domingo, 25 de janeiro de 2026

QUE O SENHOR TE ABENÇOE

 QUE O SENHOR TE ABENÇOE!

Na Solenidade da Santa Mãe de Deus, celebrada no início de cada ano, a liturgia propõe como primeira leitura o texto do Livro dos Números (6,22-27), no qual se encontra a antiga fórmula da bênção sacerdotal:

“O Senhor falou a Moisés, dizendo:
‘Fala a Aarão e a seus filhos:
Ao abençoar os filhos de Israel, dizei-lhes:
O Senhor te abençoe e te guarde!
O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e se compadeça de ti!
O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!
Assim invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel,
e eu os abençoarei.’”

Esse texto, segundo os estudiosos, foi provavelmente redigido por sacerdotes durante o exílio na Babilônia e utilizado como uma fórmula litúrgica de bênção sobre o povo de Deus. No original hebraico, o texto apresenta-se em três frases: a primeira composta por três palavras, a segunda por cinco e a terceira por sete. A soma total resulta em quinze palavras, número que, na numerologia judaica, corresponde ao valor simbólico do Nome divino “Iah”. Por isso, o versículo 27 afirma que, ao pronunciar tal bênção, invoca-se o Nome de Deus sobre o povo.

Invocar o Nome de Deus é, portanto, desejar bênção, proteção, o esplendor do rosto divino, a misericórdia e a paz. O verbo “abençoar” aparece quatro vezes nesse trecho. Curiosamente, sua primeira ocorrência na Sagrada Escritura encontra-se na narrativa da Criação, quando Deus abençoa as aves e os peixes, desejando-lhes fecundidade e multiplicação sobre a terra (cf. Gn 1,22). Assim, abençoar, em sua acepção mais profunda, significa desejar vida e fecundidade.

Em latim, “benedicere” quer dizer “dizer o bem”, enquanto “maldição” corresponde a “dizer o mal”, ou seja, desejar a morte ou a esterilidade. O Novo Testamento reforça esse ensinamento ao exortar os cristãos a nunca amaldiçoarem, mas abençoarem até mesmo os inimigos, conforme ensina o próprio Cristo: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5,44), e conforme repete São Paulo: “Abençoai os que vos perseguem; abençoai, e não amaldiçoeis” (Rm 12,14). Toda maldição pronunciada contra o outro, adverte a tradição cristã, retorna àquele que a profere.

Quando dizemos “O Senhor te abençoe”, professamos que Deus nos conceda vida e fecundidade. Ao afirmar “que Ele te guarde”, pedimos que Deus nos proteja em todos os caminhos, recordando o Salmo que diz: “Não dorme nem cochila o guarda de Israel” (Sl 121,4).

A expressão “O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face” representa o sorriso divino, ou seja, que vivamos de modo a alegrar o coração de Deus. E, se porventura não vivermos conforme sua vontade, que Ele se compadeça de nós, manifestando sua misericórdia e perdão.

Quando se proclama “O Senhor volte para ti o seu rosto”, pede-se que Deus mantenha a vida em nós. Recordemos o relato do Gênesis, quando o Criador, inclinando-se sobre o barro modelado, soprou-lhe o hálito da vida (Gn 2,7). Na tradição bíblica, a vida é sustentada pela presença do rosto divino voltado para a criatura.

Por fim, ao dizer “O Senhor te conceda a paz”, pedimos mais do que a simples ausência de conflitos. A paz (shalom), na Sagrada Escritura, significa a plenitude dos bens necessários à felicidade humana: saúde, moradia, alimento, lazer, harmonia nas relações com Deus, com o próximo e com toda a criação.

Tudo isso é o que desejo a você, caro leitor, neste novo ano que se inicia: que 2026 seja abundantemente abençoado por Deus, trazendo-lhe saúde, paz, santidade e caridade para com os necessitados. Pois este é o caminho de salvação revelado no rosto humano de Deus, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Feliz 2026!

Frei Inácio José
Teólogo e Biblista


segunda-feira, 24 de novembro de 2025

A INSTRUMENTALIZAÇÃO POLÍTICA DA FÉ

 A INSTRUMENTALIZAÇÃO POLÍTICA DA FÉ

A intenção desta coluna não é provocar polêmica, mas convidar o leitor à reflexão sobre o dilema que o nosso país enfrenta atualmente. Reflito aqui como padre e teólogo bíblico em formação pela Igreja. Existe um ditado popular que diz: "religião e política não se misturam". Nada mais falso do que isso, pois todo discurso religioso carrega em si uma consequência política. E aqui, precisamos esclarecer o que entendemos por "política".

