segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

mistagogia da quaresma

A MISTAGOGIA DA QUARESMA

A liturgia da Igreja deseja ser uma caminho mistagógico, ou seja, um experimentar do mistério divino.
A mistagogia é um recurso pedagógico, o qual vai conduzindo os iniciantes, passo-a-passo nos mistérios da fé e da Igreja, tendo em vista uma caminhada cristã. Assim, para os Pais da Igreja, não se trata apenas de conteúdo catequético e doutrinário, tendo em vista a inserção na vida cristã, mas possui um caráter de fundamento teológico, o que possibilita uma penetração cada vez mais nos mistérios celebrados. Esse aprofundamento, junto aos Pais da Igreja, se dava pelas celebrações litúrgicas, sempre providas de caráter nobre e catequético, cujo conteúdo formativo, dado pelos ritos, sinais e símbolos, permitia aos participantes e iniciados mergulhar nos mistérios da fé que celebravam[1].

A quaresma é o tempo que antecede a celebração da páscoa e era o tempo no qual os catecúmenos se preparavam para receber o batismo, no sábado santo, tornando-se, assim, cristãos. Por isso, convido a você a entrar nesse tempo quaresma com esse propósito: renovar o seu compromisso batismal, de seguir a Jesus, no sábado santo,  vigília pascal. Celebrar a páscoa de Jesus, a vitória da vida sobre a morte, deve-se traduzir na nova vida, que nós cristãos devemos viver pela graça do batismo, morrendo a cada dia para o pecado e ressurgindo com Jesus para essa vida nova, que se tornará plena quando formos para a eternidade. Perceba como que cada evangelho quaresmal é um passo nesse caminho de abraçar ou renovar o compromisso com Jesus.

1º domingo quaresma – Mt 4,1-11. Jesus vai ao deserto ser tentado pelo diabo. A quaresma será o nosso deserto, onde deveremos enfrentar tudo aquilo que nos afasta da fidelidade ao batismo. Jesus venceu as tentações com a Palavra de Deus. A quaresma é tempo de nos colocarmos com mais intensidade diante da Palavra para que ela ilumine as áreas obscuras de nossa vida. Tenhamos a coragem de ir ao deserto, conduzidos pelo Espírito Santo, junto com Jesus, para com Ele sairmos vencedores do pecado.
2º domingo quaresma – Mt 17,1-9. Jesus é transfigurado diante dos discípulos. Se levarmos a sério a proposta de rever a nossa vida, à luz da Palavra, conduzidos pela graça de Deus (Espírito Santo), aos poucos seremos transfigurados, ou seja, o homem velho pecador irá dando lugar ao homem novo, regenerado pela graça divina.
3º domingo quaresma – Jo 4,5-15.19b-26.39a.40-42. Jesus se revela à samaritana como fonte de água viva, ou seja, como portador do Espírito Santo. A vida nova herdada do batismo, não vivida simplesmente pelas forças humanas, mas é resposta à graça de Deus. É o próprio Deus que, mediante o Espírito Santo, fará com aos poucos nos assemelhemos a Jesus Cristo seu Filho. Por isso, estejamos dóceis a ação de Deus em nossa vida para que a vida nova de Cristo brote em nós.
4º domingo quaresma – Jo 9,1.6-9.13-17.34-38. Jesus cura o cego de nascença. Na bíblia a cegueira (ausência de luz) é símbolo da falta de fé, em outras palavras, falta de nossa adesão e compromisso com Jesus. Quaresma é tempo de reconhecer que, embora sendo católicos, podemos de fato, não estar sendo cristãos, porque a nossa vida não se assemelha à vida de Jesus. Pensamos enxergar mas no fundo podemos estar cegos.
5º domingo quaresma – Jo 11,1-45. Jesus revive Lázaro. Lázaro simboliza cada um nós, mortos pelo pecado e que, se ouvirmos a palavra de Jesus, seremos ressuscitados por Ele. Viver a palavra de Jesus já é ressurreição, já é experimentar desde já a vida eterna, ou seja, uma vida de amizade com Deus, que depois será plenificada quando formos para a eternidade.
Cada ano Deus concede “aos cristãos esperar com alegria, cada ano, a festa da Páscoa. De coração purificado, entregues à oração e à prática do amor fraterno, preparamo-nos para celebrar os mistérios pascais, que nos deram vida nova e nos tornaram filhas e filhos de Deus”[2]. Que esta não seja mais uma quaresma em que não haja mudança em nossa vida. Aproveitemos verdadeiramente esse tempo da graça para que a vida nova e divina plantada em nós no batismo, possa de fato traduzir-se em uma vida santa e semelhante à de Jesus.
Fr. Inácio José, odem





