terça-feira, 27 de dezembro de 2022

CAMINHO DE SALVAÇÃO, CAMINHO DE HUMANIZAÇÃO



CAMINHO DE SALVAÇÃO, CAMINHO DE HUMANIZAÇÃO

Caros leitores, estamos vivenciando o tempo litúrgico do Natal, momento privilegiado para darmos graças a Deus pelo mistério da encarnação: Deus que para salvar o ser humano, assume a nossa natureza, a nossa fragilidade, a fim de nos divinizar, ou seja, propiciar a cada um de nós a sua própria vida.

Numa leitura tradicional, o início do livro do Gênesis retrata o ser humano caindo na tentação de “divinizar-se sem Deus”, e isso trouxe para toda a humanidade a desgraça, ou seja, a falta de comunhão com o próprio Deus, a perca desta comunhão com o sagrado.

Qual não é a nossa surpresa, ao percebermos que Deus, no auge da história da salvação, procurou responder esse anseio humano! O prólogo de João afirma que “no princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus, o Verbo era Deus e o Verbo se fez carne habitou entre nós” e propiciou a cada um de nós ser filhos de Deus. Ora, isso nada mais é do que uma resposta àquilo que estava dentro do coração do ser humano, o seu maior desejo: divinizar-se. Se, no livro do Gênesis, o pecado humano foi querer “divinizar-se sem Deus”, o caminho da salvação-redenção é “divinizar-se com Deus”.

Não me entendam mal. Nenhum ser humano, bem como nenhuma criatura, haverá de se tornar, um dia, Deus. Deus é Deus e o resto são criaturas. Mas, participar da vida divina, estabelecer uma relação de proximidade com o sagrado é vocação de todo ser humano e de todo o universo, e nos é concedido por graça. Deus deseja que todo o existente participe de sua vida e exista para sempre.

E como se faz para comungar da vida divina? Pasmem! É sendo humanos! Deus para salvar a humanidade escolheu humanizar-se, tornar-se um de nós, nos amar com o coração humano, ensinando-nos a ser gente de verdade.

Se levamos a sério que Jesus Cristo é plenamente Deus e humano, ao lermos o evangelho, aquilo que os autores sagrados, em forma de narrativa ou discurso, tentaram nos transmitir acerca de seu ensinamento e sua vida, percebemos a grande “humanidade de Deus”.

Cristo cura os doentes não é porque seja Deus! Cristo alimenta os famintos não é porque seja Deus! Cristo luta pela justiça não é porque seja Deus! Ele faz tudo isso é porque ele é ser humano e porque é próprio do ser humano a compaixão pelos enfermos, a misericórdia pelos que sofrem e a luta por um mundo mais justo e belo.

A espiritualidade do Natal, portanto, deve nos abrir os olhos para essas falsas espiritualidades que nos ensinam que para ser santo é necessário negar nossa humanidade. Muito pelo contrário: para sermos santos, participantes da vida divina, aqui e agora, é necessário assumir a nossa humanidade, ser gente de verdade, configurando o nosso jeito de ser à humanidade de Cristo, e desta forma, estaremos já participando da vida divina, aqui agora, e depois, esta vida será eternizada no céu.

Que Deus nos conceda abrir a fragilidade de nossa vida ao Verbo de Deus, que deseja em nós se fazer carne também. O verdadeiro Natal é Jesus nascer em cada coração, em cada pessoa, humanizando-a e, ao mesmo tempo, divinizando-a. Que as celebrações natalinas nos ajudem a valorizar aquilo de mais belo em nossa humanidade, reconhecendo aí os traços de divinização e cristificação de nossa vida.

Pe. Fr. Inácio José, mestre em teologia bíblica, FAJE.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

ADVENTO: MISTAGOGIA, ESPERANÇA, ESPIRITUALIDADE E CAMINHO DE HUMANIZAÇÃO


ADVENTO: MISTAGOGIA, ESPERANÇA, ESPIRITUALIDADE E CAMINHO DE HUMANIZAÇÃO

Caro leitor, iniciamos um novo ano litúrgico, celebrando o tempo do advento. Esse tempo tem duas finalidades na liturgia e espiritualidade eclesial. A primeira é preparar a comunidade cristã para a celebração do nascimento de Jesus, o mistério da encarnação: Deus que, para salvar a humanidade, se faz um de nós, assumido nossa história, reconciliando consigo o ser humano e toda a criação. A segunda finalidade do tempo do advento é recordar que nós, existencialmente, estamos vivendo um advento, pois aguardamos a segunda vinda de Jesus, o encontro definitivo com Deus. As duas primeiras semanas do tempo do advento nos recordam a expectativa escatológica do encontro definitivo com Deus, ao passo que, as duas últimas semanas nos preparam diretamente para a celebração do Natal.

A virtude teológica fundamental deste tempo litúrgico é a esperança. O fiel que participar das missas neste tempo do advento, perceberá que a maior parte das leituras do antigo testamento serão do profeta Isaías, o profeta que mais anunciou a chegada do Messias e que mais profetizou a esperança para o povo de Israel exilado. Em nossa vida espiritual, deveremos nesse tempo do advento, cultivar a esperança de que dias melhores virão e que tudo aquilo que fere a dignidade do ser humano, haverá de, um dia, desaparecer de nossa história, experimentaremos a salvação plena. Devemos cultivar, também, a esperança de viver eternamente com Deus.

A espiritualidade fundamental desse tempo litúrgico é a consciência de que a cada dia se aproxima a salvação definitiva. Os primeiros cristãos imaginavam, de forma iminente, a vinda gloriosa de Jesus. Com o passar do tempo, essa expectativa diminuiu e a Igreja passou a ensinar que, no momento de nossa morte, já se dá o nosso encontro definitivo com Cristo e que um dia, não se sabe quando, Ele voltará para salvar e redimir toda a história. Por isso, o fiel católico deve tomar consciência de que a qualquer momento pode ser o seu encontro definitivo com Deus, não desperdiçando a sua vida com o pecado ou coisas que não lhe fazem crescer em sua vida espiritual, mas viver como se cada momento fosse o derradeiro para o encontro com o Absoluto.