Em seu sentido original, Política tem a ver com o bem da pólis, da cidade. Política diz respeito ao bem comum, ao bem da sociedade em geral. Não tem nada a ver com política partidária ou filiação a ideologias específicas. Quando Jesus alimentava os famintos, curava os doentes e incluía os marginalizados, Ele estava assumindo uma atitude política influenciada por sua religião, por sua profunda experiência de Deus.

O Reino de Deus: Uma União de Fé e Pólis

Ao voltarmos para as catequeses primeiras, que são os Evangelhos, notamos que tudo o que Jesus fazia tinha como justificativa o Reino de Deus. A expressão "Reino de Deus" une dois campos: Reino é uma palavra do campo da política (poder/governo), e Deus é uma palavra do campo religioso.

O Reino de Deus que Jesus tanto pregava – em função do qual curava, exorcizava, perdoava e alimentava – era a crença judaica de que um dia Deus reinaria definitivamente sobre Israel. Quando o Reinado de Deus chegasse, tudo aquilo que oprimia o povo haveria de desaparecer. No contexto histórico de Jesus, isso significava a expulsão do Império Romano e o governo do Messias, que reuniria todos os filhos de Israel. Note que Jesus preocupou-se com as vítimas do Império e não em enfrentá-lo diretamente.

Repare que a atitude de Jesus de compaixão para com todos os que sofriam era uma atitude política, mas com um profundo fundamento religioso.

A Instrumentalização da Fé Hoje

O que assistimos hoje no Brasil é, na verdade, uma instrumentalização da fé. Sob a bandeira das ideologias partidárias, a religião é usada para angariar votos. Os políticos, sabendo que nosso povo é religioso, utilizam a fé para conquistar os cargos que almejam e, depois, são capazes de votar contra o próprio povo.

Recentemente, no dia 21 de novembro, o Papa Leão XIV, falando para jovens norte-americanos, afirmou que devemos evitar usar categorias políticas para se referir à Igreja. “A Igreja não pertence a nenhum partido político”. A Igreja não é nem de direita, nem de esquerda, porque segue o Evangelho de Jesus Cristo, que está acima de toda ideologia. Na verdade, o Evangelho é a instância crítica que julga se determinadas políticas (de direita, de centro ou de esquerda) estão convenientes com os valores do Reino de Deus.

A Necessidade de um Voto Crítico

É preciso que você esteja bem atento, porque no ano eleitoral usarão novamente o discurso de que "cristão não pode votar em partido X ou Y", o que não é verdade.

Há valores do Evangelho tanto nas pautas de direita quanto nas de esquerda. Contudo, o conjunto de todas as pautas (de qualquer ideologia) frequentemente contém políticas que são contrárias aos Evangelhos. Por isso, a aderência do cristão a uma ideologia política deve ser sempre crítica.

Doutrina Social da Igreja: O Guia Crítico

A Doutrina Social da Igreja (DSI) serve como a bússola para a crítica cristã, não se alinhando rigidamente a nenhuma ideologia, mas dialogando com ambas. A DSI favorece pautas de inclusão social, superação da desigualdade e o cuidado estatal com os pobres (frequentemente associadas à esquerda), ao mesmo tempo que defende a vida desde a concepção ao fim natural, a instituição familiar e a propriedade privada como meio de sustento (pautas comuns à direita). Contudo, a Igreja se opõe veementemente ao relativismo moral e sexual (pautas de esquerda), assim como à exclusão de imigrantes, à negligência dos direitos humanos e à defesa de uma propriedade privada absoluta que acentua a distância entre ricos e pobres (pautas associadas à direita). Dessa forma, a adesão do cristão a qualquer plataforma política deve ser sempre crítica, buscando os valores do Evangelho que promovam a justiça e o bem comum, independentemente da etiqueta partidária.

Aqui está a versão refinada do parágrafo final, mantendo a força e o foco da sua mensagem:

O Alerta Final: A Venda da Alma às Ideologias

Por fim, é preciso dizer que, lamentavelmente, diversas lideranças religiosas têm vendido suas almas às ideologias políticas, desconsiderando sua fidelidade primordial ao Evangelho. Recentemente, vimos nas redes sociais a profunda decepção de algumas lideranças que rezaram a Deus para que seu "político de estimação" não fosse preso. Vimos, por outro lado, outras lideranças religiosas manifestando alegria pelo mesmo acontecimento. Ambos os lados estão instrumentalizando a religião em favor de interesses políticos.

Quando um candidato ou líder usa o nome de Deus a seu favor para demonizar o lado oposto, isso configura abuso espiritual e instrumentalização política da fé alheia. Essa prática deve ser seriamente evitada, pois incorre no pecado de usar o Santo Nome de Deus em vão. Qualquer pessoa de bom senso perceberá que essas lideranças não estão falando em nome do Evangelho – afinal, como o mesmo Deus poderia justificar posturas políticas tão opostas? Na verdade, estão falando em nome de suas convicções políticas pessoais.

