terça-feira, 29 de abril de 2025

CRISTO, NOVO ADÃO: A REDENÇÃO DA HUMANIDADE E A NOVA CRIAÇÃO NA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO

 





CRISTO, NOVO ADÃO: A REDENÇÃO DA HUMANIDADE E A NOVA CRIAÇÃO NA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO

 

Caro leitor,

Quero meditar com você, neste artigo, sobre o significado e o mistério da Redenção de Cristo à luz da história da salvação. Aproveito o ensejo para corrigir uma informação equivocada que apresentei em meu artigo anterior publicado neste jornal. Será muito útil que você tenha em mãos a Sagrada Escritura, para ler todas as citações, a fim de ter uma compreensão melhor.

Entende-se por história da salvação a narrativa bíblica que relata, ainda que de forma simbólica, a relação do ser humano com Deus. Na primeira criação, Deus cria Adão e Eva em estado de graça, vivendo em plena comunhão com Deus, com o próximo e com a criação, no Jardim do Éden. Este, por sua vez, é uma metáfora da vida eterna, ou seja, da vida em perfeita comunhão com Deus. Contudo, o ser humano, ao escutar a voz do tentador, pecou, colocando toda a humanidade em estado de desgraça, isto é, em inimizade com Deus. Assim, a criação de Deus necessitava ser refeita: carecia de redenção e de salvação.

Para que a salvação acontecesse, Deus estabelece um novo Adão e uma nova Eva — um novo casal primitivo, do qual nasceria uma humanidade redimida, e inauguraria um novo céu e uma nova terra em comunhão com Deus (cf. Ap 21,1). São Paulo entende Jesus como o novo Adão, aquele que veio corrigir o pecado do primeiro (cf. Rm 5,12-19). Subentende-se, portanto, que sua Mãe, Maria Santíssima, é a nova Eva, a Mãe da humanidade redimida. Se o primeiro Adão falhou em proteger Eva do pecado, o segundo Adão salvou, por antecipação, sua Santíssima Mãe, preservando-a da mancha do pecado original (cf. Lc 1,28).

Toda a vida de Jesus, suas palavras e ações, foram o modo pelo qual Deus começou a recriar a humanidade e o mundo. Contudo, chegou o momento decisivo: Jesus decide ir para Jerusalém, a fim de sofrer a Paixão e Êxodo para a Terra Prometida Celestial (Lc 9,51). Ao entrar na cidade, amaldiçoa uma figueira, dizendo: “Que ninguém jamais coma de teus frutos” (Mc 11,14). Segundo antigas lendas judaicas — extraídas de tradições extrabíblicas — a árvore do conhecimento do bem e do mal seria uma figueira, razão pela qual Adão e Eva se cobrem com folhas dessa árvore após o pecado (cf. Gn 3,7). Assim, ao amaldiçoar a figueira, Jesus simbolicamente amaldiçoa a morte, fruto da árvore proibida. Jesus vai a Jerusalém para destruir a morte por meio de seu sacrifício.

Ele se reúne com seus discípulos para celebrar a ceia pascal. Nessa ceia, era costume tomar quatro cálices de vinho: o cálice da santificação (saída do Egito), o cálice da libertação, o cálice da bênção e o cálice da consumação. Segundo São Paulo, o “cálice da bênção” é identificado com o cálice da nova aliança no sangue de Cristo (cf. 1Cor 10,16; 11,25). Isso indica que Jesus abençoou o terceiro cálice, instituindo, assim, a Eucaristia. Todavia, faltava o quarto cálice. Os evangelistas registram que Jesus disse que não beberia mais do fruto da videira até que chegasse o Reino de Deus (cf. Mt 26,29; Mc 14,25; Lc 22,18), ou seja, Ele não tomou o último cálice durante a ceia.

Após a ceia, Jesus dirige-se ao Monte das Oliveiras, ao Jardim do Getsêmani — palavra hebraica que significa “jardim da prensa”. Ali, Jesus, o novo Adão, vai retomar a história do primeiro Jardim. Começa sua agonia, que não é sem significado: antigas tradições judaicas afirmavam que a Árvore da Vida, no Jardim do Éden, era uma oliveira.

Jesus, tal como uma oliveira pressionada, começa a suar sangue (cf. Lc 22,44), ao carregar sobre si o peso do pecado do mundo. Assim, como a oliveira liberta seu óleo sob pressão, Jesus começa a oferecer a seiva de sua vida. No Getsêmani, Ele aceita o cálice do sofrimento, dizendo: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22,42). Assim, Ele começa a beber o quarto cálice.