[1] http://euriferreira.blogspot.com.br/2011/08/mistagogia-o-que-vem-ser-isso.html
[2] Prefácio da Quaresma 1.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

tempo comum

Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo
1ª leitura. (Dt 8,2-3.14b-16a). Moisés recorda ao povo os cuidados de Deus para com ele em meio ao deserto: alimentou com maná, matou a sede com a água.
Salmo 147. O salmista convida Jerusalém ao louvor de Deus porque ele cerca sua cidade de cuidados.
2ª leitura. (1Cor 10,16-17). Paulo ensina à comunidade que eles comem do mesmo pão e bebem do mesmo cálice que é o Corpo e Sangue de Jesus.
Evangelho. (Jo 6,51-58). Jesus se anuncia como pão vivo descido do céu, do qual todo aquele que comer terá a vida eterna e será ressuscitado por Jesus no último dia.
Trazendo os textos pra perto da gente. A dimensão do comer e beber é parte essencial da vida: sem alimentação toda criatura morre. O povo de Israel experimenou esse cuidado divino em sua caminhada no deserto (1ª leitura) e o povo cristão experimentou esse mesmo cuidado ao perceber que a vida de Jesus é verdadeiro alimento que sacia nossa fome divina (evangelho). Comer o corpo e beber o sangue de Jesus na eucaristia, significa assumir como nossa a vida de Jesus: nossa vida passa a ser dele e a dele passa a ser nossa. A eucaristia favorece a unidade da comunidade (2ª leitura), por isso, nosso maior pecado contra ela, é nossa falta de comunhão fraterna.
Para pensar. Quando comungo na santa missa, procuro unir-me apenas a Jesus ou procuro também unir-me aos meus irmãos de comunidade? Minha vida se torna semelhante à vida de Jesus?
Gesto concreto. Participar da santa missa com devoção.
Espiritualidade. Crescer na unidade e comunhão com os irmãos de comunidade.
Deus nos abençoe. Fr. Inácio José, mercedário

Solenidade do Sagrado Coração de Jesus
1ª leitura. (Dt 7,6-11). Moisés chama a atenção do povo de Israel, como povo consagrado a Deus não por seus méritos, mas pela benevolência e gratuidade divina.
Salmo 102. O salmista louva a Deus pela sua bondade; Deus não nos trata conforme os nossos pecados.
2ª leitura. (1Jo 4,7-16). João ensina que a prova de que Deus nos amou é que mandou seu filho Jesus como expiação pelos nossos pecados e para que vivêssemos por Ele.
Evangelho. (Mt 11,25-30). Jesus louva a Deus que revelou seus mistérios aos pobres e pequenos e convida aos cansados a tomarem o seu jugo suave e o seu fardo leve.
Trazendo os textos pra perto da gente. Celebrar o sagrado coração de Jesus é celebrar o amor divino que nos foi revelado em Jesus. Deus nos ama sem mérito algum de nossa parte (1ª leitura); ao enviar Jesus como nosso salvador, Deus nos demonstrou o que Ele é capaz de fazer para nos mostrar o quanto nos quer bem (2ª leitura). Seguir a Jesus, ser seu discípulo é carregar o jugo suave de sentir profundamente amado e salvo por Deus (evangelho).
Para pensar. Como experimentamos em nosso dia a dia o amor de Deus?
Gesto concreto. Procurar ser mais gratuito nos relacionamentos fraternos.
Espiritualidade. Enxergar em cada situação da vida, sinais do amor gratuito de Deus por nós.

