segunda-feira, 24 de novembro de 2025

A INSTRUMENTALIZAÇÃO POLÍTICA DA FÉ

 A INSTRUMENTALIZAÇÃO POLÍTICA DA FÉ

A intenção desta coluna não é provocar polêmica, mas convidar o leitor à reflexão sobre o dilema que o nosso país enfrenta atualmente. Reflito aqui como padre e teólogo bíblico em formação pela Igreja. Existe um ditado popular que diz: "religião e política não se misturam". Nada mais falso do que isso, pois todo discurso religioso carrega em si uma consequência política. E aqui, precisamos esclarecer o que entendemos por "política".

Em seu sentido original, Política tem a ver com o bem da pólis, da cidade. Política diz respeito ao bem comum, ao bem da sociedade em geral. Não tem nada a ver com política partidária ou filiação a ideologias específicas. Quando Jesus alimentava os famintos, curava os doentes e incluía os marginalizados, Ele estava assumindo uma atitude política influenciada por sua religião, por sua profunda experiência de Deus.

O Reino de Deus: Uma União de Fé e Pólis

Ao voltarmos para as catequeses primeiras, que são os Evangelhos, notamos que tudo o que Jesus fazia tinha como justificativa o Reino de Deus. A expressão "Reino de Deus" une dois campos: Reino é uma palavra do campo da política (poder/governo), e Deus é uma palavra do campo religioso.

O Reino de Deus que Jesus tanto pregava – em função do qual curava, exorcizava, perdoava e alimentava – era a crença judaica de que um dia Deus reinaria definitivamente sobre Israel. Quando o Reinado de Deus chegasse, tudo aquilo que oprimia o povo haveria de desaparecer. No contexto histórico de Jesus, isso significava a expulsão do Império Romano e o governo do Messias, que reuniria todos os filhos de Israel. Note que Jesus preocupou-se com as vítimas do Império e não em enfrentá-lo diretamente.

Repare que a atitude de Jesus de compaixão para com todos os que sofriam era uma atitude política, mas com um profundo fundamento religioso.

A Instrumentalização da Fé Hoje

O que assistimos hoje no Brasil é, na verdade, uma instrumentalização da fé. Sob a bandeira das ideologias partidárias, a religião é usada para angariar votos. Os políticos, sabendo que nosso povo é religioso, utilizam a fé para conquistar os cargos que almejam e, depois, são capazes de votar contra o próprio povo.

Recentemente, no dia 21 de novembro, o Papa Leão XIV, falando para jovens norte-americanos, afirmou que devemos evitar usar categorias políticas para se referir à Igreja. “A Igreja não pertence a nenhum partido político”. A Igreja não é nem de direita, nem de esquerda, porque segue o Evangelho de Jesus Cristo, que está acima de toda ideologia. Na verdade, o Evangelho é a instância crítica que julga se determinadas políticas (de direita, de centro ou de esquerda) estão convenientes com os valores do Reino de Deus.

A Necessidade de um Voto Crítico

É preciso que você esteja bem atento, porque no ano eleitoral usarão novamente o discurso de que "cristão não pode votar em partido X ou Y", o que não é verdade.

Há valores do Evangelho tanto nas pautas de direita quanto nas de esquerda. Contudo, o conjunto de todas as pautas (de qualquer ideologia) frequentemente contém políticas que são contrárias aos Evangelhos. Por isso, a aderência do cristão a uma ideologia política deve ser sempre crítica.

Doutrina Social da Igreja: O Guia Crítico

A Doutrina Social da Igreja (DSI) serve como a bússola para a crítica cristã, não se alinhando rigidamente a nenhuma ideologia, mas dialogando com ambas. A DSI favorece pautas de inclusão social, superação da desigualdade e o cuidado estatal com os pobres (frequentemente associadas à esquerda), ao mesmo tempo que defende a vida desde a concepção ao fim natural, a instituição familiar e a propriedade privada como meio de sustento (pautas comuns à direita). Contudo, a Igreja se opõe veementemente ao relativismo moral e sexual (pautas de esquerda), assim como à exclusão de imigrantes, à negligência dos direitos humanos e à defesa de uma propriedade privada absoluta que acentua a distância entre ricos e pobres (pautas associadas à direita). Dessa forma, a adesão do cristão a qualquer plataforma política deve ser sempre crítica, buscando os valores do Evangelho que promovam a justiça e o bem comum, independentemente da etiqueta partidária.