Após ser condenado, Jesus é crucificado no Calvário. Segundo antigas lendas judaicas, o Calvário seria o lugar onde estava enterrado o crânio de Adão, interpretação que parece ser acolhida pela tradição cristã antiga, pois, em ícones da crucifixão, vê-se frequentemente um crânio aos pés da cruz. O sangue do novo Adão redime o pecado do primeiro.

O Evangelho de João apresenta Jesus como o "Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (Jo 1,29). No relato joanino, Jesus morre no exato momento em que os cordeiros pascais eram imolados no Templo de Jerusalém (cf. Jo 19,14). Assim, Jesus, o novo Cordeiro, realiza a verdadeira Páscoa, protegendo-nos da morte eterna e abrindo-nos a passagem para o céu.

Segundo o ritual pascal judaico, após a imolação, o sangue do cordeiro era recolhido e aspergido sobre o altar. O cordeiro era transpassado horizontalmente e suspenso entre dois homens para ser esfolado. Tal descrição corresponde surpreendentemente ao que ocorreu com Jesus: Ele foi flagelado, tendo sua pele arrancada, e crucificado entre dois ladrões (cf. Mt 27,38). Para assar o cordeiro pascal, era também necessário atravessá-lo da boca à extremidade do corpo, em uma posição que lembra a crucificação, para não tocar em nada e ficar ritualmente impuro.

Contudo, o cordeiro pascal do Antigo Testamento não perdoava pecados; ele apenas relembrava o Êxodo e mantinha a esperança de um êxodo definitivo. No artigo anterior, mencionei equivocadamente que os primeiros cristãos poderiam ter associado o sacrifício de Cristo à figura do bode expiatório. Entretanto, a pesquisa do exegeta norte-americano Dr. Brant Pitre esclarece que o verdadeiro pano de fundo é o sacrifício diário dos dois cordeiros no Templo: um às 9h e outro às 15h. Estes sacrifícios tinham como finalidade a expiação dos pecados.

Ora, os Evangelhos sinópticos informam que Jesus foi crucificado às 9h da manhã (cf. Mc 15,25) e morreu às 3h da tarde (cf. Mc 15,34-37). Todo o tempo da crucifixão de Jesus corresponde, assim, ao tempo do sacrifício expiatório diário, tornando-o verdadeiramente o "Cordeiro de Deus" que tira o pecado do mundo.

Além disso, os evangelistas relatam que Jesus tomou vinagre enquanto estava na cruz (cf. Jo 19,29-30). O vinagre era o vinho azedo. Ao bebê-lo, Jesus consumou o quarto cálice da nova Páscoa, unindo definitivamente a ceia pascal ao sacrifício da cruz. Por isso, a Igreja ensina que, ao celebrar a Santa Missa, estamos verdadeiramente diante do Calvário.

No Evangelho de João, após tomar o vinagre, Jesus proclama: "Tudo está consumado" (Jo 19,30), e entrega o espírito. Assim, a nova criação se completa. Na primeira criação, Deus descansou no sétimo dia (cf. Gn 2,2); na nova criação, Jesus redime a humanidade no sexto dia e repousa no túmulo no sábado.

No sábado, o dia do descanso judaico, Jesus desce à mansão dos mortos para destruir a morte e libertar a humanidade cativa (cf. 1Pd 3,19-20). No primeiro dia da nova semana, a Ressurreição acontece: assim como, na primeira criação, a luz foi criada no primeiro dia, na nova criação, a luz da vida eterna brilha na ressurreição de Cristo.Por esse motivo, os cristãos não guardam mais o sábado, mas celebram o domingo, o primeiro dia da nova criação realizada pela Ressurreição.

Antigas iconografias da Ressurreição retratam Jesus ressuscitado destruindo as portas do inferno, puxando pelas mãos Adão e Eva, nossos primeiros pais, agora resgatados da morte eterna e reconduzidos ao Paraíso. Eis o grande mistério que celebramos durante o Tempo Pascal: a Ressurreição é a abertura das portas do Céu para nós. Jesus mesmo prometeu este acesso ao bom ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43), o mesmo que foi perdido pelo pecado dos primeiros pais (Gn 3,23-24).

Demos graças a Deus por este maravilhoso mistério: se grande foi a nossa criação, estupenda foi a nossa redenção em Cristo. Feliz Páscoa.

Pe. Fr. Inácio José, teólogo e biblista. Doutorando em Teologia pela FAJE.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

PAIXÃO, MORTE E RESSURREIÇÃO DE CRISTO: UM APROFUNDAMENTO BÍBLICO

Caro leitor, a celebração do Tríduo Pascal é a mais importante para a fé cristã católica, pois, nesses três dias, celebramos o mistério da Redenção por meio da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Gostaria de refletir com você sobre o significado dessa celebração solene.

