CRISTO, NOVO ADÃO: A REDENÇÃO DA HUMANIDADE E A NOVA CRIAÇÃO NA
HISTÓRIA DA SALVAÇÃO
Caro leitor,
Quero meditar com você, neste artigo, sobre o significado e o
mistério da Redenção de Cristo à luz da história da salvação. Aproveito o
ensejo para corrigir uma informação equivocada que apresentei em meu artigo
anterior publicado neste jornal. Será muito útil que você tenha em mãos a
Sagrada Escritura, para ler todas as citações, a fim de ter uma compreensão
melhor.
Entende-se por história da salvação a narrativa bíblica que relata,
ainda que de forma simbólica, a relação do ser humano com Deus. Na primeira
criação, Deus cria Adão e Eva em estado de graça, vivendo em plena comunhão com
Deus, com o próximo e com a criação, no Jardim do Éden. Este, por sua vez, é
uma metáfora da vida eterna, ou seja, da vida em perfeita comunhão com Deus. Contudo,
o ser humano, ao escutar a voz do tentador, pecou, colocando toda a humanidade
em estado de desgraça, isto é, em inimizade com Deus. Assim, a criação de Deus
necessitava ser refeita: carecia de redenção e de salvação.
Para que a salvação acontecesse, Deus estabelece um novo Adão e uma
nova Eva — um novo casal primitivo, do qual nasceria uma humanidade redimida, e
inauguraria um novo céu e uma nova terra em comunhão com Deus (cf. Ap 21,1).
São Paulo entende Jesus como o novo Adão, aquele que veio corrigir o pecado do
primeiro (cf. Rm 5,12-19). Subentende-se, portanto, que sua Mãe, Maria
Santíssima, é a nova Eva, a Mãe da humanidade redimida. Se o primeiro Adão
falhou em proteger Eva do pecado, o segundo Adão salvou, por antecipação, sua
Santíssima Mãe, preservando-a da mancha do pecado original (cf. Lc 1,28).
Toda a vida de Jesus, suas palavras e ações, foram o modo pelo qual
Deus começou a recriar a humanidade e o mundo. Contudo, chegou o momento
decisivo: Jesus decide ir para Jerusalém, a fim de sofrer a Paixão e Êxodo para
a Terra Prometida Celestial (Lc 9,51). Ao entrar na cidade, amaldiçoa uma
figueira, dizendo: “Que ninguém jamais coma de teus frutos” (Mc 11,14). Segundo
antigas lendas judaicas — extraídas de tradições extrabíblicas — a árvore do
conhecimento do bem e do mal seria uma figueira, razão pela qual Adão e Eva se
cobrem com folhas dessa árvore após o pecado (cf. Gn 3,7). Assim, ao amaldiçoar
a figueira, Jesus simbolicamente amaldiçoa a morte, fruto da árvore proibida. Jesus
vai a Jerusalém para destruir a morte por meio de seu sacrifício.
Ele se reúne com seus discípulos para celebrar a ceia pascal. Nessa
ceia, era costume tomar quatro cálices de vinho: o cálice da santificação
(saída do Egito), o cálice da libertação, o cálice da bênção e o cálice da
consumação. Segundo São Paulo, o “cálice da bênção” é identificado com o cálice
da nova aliança no sangue de Cristo (cf. 1Cor 10,16; 11,25). Isso indica que
Jesus abençoou o terceiro cálice, instituindo, assim, a Eucaristia. Todavia,
faltava o quarto cálice. Os evangelistas registram que Jesus disse que não
beberia mais do fruto da videira até que chegasse o Reino de Deus (cf. Mt
26,29; Mc 14,25; Lc 22,18), ou seja, Ele não tomou o último cálice durante a
ceia.
Após a ceia, Jesus dirige-se ao Monte das Oliveiras, ao Jardim do
Getsêmani — palavra hebraica que significa “jardim da prensa”. Ali, Jesus, o
novo Adão, vai retomar a história do primeiro Jardim. Começa sua agonia, que
não é sem significado: antigas tradições judaicas afirmavam que a Árvore da
Vida, no Jardim do Éden, era uma oliveira.
Jesus, tal como uma oliveira pressionada, começa a suar sangue (cf.
Lc 22,44), ao carregar sobre si o peso do pecado do mundo. Assim, como a
oliveira liberta seu óleo sob pressão, Jesus começa a oferecer a seiva de sua
vida. No Getsêmani, Ele aceita o cálice do sofrimento, dizendo: “Pai, se
queres, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a
tua” (Lc 22,42). Assim, Ele começa a beber o quarto cálice.