Penso que o tempo do advento também nos traz uma consciência antropológica muito bela, ou seja, uma visão bonita e positiva do que é o ser humano. Deus poderia ter arrumado outro caminho para poder nos salvar. Mas, o caminho escolhido por Ele foi o da humanização: o Divino se tornou humano para que o humano se tornasse Divino. Ainda hoje, existem certas espiritualidades que desvalorizam tudo aquilo que é próprio do ser humano, como se o ser humano tivesse que se tornar um anjo para poder comungar da vida de Deus. O mistério da encarnação, contudo, nos aponta a direção contrária: o ser humano experimenta a salvação na medida em que ele se humaniza. O modelo de todo ser humano é a pessoa de Jesus Cristo, Deus feito pessoa humana. Por isso devemos valorizar tudo aquilo que é próprio do ser humano, assemelhado a Cristo, como caminho de comunhão com o divino.

Deus abençoe o nosso advento e nos conceda a graça de abrir o nosso coração para acolher a Luz do Alto, Jesus Cristo nosso Salvador.

Pe. Fr. Inácio José, Mestre em Teologia Bíblica 


HOMEM E MULHER SÃO PRESENÇA DIVINA NO MUNDO

A MISTAGOGIA DO ADVENTO

A ESPERANÇA E O ADVENTO

A ESPIRITUALIDADE DO ADVENTO

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

BEM-AVENTURANÇAS: SANTIDADE VIVIDA NO CONCRETO DA VIDA

 


BEM-AVENTURANÇAS: SANTIDADE VIVIDA NO CONCRETO DA VIDA. 


No mês de novembro celebramos o Dia de Todos os Santos. A santidade é atributo exclusivo de Deus, mas que Ele compartilha com todos os que comungam de Sua vida. O evangelho que a liturgia propõe para esse dia é Mt 5,1-12, conhecido como as bem-aventuranças. Vivendo-as experimenta-se a comunhão com Deus, a santidade.

“Felizes os pobres em espírito, porque é deles o Reino dos Céus”.  Pobreza significa não ter bens, espírito simboliza o interior da pessoa. “Pobreza em espírito” constitui, portanto, a atitude da pessoa em reconhecer que não possui riquezas interiores, ou méritos diante de Deus. A salvação não é consequência do mérito humano, mas da bondade divina. Santidade é ação divina na vida da pessoa que se abre à Sua graça.

“Felizes os que choram, porque Deus os consolará”. “Chorar” traduz o luto. Chorar porque alguém amado morreu. Os enlutados, bem como todos os que sofrem, terão suas lágrimas enxugadas, definitivamente, no Reino. 

“Felizes os não violentos, porque receberão a terra como herança”. No Antigo Testamento, a conquista da terra foi pelas armas. Jesus ensina que nova conquista se dá pela mansidão e, jamais, pela violência. Pertencem a Deus os que rejeitam a violência.  

“Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque Deus os saciará”. Fome e sede são as necessidades básicas do ser humano. De igual maneira, a luta por um mundo mais justo para todos, deve ser algo natural para quem segue a Jesus. Santidade e injustiça não andam de mãos dadas.  

“Felizes os misericordiosos, porque conseguirão misericórdia”.  Quem agir com misericórdia para o próximo (Mt 25,31-46), ao fim da vida, será tratado com misericórdia pelo próprio Deus que o acolherá em sua santidade definitiva. 

“Felizes os de coração puro, porque verão a Deus”. Pureza de coração é ter retas intenções. Quem tem bondade e pureza em si, já enxerga a presença divina ao se redor e, depois, O contemplará face a face no céu. 

“Felizes os que promovem a paz, porque Deus os terá como filhos”. Os que constroem um mundo pacífico, são filhos de Deus, fazem a sua vontade. Pelo contrário, os que difundem o ódio, intolerância e guerra, mesmo que seja em nome de Deus, não são Seus filhos. São santos os que efetivam a paz no mundo.

“Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus”.  Os que desejam o mal, a injustiça no mundo, haverão de perseguir os que lutam por um mundo melhor. Os que sofrem por defenderem os injustiçados participam da santidade divina.  

“Felizes sereis vós, quando os outros vos insultarem e perseguirem, e disserem contra vós toda espécie de calúnias por causa de mim. Alegrai-vos e exultai porque recebereis uma grande recompensa no céu. Pois foi assim que eles perseguiram os profetas que vos precederam!” A motivação para remar contra a maré dos valores mundanos deve ser nossa adesão a Cristo. Rejeita-se o orgulho, o causar sofrimento alheio, a violência, a injustiça, a inclemência, a impureza e a guerra porque se é cristão, discípulo de Jesus e se quer viver a amizade com Deus.

Por fim, Jesus prometeu que a humildade, consolar os que sofrem, a mansidão, a justiça, a misericórdia, a pureza e a pacificidade, são condições para sejamos, já neste mundo, felizes. Deus nos conceda viver essas atitudes, a fim de lhe pertencermos.

Pe. Fr. Inácio José, Mestre em Teologia Bíblica.

A MULHER VESTIDA DE SOL


 A MULHER REVESTIDA DE SOL

Neste mês, celebramos Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil.  A liturgia nos apresenta, na primeira leitura, o famoso texto de Apocalipse 12:  uma mulher vestida de sol, com a lua aos pés,  coroada de 12 estrelas,  estando grávida dá à luz alguém que é arrebatado para junto de Deus, tendo a missão de governar toda a terra com cetro de ferro. À fragilidade da mulher e do bebê, contrapõem-se a força e a violência do dragão. 