Deus nos abençoe. Fr. Inácio José, mercedário

O DEUS DA GRAÇA NO PRIMEIRO TESTAMENTO

O DEUS DA GRAÇA NO PRIMEIRO TESTAMENTO

INTRODUÇÃO

Da mesma forma que para entrar pela porta da frente da casa se faz necessário ter a chave certa, da mesma forma para se entender a Bíblia precisa de ter a chave correta para ler certos textos. Dessa leitura deturpada é temos “falsas imagens de deus”. Não é a toa que muitos acham confuso o Primeiro Testamento e como que pode haver “mudança” em Deus (guerreiro, manda matar pessoas e crianças e depois todo bondoso no Segundo Testamento).
Contrariando o pensamento popular de que o Deus do Antigo Testamento é um deus “maldoso e vingativo” e que o Deus do Novo Testamento é um deus “bonzinho e amoroso”, a verdadeira imagem de Deus que transparece no Primeiro Testamento a partir da leitura de certos textos é que Ele é o Deus da Graça. Deus sempre foi assim. Ele não muda. As criaturas é que são passíveis de mudanças. Mas Deus não! A explicação mais lógica para que Deus seja apresentado dessa forma no Primeiro Testamento, é que o povo de Israel experimentava a Deus assim, mas com o tempo a experiência religiosa evolui. A experiência mais sadia e profunda de Deus que temos é a experiência de Jesus, enquanto Fiho de Deus. A partir dele entendemos que Deus sempre foi Graça e é inclusive com essa chave de leitura que devemos ler e entender certas passagens complicadas do Primeiro Testamento, sobretudo as que contrariam essa noção da gratuidade divina. Analisaremos alguns textos bíblicos para comprovar essa tese de que, apesar das dificuldades, a verdadeira imagem de Deus que aparece no Primeiro Testamento é do Deus da Graça.

PENTATEUCO.


Ex 34,6-7
6Iahweh passou diante dele, e ele exclamou: "Iahweh! Iahweh... Deus de compaixão e de piedade (hannun), lento para a cólera e cheio de amor e fidelidade; 7que guarda o seu amor a milhares, tolera a falta, a transgressão e o pecado, mas a ninguém deixa impune e castiga a falta dos pais nos filhos e nos filhos dos seus filhos, até a terceira e quarta geração."

O livro do Ex está inserido no bloco literário do Pentateuco, ou Torá. O contexto próximo do texto é a adoração ao bezerro de ouro, idolatria do povo de Israel. Moisés quebra as primeiras tábuas da aliança destruindo aquele ídolo, torna a invocar a Deus que agora se manifesta como misericórdia e graça. O texto revela que a bondade de Deus é maior que sua vontade de castigar; se a punição dos pecados vai até a terceira e quarta geração, porém, Deus guarda seu amor a milhares. O castigo divino visa corrigir, da mesma forma como um pai ou mãe corrige para o bem a conduta de seus filhos. Nesse sentido, a correção é uma prova de amor.

TRADIÇÃO CRONISTA

Ne 9,17
Recusaram-se a obedecer, esquecidos das maravilhas que havias feito por eles; endureceram a cerviz, conceberam o plano de voltar para o Egito, para sua escravidão. Mas tu és o Deus do perdão, cheio de piedade e compaixão, lento para a cólera e cheio de amor: não os abandonaste!

            O livro de Ne faz parte da tradição cronista. O contexo do versículo é a cerminônia na qual, o povo regido por Neemias, relembra sua história pedindo perdão pelos pecados cometidos. O texto continua relembrando a graça de Deus para com o povo de Israel no deserto, mesmo após a sua infidelidade. Deus os conduziu através da coluna de fogo, alimentou com maná, matou-lhes a sede, apesar da dura cerviz do povo. Mais uma vez se retrata que o amor de Deus é maior que sua justiça ou desejo de castigar.