Após ser condenado, Jesus é crucificado no Calvário. Segundo
antigas lendas judaicas, o Calvário seria o lugar onde estava enterrado o
crânio de Adão, interpretação que parece ser acolhida pela tradição cristã
antiga, pois, em ícones da crucifixão, vê-se frequentemente um crânio aos pés
da cruz. O sangue do novo Adão redime o pecado do primeiro.
O Evangelho de João apresenta Jesus como o "Cordeiro de Deus,
que tira o pecado do mundo" (Jo 1,29). No relato joanino, Jesus morre no
exato momento em que os cordeiros pascais eram imolados no Templo de Jerusalém
(cf. Jo 19,14). Assim, Jesus, o novo Cordeiro, realiza a verdadeira Páscoa,
protegendo-nos da morte eterna e abrindo-nos a passagem para o céu.
Segundo o ritual pascal judaico, após a imolação, o sangue do
cordeiro era recolhido e aspergido sobre o altar. O cordeiro era transpassado
horizontalmente e suspenso entre dois homens para ser esfolado. Tal descrição
corresponde surpreendentemente ao que ocorreu com Jesus: Ele foi flagelado,
tendo sua pele arrancada, e crucificado entre dois ladrões (cf. Mt 27,38). Para
assar o cordeiro pascal, era também necessário atravessá-lo da boca à
extremidade do corpo, em uma posição que lembra a crucificação, para não tocar
em nada e ficar ritualmente impuro.
Contudo, o cordeiro pascal do Antigo Testamento não perdoava
pecados; ele apenas relembrava o Êxodo e mantinha a esperança de um êxodo
definitivo. No artigo anterior, mencionei equivocadamente que os primeiros
cristãos poderiam ter associado o sacrifício de Cristo à figura do bode
expiatório. Entretanto, a pesquisa do exegeta norte-americano Dr. Brant Pitre
esclarece que o verdadeiro pano de fundo é o sacrifício diário dos dois
cordeiros no Templo: um às 9h e outro às 15h. Estes sacrifícios tinham como finalidade
a expiação dos pecados.
Ora, os Evangelhos sinópticos informam que Jesus foi crucificado às
9h da manhã (cf. Mc 15,25) e morreu às 3h da tarde (cf. Mc 15,34-37). Todo o
tempo da crucifixão de Jesus corresponde, assim, ao tempo do sacrifício
expiatório diário, tornando-o verdadeiramente o "Cordeiro de Deus"
que tira o pecado do mundo.
Além disso, os evangelistas relatam que Jesus tomou vinagre
enquanto estava na cruz (cf. Jo 19,29-30). O vinagre era o vinho azedo. Ao
bebê-lo, Jesus consumou o quarto cálice da nova Páscoa, unindo definitivamente
a ceia pascal ao sacrifício da cruz. Por isso, a Igreja ensina que, ao celebrar
a Santa Missa, estamos verdadeiramente diante do Calvário.
No Evangelho de João, após tomar o vinagre, Jesus proclama:
"Tudo está consumado" (Jo 19,30), e entrega o espírito. Assim, a nova
criação se completa. Na primeira criação, Deus descansou no sétimo dia (cf. Gn
2,2); na nova criação, Jesus redime a humanidade no sexto dia e repousa no
túmulo no sábado.
No sábado, o dia do descanso judaico, Jesus desce à mansão dos
mortos para destruir a morte e libertar a humanidade cativa (cf. 1Pd 3,19-20).
No primeiro dia da nova semana, a Ressurreição acontece: assim como, na
primeira criação, a luz foi criada no primeiro dia, na nova criação, a luz da
vida eterna brilha na ressurreição de Cristo.Por esse motivo, os cristãos não
guardam mais o sábado, mas celebram o domingo, o primeiro dia da nova criação
realizada pela Ressurreição.
Antigas iconografias da Ressurreição retratam Jesus ressuscitado
destruindo as portas do inferno, puxando pelas mãos Adão e Eva, nossos
primeiros pais, agora resgatados da morte eterna e reconduzidos ao Paraíso. Eis
o grande mistério que celebramos durante o Tempo Pascal: a Ressurreição é a
abertura das portas do Céu para nós. Jesus mesmo prometeu este acesso ao bom
ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43), o mesmo que foi perdido
pelo pecado dos primeiros pais (Gn 3,23-24).
Demos graças a Deus por este maravilhoso mistério: se grande foi a
nossa criação, estupenda foi a nossa redenção em Cristo. Feliz Páscoa.
Pe. Fr. Inácio José, teólogo e biblista. Doutorando em Teologia
pela FAJE.
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