A literatura apocalíptica possui uma característica fundamental:  o místico  vê, antecipadamente, no céu,  aquilo que haverá de acontecer na terra.  Normalmente, a visão é carregada de símbolos,  que somente sua comunidade é capaz de interpretar. Ap 12 é simbólico, mas, em relação à história narrada, traz justamente o contrário:  tudo o que está expressa nessa visão,  já aconteceu. 

A mulher grávida que dá à luz alguém que foi arrebatado ao céu,  sem sombra de dúvida, é Maria, geradora de Jesus que,  no momento da sua ressurreição,  foi levado para junto de Deus. Ela está coroada de 12 estrelas porque é rainha, mãe do rei-messias, Jesus. 

O dragão que tentou devorar a criança  recém-nascida e depois perseguiu a mulher, que fugiu para o deserto,  representa o império romano,  personificado no rei Herodes,  Rei dos Judeus,  colocado nesse posto pelo Imperador Romano. Quem escreve o texto,  já tinha, em mãos, o relato de Mt 2,  que narra a perseguição do rei Herodes ao recém-nascido Jesus. Em outras palavras, Ap 12 e Mt 2,  estão contando o mesmo fato,  só que de forma diferente:  um em forma de narrativa,  outro em forma de visão apocalíptica. 

Jesus era o Rei-Messias esperado por Israel.  Porém,  foi rejeitado pelas lideranças judaicas,  barbaramente assassinado na cruz pelos romanos,  justificado por Deus,  que o ressuscitou. Ap 12 e Mt 2, tem como pano de fundo, esse fato histórico. 

O vidente de Ap 12  contempla a mulher no céu.   Na sagrada escritura, o céu é a moradia de Deus. Quando o autor escreve esse texto,  provavelmente já se tinha a crença, na Igreja Primitiva,  de que Maria, mãe de Jesus,  havia sido ressuscitada,  já habitando a eternidade. Por isso, a Igreja Católica venera, atualmente, com muito amor e carinho, Nossa Senhora,  pois contempla, realizada nela,  a esperança que todos nós aguardamos: de um dia viveremos eternamente no céu. 

Por outro lado,  essa mulher é perseguida pelo Dragão e foge para o deserto.  Por isso alguns exegetas,  imaginam que a mulher possa representar a Igreja,  perseguida pelas forças do mal, até chegar o dia de sua exaltação ao céu. Mas, por outro lado, pode simbolizar, também, Maria.  Mt 2 relata o exílio de Maria, José e Jesus para o Egito (deserto), fugindo de Herodes (dragão). Ap 12 narra a mesma coisa, só que em linguagem simbólica. 

Deste pequeno exercício exegético, aprendemos algumas lições marianas: Maria é rainha porque é mãe do Rei Messias, Jesus Cristo, que, desde a sua ressurreição, já governa todo o universo. Maria já está ressuscitada no céu, o que nos alimenta a esperança de, um dia, estarmos lá, para vivermos, eternamente, com Deus. Mas, o fato dela estar gloriosa no céu, não a afasta das dores da Igreja. Por isso, como membro da Igreja, que ainda está sofrendo as perseguições das forças maléficas contrárias ao evangelho, ela participa conosco, de nosso exílio temporário da paz.  

Por isso, ao celebrarmos a Padroeira do Brasil, peçamo-la que interceda, junto de Deus, para o nosso Brasil, paz e prosperidade e que nos liberte das forças do mal e da violência que assombram a nossa convivência. 

Pe. Fr. Inácio José, Mestre em Teologia Bíblica.



segunda-feira, 3 de outubro de 2022

ENTREGUE SUA VIDA A DEUS


O autor da carta de Pedro convida ao leitor-ouvinte entregar sua vida a Cristo, procurando a sobriedade, afastando-se de tudo aquilo que é mau.  Resistir às tentações que nos fazem perder a liberdade é a melhor maneira de entregar a nossa vida a Deus.


SOMOS SERVOS INÚTEIS


Para ensinar aos seus discípulos, que não devem buscar reconhecimento humano para o seu apostolado,  Jesus contou a parábola do senhor que não agradece aos seus escravos,  pelo trabalho realizado em casa.  A parábola final do Evangelho deste domingo, para ser bem compreendida, precisa ser localizada no contexto na época de Jesus,  onde existia a escravidão. 


sexta-feira, 23 de setembro de 2022

CONFIAR EM CRISTO QUE NOS LIBERTA

O exemplo do cego Bartimeu nos estimula a confiar em Cristo Jesus, que pode nos libertar dos nossos  pecados, dependências, manias e compulsões. Ele perseverou no caminho até alcançar, de Cristo, a cura.  Assim, também nós,  se quisermos alcançar a liberdade dos filhos de Deus e  a sobriedade que perdemos, devemos perseverar no programa de Vida Nova,  confiando na misericórdia de Cristo por nós. 


quinta-feira, 22 de setembro de 2022

A RIQUEZA NÃO DIVIDIDA PODE NOS CONDENAR

Na primeira leitura,  o profeta Amós ameaça os ricos de Samaria com um castigo fatal, pelo fato deles se enriquecerem à custa dos pobres,  vivendo uma mordomia que os tornavam insensíveis à miséria do povo.  o castigo será o exílio na assíria. 

No evangelho,  Jesus conta a parábola do rico e do Lázaro,  na qual, o rico, insensível à miséria de Lázaro, após a morte,  é exilado de Deus,  ao passo que,  Lázaro, cujo nome significa  "Deus ajuda", é acolhido junto aos seus antepassados.

Na segunda leitura,  Paulo orienta Timóteo a guardar de forma integral o Ministério recebido, servindo fielmente o povo de Deus.


CORAÇÃO DE PEDRA: BÍBLIA E RELIGIÃO EGÍPCIA

Todo leitor ou ouvinte da bíblia já ouviu a expressão “coração de pedra”. Atualmente ela é entendida como uma pessoa dura, cheio de ódio rancor, um coração que não sabe perdoar. Mas, seria este o sentido da expressão “coração de pedra” na bíblia?