Aqui está a versão refinada do parágrafo final, mantendo a força e o foco da sua mensagem:

O Alerta Final: A Venda da Alma às Ideologias

Por fim, é preciso dizer que, lamentavelmente, diversas lideranças religiosas têm vendido suas almas às ideologias políticas, desconsiderando sua fidelidade primordial ao Evangelho. Recentemente, vimos nas redes sociais a profunda decepção de algumas lideranças que rezaram a Deus para que seu "político de estimação" não fosse preso. Vimos, por outro lado, outras lideranças religiosas manifestando alegria pelo mesmo acontecimento. Ambos os lados estão instrumentalizando a religião em favor de interesses políticos.

Quando um candidato ou líder usa o nome de Deus a seu favor para demonizar o lado oposto, isso configura abuso espiritual e instrumentalização política da fé alheia. Essa prática deve ser seriamente evitada, pois incorre no pecado de usar o Santo Nome de Deus em vão. Qualquer pessoa de bom senso perceberá que essas lideranças não estão falando em nome do Evangelho – afinal, como o mesmo Deus poderia justificar posturas políticas tão opostas? Na verdade, estão falando em nome de suas convicções políticas pessoais.

O critério, mais uma vez, reside nas mãos do fiel: discernir se a proposta política apresentada está alinhada com os valores perenes do Evangelho ou se é apenas um disfarce para interesses ideológicos e partidários.

Pe. Fr. Inácio José, teólogo e biblista

A Perseguição aos Cristãos: Uma Perspectiva Histórica e Bíblica

 A Perseguição aos Cristãos: Uma Perspectiva Histórica e Bíblica

A Igreja recebe constantemente, com tristeza e pesar, a notícia de cristãos barbaramente perseguidos e assassinados em diversos lugares do mundo. A opressão manifesta-se em nações africanas, como Nigéria, Sudão e Camarões, e em regimes ditatoriais, como Nicarágua e Coreia do Norte. Há, ainda, o caso peculiar da China, na qual a Igreja tem certa liberdade religiosa, mas é compelida a permanecer em constante silêncio. Este mistério dos cristãos serem perseguidos em cada época já foi, de certa forma, anunciado pelas catequeses primeiras, que são os textos bíblicos.

O Fundamento Histórico do Cristianismo

Antes de adentrarmos neste tema sob a perspectiva bíblica, é essencial fazermos uma contextualização histórica, jamais esquecendo que a experiência concreta vivida pelos cristãos deu origem aos textos sagrados.

Do ponto de vista histórico e sociológico, o Cristianismo nasceu da experiência dos discípulos de Jesus, a partir da Ressurreição de Cristo. Os discípulos experimentaram Jesus ressuscitado e, a partir de então, começaram a proclamá-l'O como o Messias de Israel.

Historicamente, Jesus poderia ter sido enquadrado como um profeta apocalíptico, tal como vários outros de Sua época. O diferencial crucial é que, após Seu martírio, os Seus discípulos deram testemunho de que Ele havia sido ressuscitado por Deus. A partir desse evento, eles O compreenderam como o Filho de Deus e Messias de Israel e, por Sua ressurreição, passaram a considerá-l'O Rei de todo o universo, pois está sentado à direita de Deus Pai (cf. Mc 16,19; At 2,33).

O Início da Perseguição

Ao confessarem Jesus como Messias de Israel, os cristãos começaram a ser expulsos das sinagogas pelos judeus (Jo 9). Essa separação fez com que o Cristianismo deixasse de ser visto como uma seita lícita do Judaísmo, tornando-se uma religião ilícita perante o Império Romano.

Isso ocasionou a perseguição por parte do Império. Os cristãos confessavam Jesus como Deus e recusavam-se a cultuar o Imperador Romano como uma divindade – algo exigido de todos os habitantes do Império. Essa recusa foi vista como um ato de traição e subversão política, resultando na perseguição dos seguidores de Cristo (Ap 13,15).

A Perseguição nas Escrituras

É neste contexto histórico que os Evangelhos são escritos. Em todos eles, anuncia-se que os cristãos seriam perseguidos por causa de sua adesão a Jesus. Por exemplo, nas Bem-aventuranças, Jesus afirma:

"Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados sois vós, se vos perseguirem por causa de mim. Alegrai-vos!" (Mt 5,10-12)

Quando Jesus envia os discípulos em missão, Ele adverte que eles serão entregues a governadores e açoitados nas sinagogas (cf. Mt 10,17). Tudo isso indica que, desde o início, aqueles que confessavam Jesus como Messias e Ser Divino sofreram perseguições.

