os que vos perseguem; abençoai, e não amaldiçoeis” (Rm 12,14). Toda maldição pronunciada contra o outro, adverte a tradição cristã, retorna àquele que a profere.
Quando dizemos “O Senhor te abençoe”, professamos que Deus nos conceda vida e fecundidade. Ao afirmar “que Ele te guarde”, pedimos que Deus nos proteja em todos os caminhos, recordando o Salmo que diz: “Não dorme nem cochila o guarda de Israel” (Sl 121,4).
A expressão “O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face” representa o sorriso divino, ou seja, que vivamos de modo a alegrar o coração de Deus. E, se porventura não vivermos conforme sua vontade, que Ele se compadeça de nós, manifestando sua misericórdia e perdão.
Quando se proclama “O Senhor volte para ti o seu rosto”, pede-se que Deus mantenha a vida em nós. Recordemos o relato do Gênesis, quando o Criador, inclinando-se sobre o barro modelado, soprou-lhe o hálito da vida (Gn 2,7). Na tradição bíblica, a vida é sustentada pela presença do rosto divino voltado para a criatura.
Por fim, ao dizer “O Senhor te conceda a paz”, pedimos mais do que a simples ausência de conflitos. A paz (shalom), na Sagrada Escritura, significa a plenitude dos bens necessários à felicidade humana: saúde, moradia, alimento, lazer, harmonia nas relações com Deus, com o próximo e com toda a criação.
Tudo isso é o que desejo a você, caro leitor, neste novo ano que se inicia: que 2026 seja abundantemente abençoado por Deus, trazendo-lhe saúde, paz, santidade e caridade para com os necessitados. Pois este é o caminho de salvação revelado no rosto humano de Deus, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor.
Feliz 2026!
Frei Inácio José
Teólogo e Biblista