Olhando a bíblia do ponto de vista cultural, a expressão “coração de pedra”, provavelmente advém da influência da cultura e religião egípcia sobre o povo de Israel.  Sabe-se que quando os faróis morriam, todos os órgãos eram retirados do corpo, no processo de mumificação, exceto o coração, pois, acreditava-se que, no além, o coração, que simboliza a pessoa, seria pesada na balança de uma divindade. Se o coração pesasse mais, a pessoa seria condenada. Se a balança ficasse equilibrada, a pessoa seria salva.

Desta forma, “coração de pedra” simboliza uma pessoa que praticou a injustiça e a maldade em sua vida, correndo o risco de, na eternidade, ser condenada.


quarta-feira, 21 de setembro de 2022

 MATERIAIS USADOS PARA ESCREVER A BÍBLIA

Atualmente, temos a bíblia impressa, online, no celular, no tablet etc. mas como os textos bíblicos foram escritos? Com que materiais? Em primeiro lugar, a escrita era uma profissão cara. A imensa maioria das pessoas não sabia ler nem escrever. Aprendiam a cultura, religião e a moral, de ouvido. A tradição oral era o ponto forte do povo de Jesus. Quando se escrevia alguma coisa, usava-se materiais tais como: o papiro, planta famosa egípcia que, depois de ressecada, fazia-se uma espécie de papel, onde se escrevia o que fosse necessário. Havia, também, o pergaminho, feito de couro de animal ressecado. Possuía uma durabilidade maior do que os papiros. Havia, também, um costume que se escrever em cerâmicas, colunas de Pedra, tabuinhas de barro. Não temos notícias de textos bíblicos, possam ter sido escritos desta forma, mas sabemos, que as crônicas egípcias, assírias e babilônicas foram registradas desta forma. O fato do texto bíblico ter sido escrito em papiro e pergaminho, traz consequências diretas para o texto bíblico que nós temos hoje. Qual? O fato de que nós não possuímos mais os textos autógrafos, ou seja, os primeiros textos escritos. O que nós possuímos, atualmente, são milhares de pergaminhos, de manuscritos, muitas vezes fragmentados, porque a durabilidade deles é pouca. Dentro da exegese bíblica, temos a crítica textual, que consiste no estudo e comparação de todos esses pergaminhos manuscritos, com a finalidade de propor para a comunidade acadêmica e para a religião, um texto que seja mais próximo do original. Nossos cursos bíblicos podem ser adquiridos aqui.
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 PRA QUEM AINDA ACHA QUE A BÍBLIA FOI ESCRITA PRA GENTE

Desculpe a insistência, mas realmente não foi. É claro que uma pessoa pode tomar para si, um texto o qual ela não era a destinatária primeira. Eu posso tomar uma obra de Shakespeare, ler os lusíadas, posso inclusive ler os textos do Alcorão. O autor desses textos, ao escrevê-los não pensava em mim. Mas, posso lê-los. A pergunta que é preciso fazer é: será que me coloco no lugar do destinatário primeiro do texto, me tornando um leitor competente para realmente entendê-lo e interpretá-lo? Como a bíblia no mundo cristão está envolvida pelo aspecto sagrado, muitos têm a ingenuidade de que basta rezar e pedir ao Espírito Santo que dê entendimento do texto bíblico, e aí entenderão absolutamente tudo. Pois saiba que isso é pura superstição. São Jerônimo, tradutor da bíblia para o latim, homem repleto do Espírito Santo, viveu completamente dedicado à palavra de Deus, teve de aprender hebraico, aramaico e grego, para ler, entender e bem traduzir a escritura. Você pode clamar ao Espírito Santo a noite toda, mas o Espírito Santo não vai te ensinar gramática grega, nem hebraica, nem latina. Não confunda jamais tradução bíblica com o texto bíblico. Toda tradução sempre pode conter um pouco de traição, pois há palavras que só tem pleno significado na sua língua original, na sua cultura. Ao serem transferidas para um outro contexto, a mensagem perde a força. Por isso, qualquer estudante bíblico, deverá, em primeiro lugar, se esforçar por colocar no lugar do destinatário primeiro do texto, de sua religião, de sua cultura, de seu jeito de pensar, para, desta forma, conseguir compreender a mensagem da bíblia e, depois, atualizá-la para os dias atuais. Nossos cursos bíblicos podem ser adquiridos aqui. https://fr-inacio-odem.kpages.online/estudosbiblicos



 5 DICAS PARA O ESTUDO DA BÍBLIA

1. Tenha uma boa bíblia de estudo. Se quer estudar, com profundidade, a palavra de Deus, você deverá adquirir uma bíblia de estudo. Nelas encontramos além de boas introduções ao texto bíblico, notas de rodapé esclarecedoras, passagens bíblicas paralelas, que ajudarão o leitor a ter uma compreensão maior da mensagem.
2. Compare as traduções bíblicas. recordo mais uma vez que nós não temos os textos originais. o que temos são milhares de cópias feitas à mão, nas quais existem milhares de diferenças. estudiosos de renome, dedicaram sua vida à crítica textual bíblica, comparando o manuscrito por manuscrito, para nos propor um texto que seja mais próximo do original. Os tradutores, diante de uma mesma palavra no original hebraico, aramaico e grego, podem ter compreensões distintas da palavra, fazendo surgir diferentes tradições. por isso é importante comparar.
3. Tenha acesso a bons comentários bíblicos, que podem ser adquiridas em boas livrarias católicas. Não vale comentários de internet. Estamos falando de obras produzidas por professores nas universidades católicas ou até mesmo protestantes, que levam o estudo bíblico a sério. Para cada livro bíblico, existem inúmeros comentários e obras publicadas. é necessário estudá-las. Por falta de recursos financeiros, a bíblia do peregrino é uma boa sugestão, pois se trata de uma bíblia totalmente comentada, pelo renomado exegeta espanhol, padre Alonso Shokel.
4. Tenha acesso a dicionários bíblicos. neles encontraremos as palavras bíblicas no seu original, bem como uma lista de quais versículos onde esta palavra aparece. desta forma o leitor terá uma compreensão maior do sentido que determinada palavra tem em toda a bíblia.
5. Por fim, tenha a mente aberta. Quando se começa a estudar a bíblia, muita coisa é desconstruída no nosso imaginário, mas, por outro lado, temos acesso a uma mensagem teológica muito mais bela e profunda, que permanece escondida sob as letras da sagrada escritura.