            TRADIÇÃO PROFÉTICA

Ez 18,1-32
1A palavra de Iahweh me foi dirigida nestes termos: 2Que vem a ser este provérbio que vós usais na terra de Israel: "Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos ficaram embotados"? 3Por minha vida, oráculo do Senhor Iahweh, não repetireis jamais este provérbio em Israel. 4Todas as vidas me pertencem, tanto a vida do pai, como a do filho. Pois bem, aquele que pecar, esse morrerá. 5Se um homem é justo e pratica o direito e a justiça, 6não come sobre os montes e não eleva os seus olhos para os ídolos imundos da casa de Israel, nem desonra a mulher do seu próximo, nem se une com uma mulher durante a sua impureza, 7nem explora a ninguém, se devolve o penhor de uma dívida, não comete furto, dá o seu pão ao faminto e veste ao que está nu, 8não empresta com usura, não aceita juros, abstém-se do mal, julga com verdade entre homens e homens; 9se age de acordo com os meus estatutos e observa as minhas normas, praticando fielmente a verdade: este homem será justo e viverá, oráculo do Senhor Iahweh. 10Contudo se tiver um filho violento e sanguinário, que pratique uma destas coisas, 11quando ele não cometeu nenhuma, isto é, um filho que chegue a comer nos montes, que desonre a mulher do seu próximo, 12que explore o pobre e o necessitado, que cometa furto, que não devolva o penhor, que eleve os seus olhos para os ídolos imundos e cometa abominação, 13que empreste com usura e aceite juros, certamente não viverá, por ter praticado todas estas abominações: ele morrerá e o seu sangue cairá sobre ele. 14Mas se este, por sua vez, tiver um filho que vê todos os pecados cometidos pelo seu pai, os vê, mas não os imita, 15isto é, não come sobre os montes e não eleva os seus olhos para os ídolos impuros da casa de Israel, não desonra a mulher do seu próximo, 16não explora ninguém, não exige penhor e não comete furto, antes, dá o seu pão ao faminto e veste aquele que está nu, 17se abstém da injustiça, não aceita usura nem juros, observa as minhas normas e anda nos meus estatutos, este não morrerá pelas iniquidades de seu pai, antes, certamente viverá. 18O seu pai, visto que agiu com violência e praticou o furto, visto que não se comportou bem no seio do seu povo, este, sim, morrerá por causa da sua iniqüidade. 19E vós dizeis: "Por que o filho não há de levar a iniqüidade de seu pai?" Ora, o filho praticou o direito e a justiça, observou todos os meus estatutos e os praticou! Por tudo isso, certamente viverá. 20Sim, a pessoa que peca é a que morre! O filho não sofre o castigo da iniqüidade do pai, como o pai não sofre o castigo da iniqüidade do filho: a justiça do justo será imputada a ele, exatamente como a impiedade do ímpio será imputada a ele. 21Mas quanto ao ímpio, se ele se converter de todos os pecados que cometeu e passar a guardar os meus estatutos e a praticar o direito e a justiça, certamente viverá: ele não morrerá.22Nenhum dos crimes que praticou será lembrado. Viverá como resultado da justiça que passou a praticar. 23Porventura tenho eu prazer na morte do ímpio? — oráculo do Senhor Iahweh. — Porventura não alcançará ele a vida se se converter de seus maus caminhos? 24Por outra parte, se o justo renunciar à sua justiça e fizer o mal, à imitação de todas as abominações praticadas pelo ímpio, poderá ele viver, fazendo isto? Não! Toda a justiça que praticou já não será lembrada! Antes, em virtude da infidelidade que praticou e do pecado que cometeu, morrerá. 25Entretanto dizeis: "O modo de agir do Senhor não é justo". Pois ouvi-me, ó casa de Israel: será o meu modo de proceder errado? Não será antes o vosso modo de proceder que não está certo? 26Com efeito, ao renunciar o justo à sua justiça e ao fazer o mal, é em virtude do mal que praticou que ele morre. 27E se o ímpio renunciar à sua impiedade, passando a praticar o direito e a justiça, salva a sua vida. 28Caiu em si e renunciou a toda a iniqüidade que tinha cometido. Certamente ele viverá e não morrerá. 29E no entanto a casa de Israel diz: "O modo de proceder do Senhor não está certo". Será o meu procedimento que não está certo, ó casa de Israel? Não será antes o vosso procedimento que não está certo? 30Por isso mesmo eu vos julgarei, a cada um conforme o seu procedimento, ó casa de Israel, oráculo do Senhor Iahweh. Convertei-vos e abandonai todas as vossas transgressões. Não torneis a buscar pretexto para fazerdes o mal. 31Lançai fora todas as transgressões que cometestes, formai um coração novo e um espírito novo. Por que haveis de morrer, ó casa de Israel? 32Eu não tenho prazer na morte de quem quer que seja, oráculo do Senhor Iahweh. Convertei-vos e vivereis!

                O profeta Ezequiel está no contexto do exílio do povo de Israel na Babilônia (séc VI a.C). A justificativa teológica que os sacerdotes deram para o exílio foi que Deus castigou o povo pelo pecado de idolatria, por isso, agora o povo está sem rei, sem terra e sem templo. No entanto havia o pensamento de que os pecados dos pais eram castigados nos filhos e o profeta Ezequiel combate essa ideologia religiosa, imputando à responsabilidade individual a consequência pelos seus atos. Além disso, deixa bem claro que existe a liberdade humana que, num processo de mudança de atitudes, de conversão, pode reverter o mau decorrente de seus atos. Como esse texto sinaliza a graça divina? Outra pessoa não paga pelo meu pecado e até mesmo eu, não pagarei pelo meu pecado se eu mudar de conduta. Ou seja, o perdão é maior que a punição.