O Tríduo Pascal tem início com a celebração da Quinta-feira Santa, na qual se comemoram a instituição do Sacramento da Eucaristia (cf. Mt 26,26-28; Lc 22,19-20; 1Cor 11,23-25), a instituição do sacerdócio ministerial e o mandamento do amor (cf. Jo 13,34). Um detalhe litúrgico que muitas vezes passa despercebido é que, embora a celebração se inicie com a invocação da Santíssima Trindade, ela não se encerra com a bênção final, pois continua na Sexta-feira Santa com a celebração da Paixão do Senhor. Tanto a Quinta-feira Santa quanto a Sexta-feira Santa celebram o mesmo mistério: a entrega voluntária de Cristo à morte para redimir toda a criação (cf. Jo 10,17-18).

Segundo os Evangelhos, Jesus reuniu-se com seus discípulos para a Última Ceia, provavelmente uma ceia pascal, na qual se celebrava a libertação da escravidão do Egito (cf. Ex 12,1-14). Nessa ceia, deveriam estar presentes o pão sem fermento, o vinho e o cordeiro pascal. No decorrer da celebração, Jesus tomou o pão e disse: "Isto é o meu corpo, que será entregue por vós"; depois, tomou a taça de vinho e declarou: "Este é o meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós para a remissão dos pecados" (cf. Mt 26,26-28; Lc 22,19-20). Por meio desse gesto, Cristo instituiu os sinais sacramentais que fariam a Igreja sempre recordar e atualizar sua entrega suprema, consumada no dia seguinte.

Na Sexta-feira da Paixão, celebramos a morte de Cristo. Para os cristãos do primeiro século, a morte voluntária de Jesus uniu duas tradições do Antigo Testamento: a do bode expiatório e a do cordeiro pascal. A primeira consistia no rito do Dia da Expiação, em que todo o povo de Israel confessava publicamente seus pecados sobre um bode, que era então lançado ao deserto, carregando simbolicamente as iniquidades da nação (cf. Lv 16,10). Já a tradição do cordeiro pascal recordava a libertação da escravidão do Egito, em que os israelitas imolavam um cordeiro e aspergiam seu sangue nos umbrais das portas como sinal de salvação (cf. Ex 12,21-23). Jesus, pelo seu sacrifício, expia e perdoa os nossos pecados; Ele é o novo Cordeiro de Deus (cf. Jo 1,29), que nos conduz da escravidão do pecado à liberdade dos filhos de Deus. Pela sua morte e ressurreição, Ele entra no Templo definitivo do céu e, de lá, continua a oferecer-se ao Pai pela nossa salvação (cf. Hb 9,11-12). Enquanto a Igreja na Terra celebra sua sagrada liturgia, une-se espiritualmente ao eterno sacrifício de Cristo por nós (cf. Hb 10,12-14).

Por fim, no Sábado Santo, celebra-se a ressurreição de Jesus por meio de uma solene e extensa celebração denominada Vigília Pascal. Durante essa liturgia, medita-se sobre toda a história da salvação, através de sete leituras do Antigo Testamento, uma leitura do Novo Testamento e a proclamação do Evangelho.

Nesse contexto, recordam-se a criação (Gn 1,1-2,2), a promessa da grandiosidade do povo de Deus (Gn 22,1-18), a libertação da escravidão do Egito (Êx 14,15-15,1), a promessa de uma Nova Aliança (Is 54,5-14), bem como a profecia da renovação da criação, na qual Deus estabelecerá novos céus e nova terra (Is 55,1-11; Br 3,9-15.32-4,4; Ez 36,16-28). A tradição cristã sempre compreendeu que os acontecimentos do Antigo Testamento prefiguram os eventos que se realizam plenamente em Cristo. Todas essas promessas encontram seu cumprimento pleno em Cristo, pois n'Ele tem início uma nova criação (2Cor 5,17), e a vida eterna se abre a toda a humanidade.

Eis a verdadeira Páscoa: a passagem deste mundo para o Céu, da morte para a vida eterna, da temporalidade para a eternidade. No Sábado Santo, renovam-se as promessas batismais, novos cristãos nascem pelo Sacramento do Batismo, e a Igreja celebra a vitória definitiva da graça sobre o pecado, da vida sobre a morte (Rm 6,3-11).

Deus lhe abençoe e feliz e santa Páscoa. Que estas celebrações lhes façam crescer na santidade, no amor a Cristo e aos irmãos.

Pe. Fr. Inácio José, teólogo e biblista. 

QUE O SENHOR TE ABENÇOE

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