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A BÍBLIA NÃO FOI ESCRITA PARA VOCÊ.

Essa afirmação pode soar estranha, porque desde que você se entendeu por cristão ou cristã, a bíblia lhe foi dada na mão, você a usou na catequese, você a escuta cada domingo em que vai na Santa missa. Por isso você tem a sensação de que o texto foi escrito para você. Mas, academicamente falando, precisamos admitir, o texto bíblico não foi escrito para nós.

Em primeiro lugar, o texto bíblico foi escrito em hebraico, aramaico e grego. Essas não são as nossas línguas maternas. Isso já nos mostra que, quando pegamos uma bíblia em português em nossas mãos, estamos diante de uma tradução bíblica, que não substitui o acesso aos chamados textos originais.

O texto não foi escrito anteontem. Aliás é um texto antigo e, segundo os eruditos, sua datação varia de 1250 antes de Cristo até o ano 100 depois de Cristo.

Além disso, esses textos foram produzidos em Israel, Babilônia, Egito e nas grandes cidades romanas. os judeus e cristãos destas cidades, eram os destinatários primeiros destes textos que hoje temos em mãos. Portanto, se quero de fato, fazer uma leitura adequada da bíblia, preciso num primeiro momento, esforçar me por enquadrar-me nos destinatários originais desses textos: como eles entenderiam esta mensagem? Essa mensagem é válida para hoje? É possível atualizar esta mensagem para os nossos tempos? são perguntas que todo leitor honesto da bíblia, deveria fazer.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

A bíblia proíbe fazer imagens?



 A Bíblia proíbe fazer imagens? A Igreja Católica é idolátrica por ter imagens dentro de seus templos? Tirando Ex 20,4-5 de seu contexto literário e histórico, é possível chegar a uma errada conclusão. 

O versículo 4 proíbe fazer Ídolos.  Um ídolo é alguma coisa que é colocada no lugar de Deus. A Igreja Católica nunca colocou as imagens no lugar de Deus.  A Igreja sempre ensinou que os fiéis católicos devem adorar somente a Deus que é Pai Filho e Espírito Santo.  Aos santos se presta o culto de veneração E já mais de adoração. 

No contexto literário, esse texto está inserido dentro do decálogo, que são os dez mandamentos que Deus deu ao povo recém liberto da escravidão do Egito. Repare que no versículo 4 proibiu fazer imagens de coisas no céu na terra e abaixo da terra.  isso se deve ao fato de que os deuses egípcios eram muitas vezes representados como animais. Assim se entende a proibição de adorar os deuses egípcios.

Historicamente falando, Moisés esteve no século 13 antes de Cristo.  Não se pode pegar o mandamento daquele tempo e atribuir a Igreja que surgiu após Cristo. A pessoa que pega um texto e aplica no contexto absolutamente diferente, está fazendo uma leitura fundamentalista da sagrada escritura, o que é uma leitura errada.  A Bíblia sempre precisa ser interpretada para chegar na mensagem correta.

Além disso, a Bíblia não tem problemas com imagens pois, em várias ocasiões, o próprio Deus ordena que as faça para estimular a piedade do povo (cf. Ex 25.18.22; 2Sm 6,5-6; 1Rs 6,23-29)

Por fim, a idolatria tem a ver com aquilo que absolutizamos em nossa vida.  o único absoluto de nossa existência deve ser Deus.  Quando Vivemos em função de certas realidades ou coisas que não sejam Deus, somos idólatras.  Por exemplo: quando a pessoa vive em função do dinheiro, do partido político, de uma Filosofia de vida, um clube de futebol etc.

Se um fiel católico pensa que as imagens e medalhas tem um poder Sobrenatural, incorre em idolatria, pois a Igreja nunca ensinou isso. Nesse aspecto, somente Deus pode saber se a pessoa tem uma relação idolátrica ou não com as imagens e medalhas. 



sábado, 2 de abril de 2022

 DEUS LANÇA LONGE DE SI O PECADO DO PASSADO.

 

Neste quinto domingo da quaresma, a palavra de Deus nos convida a fazer a experiência da misericórdia, sobretudo pela meditação do evangelho de João 8,1-11. Nesta cena, uma mulher é pega em flagrante adultério, posta diante de Jesus, já sentenciada à morte. A leitura faz surgir algumas perguntas: o âmbito religioso é lugar de matar ou salvar as pessoas? Pois querem matar a mulher no Templo! Onde está o adúltero? Afinal, a lei mandava apedrejar os dois, a começar pelo homem (cf. Lv 20,10). A atitude de Jesus desmascara a hipocrisia religiosa. Ao salvar aquela mulher da morte, também a corrigiu e exortou a não voltar à vida de pecado. Assim Deus faz conosco: ele não quer a nossa morte, mas quer a nossa vida e nossa mudança de conduta.

Is 43,16-21 faz parte do conjunto de profecias atribuídas à Segundo Isaías (Is 40-55). Ele profetizou para o povo de Israel exilado na Babilônia, anunciando que Deus lhes fará um novo início, um novo êxodo. Isso também é sinal de misericórdia, pois pensam estar exilados por terem descumprido a lei de Deus. Por isso, merecem esse castigo. Mas, através do profeta, recebem a palavra consoladora, de que Deus haverá de libertá-los novamente. 