            TRADIÇÃO POÉTICA

Sl 86,5.15-17
5Tu és bom e perdoas, Senhor, és cheio de amor com todos os que te invocam. 6Iahweh, atende à minha prece, considera minha voz suplicante!... 15Tu, Senhor, Deus de piedade e compaixão, lento para a cólera, cheio de amor e fidelidade, 16volta-te para mim, tem piedade de mim! Concede tua força ao teu servo, e tua salvação ao filho de tua serva: 17realiza um sinal de bondade para mim! Meus inimigos verão e ficarão envergonhados, pois tu, Iahweh, me socorres e consolas.
            Os salmos são a expressão orante do povo de Deus. Através deles o povo recorda sua história, revivendo seu relacionamento com o divino. O Salmo 86 é a súplica de alguém que se diz pobre, infeliz e perseguido pelos inimigos. Ao rezar pede a Deus que lhe faça justiça, mas, ao mesmo tempo, proclama a bondade gratuita de Deus para com todos os seus filhos. Proclama que Deus é lento para a cólera, ou seja, que sua bondade supera o castigo e que Ele é bom e perdoa.

            CONCLUSÃO

            Muitos outros textos poderiam ser demonstrados a partir do estudo da teologia bíblica da graça, mas apenas nos limitamos ao que foi pedido no trabalho. Esses textos, de certa forma, já evidenciam aquilo que depois se tornará explícito no Segundo Testamento, a partir de Jesus de Nazaré: que Deus é amor, que faz o sol nascer sobre bons e maus, faz a chuva cair sobre justos e injustos; que Ele não se mede a partir de nossa noção de retribuição ou mérito. Que o experimentar essa graça e bondade de Deus nos faça melhores e mais gratuitos em nossas relações todo os seres humanos. Assim seremos como o nosso Pai do Céu.

leitura orante sl 107

Data: 18/02/17
Leitura Orante da Palavra – Citação: Sl 107 (106)
1° passo – Leitura
O que o texto diz? O salmista canta a Deus que os recolheu, que os alimentou e guiou pelo deserto, que os curou com a própria voz, que os libertou e salvou da morte, que lhes deu rebanhos e colheitas abundantes, apesar do povo ter se rebelado contra a Palavra de Deus e terem desprezado os conselhos divinos.
2° passo - Meditação
O que o texto diz para mim? O último versículo me chama a atenção “Quem é sábio? Observe essas coisas, e saiba discernir o amor de Javé!”. Após contemplar todas a maravilhas que Deus realiza na vida do povo, sem merecimento algum da parte do povo, constatamos que a relação de Deus com a humanidade só pode ser graça.
3° passo - Contemplação
O que a Palavra me leva a experimentar? A Palavra me leva a experimentar o amor gratuito de Deus por mim e por toda a humanidade. Alegria por sentir-me amado sem merecimento algum de minha parte.
4° passo - Oração
O que a Palavra me leva a falar com Deus? “Pai de Amor e Misericórdia, agradeço, por meio de Teu Filho Jesus, na Força do Espírito, o teu amor pelos homens. Em Jesus Tu nos revelastes a Tua Graça. Nos amas porque somos filhos e somente queres o nosso bem. Ajuda-nos a corresponder o Teu amor por nós, amando-nos uns aos outros, como Jesus nos amou, amém”.
5° passo - Ação

O que a Palavra me leva a viver? A Palavra me leva a confiar mais na bondade e no amor gratuito de Deus por mim. Me leva a não ter medo de Deus, mas a confiar sempre na sua graça.

UMA LEITURA DO APOCALIPSE EM ÉPOCA DE CRISE

UMA LEITURA DO APOCALIPSE EM ÉPOCA DE CRISE
Fr. Inácio José[1]