Por outro lado, há textos de esperança que, diante da iminência do martírio, afirmam:

  • Não preparar defesa: Os discípulos não devem preparar defesa alguma, porque o Espírito Santo os inspirará no momento (cf. Mc 13,11).
  • Vida preservada: Mesmo sendo entregues por seus próprios familiares, a vida essencial permaneceria segura, pois "nenhum fio da própria cabeça haveria de se perder" (cf. Lc 21,18).

A Perseguição no Apocalipse

O Livro do Apocalipse foi todo escrito sob esta perspectiva. A perseguição aos cristãos era tamanha que eles tiveram de usar uma linguagem altamente simbólica e esotérica, facilmente entendida pela comunidade, mas estranha a quem estava fora do contexto cristão. A grande mensagem do Apocalipse é que a Igreja, apesar de todas as perseguições sofridas pelo "dragão" do Império Romano, se ela permanecer fiel, Cristo, o Cordeiro de Deus, haverá de resgatá-la e salvá-la. A mensagem é clara: o bem prevalecerá, mas isso não isenta a Igreja de padecer os males das perseguições históricas.

O Paradoxo de Jesus e a Mensagem da Páscoa

Contudo, o leitor atento perceberá um paradoxo: tudo aquilo que a narrativa bíblica diz que os discípulos receberiam de proteção, Jesus mesmo não experimentou.

Diante do tribunal de Seu julgamento, Jesus ficou em absoluto silêncio, não sendo inspirado em nenhuma palavra para se autodefender (cf. Mt 27,14). Jesus foi barbaramente torturado e assassinado pelos romanos. Os fios de Sua cabeça não foram protegidos. Qual é, então, a mensagem que essa diferença quer transmitir aos cristãos?

A mensagem central do Evangelho é a de tentar entender a perseguição pela perspectiva da Páscoa, pela perspectiva da Ressurreição. Todas as perseguições anunciadas por Jesus, os cristãos estavam vivendo no momento da escrita dos evangelhos. Ao colocarem essas palavras nos lábios de Jesus, os evangelistas parecem querer ensinar que, mesmo sendo perseguidos, torturados e assassinados por causa de sua fé, os discípulos devem compreender isso a partir dos olhos da Vida Nova, da Vida Eterna que se lhes abrirá pela sua entrega voluntária e morte em fidelidade ao Evangelho que professam. A promessa de proteção não é física neste mundo, mas a certeza da vitória final na Eternidade, seguindo o caminho de sacrifício e ressurreição do Mestre. Afinal de contas, Jesus que outrora foi perseguido, agora vive para sempre!

O Significado do Mártir

O cristão sabe que haverá de ser perseguido por causa de sua fidelidade aos valores do Evangelho. O cristão, por natureza, é um mártir.

O Evangelho de João define o Espírito Santo como o Paráclito, palavra grega que significa Advogado de Defesa (cf. Jo 14,16). Quem precisa de advogado é quem está sendo acusado ou perseguido. Atos dos Apóstolos deixa claro: o Espírito Santo virá sobre os discípulos para que eles possam testemunhar Jesus em todo lugar, começando por Jerusalém (cf. At 1,8). Testemunho, em grego, se diz martyria, de onde vem a palavra Mártir. Testemunhar é dar a vida por amor a Jesus. O cristão se sabe profundamente amado por Cristo, e por isso, por amor, é capaz de sofrer tudo por Aquele que em primeiro lugar lhe deu a própria vida.

Conclusão: Fidelidade e Não-Violência

A Igreja Católica, desde o Concílio Vaticano II, tem uma firme postura de defesa da Liberdade Religiosa. Nenhuma pessoa pode ser coagida ou obrigada a professar uma fé, seja pelo Estado ou por qualquer outro grupo. Quando o ser humano aprende a respeitar o outro, inclusive na sua subjetividade religiosa, essas perseguições diminuem. Contudo, diante das injustiças que prevalecem no mundo, os cristãos sempre haverão de levantar a sua voz para defender o bem, a verdade e a justiça em nome de Jesus Cristo, mesmo que isso lhes custe a incompreensão e a própria vida.

O que não se pode, em hipótese alguma, é admitir que o cristão justifique a violência para matar, destruir ou aniquilar seus adversários e inimigos religiosos. Fazer isso é esquecer sua vocação primeira de ser mártir. O cristão é capaz de dar a própria vida por amor, mas não pode tirar a vida de quem o detesta e odeia. Que em nossas orações possamos sempre lembrar não somente dos cristãos perseguidos por causa de sua fé, mas de toda pessoa que professa sua fé em Deus com sinceridade de coração e que é perseguida. Como diria um renomado teólogo: “só haverá paz no mundo se houver paz entre as religiões”. Que Deus, um dia, nos conceda essa paz!

Fr. Inácio José, biblista e teólogo. 

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