Aproxima-se a festa da Páscoa cristã. Que ela seja para nós um sinal de um novo começo de vida cristã e de um novo êxodo, ou seja, de uma nova libertação dos nossos pecados para uma vida mais santa aos olhos de Deus.

Em Fl 3,8-14, Paulo afirma que ainda não alcançou a meta cristã: a ressurreição dos mortos. Ele já foi alcançado por Jesus Cristo. Esse fato lhe proporcionou conversão. Ele mudou a mentalidade: antes pensava que era salvo pelas obras da lei, mas agora se considera salvo somente por Cristo. Atualmente, esse texto nos ensina que nunca devemos de pensar que já fizemos demais por Cristo, ou que já amadurecemos tudo na vida de fé. A cada dia precisamos crescer mais até chegarmos à estatura de Cristo.

Que Deus nos abençoe e nos conceda uma santa vivência deste Dia do Senhor.

Pe. Fr. Inácio José, OdeM

https://youtu.be/Hsac6CdR7GA

quarta-feira, 30 de março de 2022

A RELAÇÃO ENTRE IGREJA E SOCIEDADE


 

A RELAÇÃO ENTRE IGREJA E SOCIEDADE

Em nosso contexto brasileiro, vemos a tentativa da religião ocupar os espaços públicos. Nas últimas eleições, cresceu o número de candidaturas vinculadas às Igrejas, sobretudo evangélicas e pentecostais. Existe a expectativa de, nas próximas eleições, esse número cresça cada vez mais. Os candidatos católicos, ou são religiosos que deixam a missão para assumir uma função pública, ou são leigos fundamentalistas engajados em movimentos carismáticos eclesiais. Recentemente, surgiram supostos escândalos, promovidos por pastores evangélicos, dentro do Ministério da Educação, possuidor em suas pastas de um dos maiores recursos econômicos, com os quais se pode promover favores. Diante destas situações, pergunta-se: que tipo de relação deve haver entre Igreja e sociedade?

Contemplando o passado...

Voltando o olhar para a história da Igreja, recorda-se que no passado, o poder religioso estava vinculado ao poder político, sobretudo no tempo medieval. O papa era, praticamente, o rei de toda a Europa. A sociedade vivia um clima de cristandade: na moral e os costumes do povo eram pautados pelos valores cristãos, bem como, todas as questões surgidas na subjetividade humana eram respondidas pela fé católica. Não havia espaço para a pluralidade. Sujeitos que buscassem respostas por meio das ciências, ou pautassem suas vidas por outra experiência religiosa, não sendo a católica, eram perseguidos.

Com o advento da modernidade, o sujeito passou a buscar as respostas por si mesmo e tudo que não passasse pelo crivo da razão, ou da ciência, era questionável. Com a reforma protestante, o catolicismo passou a perder hegemonia e espaços na política. A sociedade se tornou plural e o catolicismo passou a ser uma das vozes dentre tantas outras existentes na sociedade, deixando de ser a voz determinante na moral, nos costumes e na fé.

Contemplando o presente...

Atualmente vive-se o que os autores chamam de pós-modernidade. Percebe-se a exacerbação dos valores modernos tais como: individualismo, hedonismo etc. Diante disso, setores mais conservadores dentro do catolicismo, publicamente, manifestam sua insatisfação com a postura dialogal assumida pela Igreja Católica com a sociedade, a partir do Concílio Vaticano II. As Igrejas evangélicas, por sua vez, com as suas visões fundamentalistas da fé e da bíblia, procuram ocupar os espaços públicos, tendo, de fato, um plano político desrespeitoso com o pluralismo religioso de nossa sociedade ou a laicidade estatal. Uma vez que o Estado é laico, este deve promover o respeito entre todas as expressões religiosas e dos ateus, mas não se pautando por uma postura religiosa nas suas decisões políticas, pois a carta magna da nação não é a Bíblia, mas sim a Constituição Brasileira.

Sendo a bíblia a fonte primeira de toda reflexão teológica, queremos a partir do novo testamento, buscar pistas que nos orientem acerca da relação Igreja e sociedade.

Contemplando a Palavra...

Do ponto de vista da doutrina e da catequese católica, sempre se afirmou que Jesus quis e fundou uma Igreja[1]. Sem negar a doutrina católica, hoje prefere se dizer que Jesus é o fundamento da Igreja, mas não que, explicitamente, Ele quisesse fundar uma nova comunidade religiosa. Vários autores e pesquisadores[2], compreendendo a pessoa de Jesus histórico, dentro do contexto judaico do século I, O afirmam como um profeta apocalíptico, ou seja, um pregador da chegada iminente do Reino de Deus, tal qual João Batista[3].

O Reino de Deus seria a intervenção definitiva divina na história humana, por meio do Messias. Ele haveria de governar para sempre Israel, e, a partir desta nação, proporcionar justiça, paz e fraternidade ao mundo todo. Uma vez chegado o Reino de Deus, não existiria mais a necessidade de uma nova comunidade religiosa, pois o próprio Deus estaria presente na consciência de toda a humanidade[4].

Comparando os evangelhos, nota-se a cena na qual, Pedro afirma Jesus enquanto Messias. Apenas em Mateus, num único versículo, Jesus afirma que fundaria uma Igreja[5]. A mesma cena nos demais evangelhos não afirmam isso, levando-nos a crer, do ponto de vista da exegese bíblica, que este versículo retrataria um aspecto específico da comunidade mateana e não seria um dito originário de Jesus[6]. Em tese, para um profeta apocalíptico, não haveria necessidade de Igreja, pois o Reino de Deus chegaria a qualquer momento.