Em épocas conturbadas sempre aparecem “profetas do agouro” anunciando tragédias, catástrofes, enfim... o fim! Outros, com certo fanatismo, anunciam que Jesus está próximo de voltar e veem sinais de sua vinda em todos os lugares. Muito disso se deve a leituras errôneas daquilo que se chama “literatura apocalíptica” que está tanto presente no Primeiro Testamento[2], bem como no Segundo Testamento[3]. A proposta deste breve texto é esclarecer do que se trata tal literatura e propor uma reta leitura desses textos, sobretudo do Apocalipse de João.
A literatura apocalíptica nasceu no judaísmo entre 150 a.C. e 100 a.C[4]. O povo de Israel estava sob o domínio dos selêucidas, que tentaram impor à força a religião grega sobre a religião judaica. O contexto era de perseguição religiosa e martírio de muitos de judeus. Diante disso a literatura apocalítica nasce como resistência de fé do povo de Israel. Esse tipo de literatura possui caractéristicas: pseudonímia (atribuição a autores de prestígio); simbolismo (a linguagem de difícil interpretação. Aconselho a compra de uma boa Bíblia de estudo - Bíblia de Jerusalém, Bíblia TEB, Bíblia do Peregrino – porque as notas de rodapé e introduções esclarecem o possível significado dos números, cores, personagens que aparecem no texto bíblico); pessimismo (o mal está dominando a realidade, mas a vitória no fim será de Deus); determinismo (tudo já está dedicido de antemão para a vitória de Deus)[5].
O Apocalipse de João foi escrito no contexto do fim do séc I, no final do reinado de Dominiciano[6]. As comunidades cristãs estão sofrendo a perseguição do Império Romano porque se recusam a adorar o imperador romano como deus, proclamando apenas Jesus como Senhor (Kyrios, termo grego também usado para proclamar a divindade do imperador romano).

O Apocalipse não é uma especulação futurológica, nem um livro para confundir nossa cabeça. É expressão de resistência e de esperança para a atualidade dos fiéis. (...) O Apocalipse nos ensina a ver a história à luz daquilo que se cumpriu definitivamente na morte e ressurreição do Grande Mártir e Testemunha, Jesus, o Cordeiro. É Ele quem abre o livro da história, ele tem a última palavra sobre a história humana[7].

É absolutamente normal que em situações que consideremos limites, a gente esteja pessimista, considerando estar no fim de tudo, que não há mais saída. No entanto, não é essa a pretensão da literatura apocalíptica, nem no Primeiro e nem no Segundo Testamento. A finalidade dela é mostrar que, por trás do “aparente caos” que esteja na história, Deus a tem na palma de sua mão, e que em breve intervirá para acabar com o sofrimentos que os injustos estão provocando na humanidade. Essa mentalidade também, não deve nos tornar passivos diante das injustiças no mundo[8]. Pelo contrário, os cristãos, sabedores de que, em breve Deus interviria na história, viviam ativamente seu testemunho (martírio) cristão, colaborando para que o Reinado de Deus o quanto antes se tornasse pleno.
Creio que é desta forma que devemos nos comportar diante das dificuldades sócio-político-econômicos que o nosso país enfrenta. Ao invés de dar crédito a fórmulas mágicas, tais como a falsa “teologia da prosperidade” para se ver “livre dos apertos”, ou se resignar com o pessimismo constatável pela realidade, precisamos nutrir a esperança de que dias melhores virão, porque a história está nas mãos de Deus e de Seu Filho Jesus, mas, ao mesmo tempo, está em nossas mãos, para que ajudemos a Deus dar novo rumo à nossa vida. Simplesmente constatar que a situação está difícil não basta para que se mude a realidade, mas é necessária a criatividade e a atitude de Jesus diante das circunstâncias de sofrimento. Atitude sim, passividade não! Esperança sim, pessimismo não! Esperança ativa sim, desespero não.



[1] Graduado em Filosofia, Teologia. Pós-Graduado em História, Teologia e Cultura Judaica pelo Centro Cristão de Estudos Judaicos (CCEJ).
[2] No Primeiro Testamento temos os seguintes textos que se enquadram na literatura apocalíptica: Is 24-27; Is 34-35; o livro de Daniel.
[3] No Segundo Testamento: Mc 13; Mt 24; 1Ts 4,13-5,11; 2Ts 2,1-12, Apocalipse de João.
[4] PRIGENT, Pierre. Apocaliptico. In: MAREDSOUS. Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Tradução de Ary E. Pintarelli e Orlando A. Bernardi. São Paulo: Loyola, Paulinas, Paulus, Academia Cristã, 2013. p. 116.
[5] Idem.
[6] PRIGENT, Pierre. Apocalipse, Livro. In: MAREDSOUS. Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Tradução de Ary E. Pintarelli e Orlando A. Bernardi. São Paulo: Loyola, Paulinas, Paulus, Academia Cristã, 2013. p. 113.
[7] Introdução ao livro do Apocalipse, Bíblia da CNBB, p. 1443.
[8] Na comunidade cristã de Tessalônica, por exemplo, haviam pessoas que não trabalhavam mais, com a desculpa de que Jesus estaria voltando imediatamente. Cf. 2Ts 3,10.

QUE O SENHOR TE ABENÇOE

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