Entretanto, sabe-se o que aconteceu com Jesus: foi barbaramente assassinado numa cruz pelo Império Romano. Sua morte não foi gratuita. Jesus foi assassinado pelo fato de ser profeta. Sua pregação sobre a proximidade do Reino de Deus gerava no coração das pessoas a insatisfação diante do reinado de César, que trazia para o povo judeu opressão, escravidão e morte. Jesus foi morto porque sua pregação sobre o Reino e sua pessoa foram considerados perigosos aos olhos do Império, como tantos outros crucificados.

Contudo, os discípulos afirmam que Jesus foi ressuscitado e exaltado à glória dos céus. Esta é a diferença entre Jesus e os demais crucificados de sua época. O que foi humilhado pelo poder político de então, foi exaltado pelo poder divino. Daí nasceu, na comunidade eclesial, a crença de que Jesus ressuscitado, voltaria uma segunda vez para estabelecer, de modo cabal, o Reino de Deus na história humana. Isso aconteceria em breve, conforme se nota em vários textos neotestamentários[7].

Porém, a brevidade se tornou demora. Muitos começaram a questionar se Jesus, de fato, voltaria uma segunda vez. Afinal, os discípulos de Jesus, confessando-O como Messias, foram expulsos das sinagogas judaicas, tornando-se agora uma religião ilícita diante do Império, sendo obrigados a adorar o imperador como se fosse Deus e, como recusavam-se a esta prática, eram perseguidos e martirizados[8].

Enquanto Jesus não voltava, o jeito era dignificar a vida dos desumanizados pelo Império Romano. Lendo as cartas paulinas, percebe-se que os membros da Igreja eram, precisamente, os marginalizados pela sociedade greco-romana de então[9]. Aliás, “Igreja” é uma palavra, originalmente, vinda do mundo político e não do mundo religioso. Igreja era a assembleia dos cidadãos, daqueles que tinham voz e vez na sociedade e, deliberavam os caminhos e as decisões da comunidade[10]. Nas comunidades eclesiais, aqueles que não tinham voz social, eram incluídos. Justificava-se, assim, a necessidade de uma Igreja, uma comunidade alternativa de cidadãos formada pelos discípulos de Jesus, fazendo uma contraposição à sociedade greco-romana excludente. Eles aguardavam, ansiosamente, a segunda vinda de Cristo, coincidindo com a chegada do Reino e durante esta espera, continuavam a praticar o que Jesus lhes havia ensinado, sendo presença samaritana junto aos sofredores, como forma de adiantar a chegada do Reino. A Igreja nasceu, assim, como consequência da demora da parusia[11].

O que a Palavra nos inspira?

Partindo do exemplo de Jesus, intui-se que o papel eclesial na sociedade há de ser a profecia. Inspirada pela Palavra de Deus, a comunidade eclesial deve fermentar as realidades sociais com os valores humanizantes, bem como, denunciar situações de injustiça destruidoras da dignidade humana. Nesse sentido, a Igreja não pode temer a perseguição e a incompreensão social quando levantar a voz contra os abusos dos direitos humanos, a corrupção, as agressões às vidas inocentes.

Da práxis das comunidades eclesiais primitivas, descobre-se que a Igreja, além de exercer a profecia, deve cuidar dos excluídos da sociedade. Este é um ponto que, seriamente, precisa ser refletido. Por causa do moralismo católico, muitos afastam-se de nossas comunidades e, por outro lado, membros de nossas Igrejas comportam-se como os fariseus no tempo de Jesus, tendo comportamentos preconceituosos, discursos de ódio e cheio de moralismos, para com os destoantes da moral católica. O Papa Francisco propõe-nos uma Igreja acolhedora de todas as pessoas na sua condição existencial; ensina-nos a escutá-las com amor, acompanhá-las com atenção, discernir junto a elas um caminho de reconciliação com a Igreja[12]. A misericórdia deve sempre estar acima da moral[13].

A Igreja não deve ansiar ocupar os espaços de poder público, de tal modo a forçar a fé e a moral cristã para todos, como tantos líderes religiosos evangélicos pretendem, mas sim, no meio social, ocupar-se das vítimas deste sistema econômico que mata, no dizer do Santo padre o Papa Francisco. A história pregressa da Igreja demonstra que a união de poder religioso e político causou sérios danos para sua vida espiritual e o seu testemunho evangélico.

O papel de ocupar os espaços públicos, na visão católica, é responsabilidade dos leigos. Estes sim, bem formados na Doutrina Social da Igreja, devem ocupar os poderes públicos, tendo em vista promover políticas públicas pautadas nos valores do evangelho, aqui entendido como essa proposta de humanização da sociedade, sempre respeitando o pluralismo religioso e de opiniões existentes em nossa sociedade. Nesse aspecto, o grande desafio do magistério católico é fazer com que sua doutrina social seja conhecida pelos fiéis. Não poucas vezes, sobretudo neste contexto político polarizado no qual vivemos, percebemos muitos católicos avessos à política ou alienados por ideologias políticas anticristãs.

Conclusão

Jesus, nos evangelhos, utiliza algumas metáforas para se referir a ação apostólica dos discípulos: sal da terra, luz do mundo e fermento na massa[14]. O sal, na antiguidade, além de temperar a comida, conservava a carne e curava as feridas. A luz servia para iluminar a casa e, sobretudo, para os viajantes, a luz das estrelas servia de orientação. O fermento era considerado uma substância impura para o judaísmo, mas, sem ele, não se tinha o pão cotidiano. Essas metáforas podem ser aplicadas à Igreja.

Na sua relação com a sociedade, a Igreja é chamada a temperar as relações sociais com os valores evangélicos; a conservar, na sociedade, o valor inviolável da vida, sobretudo dos que mais sofrem e, mediante a acolhida fraterna, curar as feridas das pessoas. Tendo a Jesus Cristo e seu evangelho como sua maior riqueza, a Igreja deve propor o evangelho como luz que oriente as pessoas na construção de uma sociedade mais justa e fraterna. A Igreja também é fermento: não deve temer relacionar-se com os que a sociedade e a própria comunidade religiosa consideram como impuros, mas acolhendo-os e incluindo-os, ser exemplo de uma sociedade onde haja vida e espaço para todos. E assim, adiantar a chegada do Reino, da qual quer ser sinal.

Pe. Fr. Inácio José, OdeM, Mestre em Teologia Bíblica.



[1] Catecismo da Igreja Católica n. 763-766.

[2] Albert Schweitzer (1906), Bart Ehrman (2001), dentre outros.

[3] Mt 3,2; 4,17; Mc 1,14-15; Lc 4,43. “Reino dos céus”, em Mt, tem o mesmo significado de “Reino de Deus” dos demais sinóticos.

[4] Sobre o Reino de Deus cf. Is 9,7; Jr 23,5; Dn 7,13-14. Sobre o conhecimento de Deus cf. Is 11,9; Jr 31,34; Hb 2,4.

[5] Mt 16,18. Comparar com Mc 8,27-30 e Lc 9,18-21. O evangelho de João coloca a profissão de fé petrina em outro contexto, Jo 6,66-69.

[6] Para os critérios metodológicos acerca da pesquisa dos ditos originários de Jesus cf. THEISSEN, Gerd. METZ, Annette. El Jesus Historico. Manual. Salamanca: Ediciones Sigueme, 1999, p. 139-140. Este livro foi traduzido para o português pela Loyola.

[7] Tais textos evidenciam a expectativa iminente da parusia: 1Ts 4,13-17; Hb 10,37; 2Pd 2,9; Ap 1,1; 2,16; 22,6.

[8] Ap 7,14; 12,11. Apocalipse foi escrito no fim do séc. I, tendo como pano de fundo a perseguição romana contra os cristãos.

[9] Trabalhadores manuais: 1Cor 4,12; Ef 4,28; 1Ts 4,11. Escravos: Ef 6,5; Cl 3,22; 1Tm 6,1; Tt 2,9. Mulheres: At 18,18; Rm 16,1.3; 1Cor 16,19; 2Tm 4,19.

[10] Igreja. In: MACKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 2005, p. 432.

[11] É conhecida a polêmica frase de Alfred Loisy: “Jesus veio proclamando o Reino, e o que chegou foi a Igreja. (L’Evangile et l’Eglise). Atualmente, do ponto de vista histórico, tal frase é plenamente aceita.

[12] Papa Francisco, Amoris Laetitia, 291. 296-300.

[13] Papa Francisco, Amoris Laetitia, 311.

[14] Mt 5,13-14; 13,33. 

sexta-feira, 18 de março de 2022

Não abusemos da paciência divina

A Palavra de Deus, neste terceiro domingo quaresmal, nos convida a conversão. o evangelho nos apresenta um diálogo de Jesus com algumas pessoas que pensavam que as tragédias que aconteciam eram castigos divinos. Jesus esclarece que os galileus assassinados por Pilatos, bem como aqueles que morreram soterrados pela torre de Siloé, não eram pecadores, mas que se nós não nos convertemos morreremos todos do mesmo modo. O que Jesus quis dizer com isso? Jesus, em hipótese alguma, estava justificando que o sofrimento desses que morreram era um castigo dado por Deus, mas queria chamar a atenção de que eles não estavam preparados para morrer: foram assassinados ou lhes aconteceu uma tragédia.

Todos nós haveremos de morrer um dia, mas não sabemos como isso acontecerá. A pergunta que todos nós devemos fazer é: estaremos praticando a vontade de Deus quando a morte chegar? Podemos às vezes cair na ilusão de que Deus sempre tem paciência conosco. Isso é verdade, mas um dia, a árvore de nossa vida será cortada. A parábola que Jesus conta refere-se ao seu ministério. A figueira simboliza o povo de Israel que, ao escutar a palavra de Jesus, não se converteu e nem produziu os frutos de santidade. O dono da vinha simboliza Deus desejoso dos frutos de justiça de seu povo. É interessante notar que se trata de uma figueira plantada numa vinha, ou seja, uma árvore plantada no lugar errado, mas que mesmo assim, Deus tem paciência e espera que esta figueira possa dar os frutos desejados.

Na primeira leitura temos a revelação de nome de Deus dada a Moisés. Deus se revela como “Eu sou” e envia Moisés para libertar o povo da escravidão do faraó. Esse texto nos ensina que Deus é contra todo tipo de escravidão que aflige o ser humano. Esse Deus revelado a Moisés se identifica com o Pai que Jesus nos revelou.

Na segunda leitura por sua vez, Paulo faz uma leitura tipológica de várias cenas do Êxodo, relembrando o cuidado de Deus para com o povo no deserto e, ao mesmo tempo, a murmuração deste para com Deus. Paulo faz uma leitura tipológica destas cenas vétero testamentárias para a sua comunidade de fé em Corinto. A Igreja agora, é o novo povo de Deus, caminhando pela travessia da vida, até chegar na terra prometida da eternidade. Cristo nos alimenta com o seu corpo e sangue, e Ele mesmo é a nossa bebida espiritual que sacia a nossa sede de Deus.

Ao participarmos da celebração eucarística, neste domingo, peçamos ao Pai a graça de não abusar de sua paciência, que aproveitamos a nossa vida para verdadeiramente nos converter ao evangelho e que possamos aprender a ler o Primeiro Testamento a partir da experiência de Cristo, verdadeira palavra de Deus revelada a toda a humanidade.

Deus nos abençoe.

Pe. Fr. Inácio José, mestre em teologia bíblica.





JESUS É O PÃO QUE NOS ALIMENTA

A PACIÊNCIA DIVINA

QUE O SENHOR TE ABENÇOE

  QUE O SENHOR TE ABENÇOE! Na Solenidade da Santa Mãe de Deus , celebrada no início de cada ano, a liturgia propõe como primeira leitura o t...