O critério, mais uma vez, reside nas mãos do fiel: discernir se a proposta política apresentada está alinhada com os valores perenes do Evangelho ou se é apenas um disfarce para interesses ideológicos e partidários.

Pe. Fr. Inácio José, teólogo e biblista

A Perseguição aos Cristãos: Uma Perspectiva Histórica e Bíblica

 A Perseguição aos Cristãos: Uma Perspectiva Histórica e Bíblica

A Igreja recebe constantemente, com tristeza e pesar, a notícia de cristãos barbaramente perseguidos e assassinados em diversos lugares do mundo. A opressão manifesta-se em nações africanas, como Nigéria, Sudão e Camarões, e em regimes ditatoriais, como Nicarágua e Coreia do Norte. Há, ainda, o caso peculiar da China, na qual a Igreja tem certa liberdade religiosa, mas é compelida a permanecer em constante silêncio. Este mistério dos cristãos serem perseguidos em cada época já foi, de certa forma, anunciado pelas catequeses primeiras, que são os textos bíblicos.

O Fundamento Histórico do Cristianismo

Antes de adentrarmos neste tema sob a perspectiva bíblica, é essencial fazermos uma contextualização histórica, jamais esquecendo que a experiência concreta vivida pelos cristãos deu origem aos textos sagrados.

Do ponto de vista histórico e sociológico, o Cristianismo nasceu da experiência dos discípulos de Jesus, a partir da Ressurreição de Cristo. Os discípulos experimentaram Jesus ressuscitado e, a partir de então, começaram a proclamá-l'O como o Messias de Israel.

Historicamente, Jesus poderia ter sido enquadrado como um profeta apocalíptico, tal como vários outros de Sua época. O diferencial crucial é que, após Seu martírio, os Seus discípulos deram testemunho de que Ele havia sido ressuscitado por Deus. A partir desse evento, eles O compreenderam como o Filho de Deus e Messias de Israel e, por Sua ressurreição, passaram a considerá-l'O Rei de todo o universo, pois está sentado à direita de Deus Pai (cf. Mc 16,19; At 2,33).

O Início da Perseguição

Ao confessarem Jesus como Messias de Israel, os cristãos começaram a ser expulsos das sinagogas pelos judeus (Jo 9). Essa separação fez com que o Cristianismo deixasse de ser visto como uma seita lícita do Judaísmo, tornando-se uma religião ilícita perante o Império Romano.

Isso ocasionou a perseguição por parte do Império. Os cristãos confessavam Jesus como Deus e recusavam-se a cultuar o Imperador Romano como uma divindade – algo exigido de todos os habitantes do Império. Essa recusa foi vista como um ato de traição e subversão política, resultando na perseguição dos seguidores de Cristo (Ap 13,15).

A Perseguição nas Escrituras

É neste contexto histórico que os Evangelhos são escritos. Em todos eles, anuncia-se que os cristãos seriam perseguidos por causa de sua adesão a Jesus. Por exemplo, nas Bem-aventuranças, Jesus afirma:

"Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados sois vós, se vos perseguirem por causa de mim. Alegrai-vos!" (Mt 5,10-12)

Quando Jesus envia os discípulos em missão, Ele adverte que eles serão entregues a governadores e açoitados nas sinagogas (cf. Mt 10,17). Tudo isso indica que, desde o início, aqueles que confessavam Jesus como Messias e Ser Divino sofreram perseguições.

Por outro lado, há textos de esperança que, diante da iminência do martírio, afirmam:

  • Não preparar defesa: Os discípulos não devem preparar defesa alguma, porque o Espírito Santo os inspirará no momento (cf. Mc 13,11).
  • Vida preservada: Mesmo sendo entregues por seus próprios familiares, a vida essencial permaneceria segura, pois "nenhum fio da própria cabeça haveria de se perder" (cf. Lc 21,18).

A Perseguição no Apocalipse

O Livro do Apocalipse foi todo escrito sob esta perspectiva. A perseguição aos cristãos era tamanha que eles tiveram de usar uma linguagem altamente simbólica e esotérica, facilmente entendida pela comunidade, mas estranha a quem estava fora do contexto cristão. A grande mensagem do Apocalipse é que a Igreja, apesar de todas as perseguições sofridas pelo "dragão" do Império Romano, se ela permanecer fiel, Cristo, o Cordeiro de Deus, haverá de resgatá-la e salvá-la. A mensagem é clara: o bem prevalecerá, mas isso não isenta a Igreja de padecer os males das perseguições históricas.

O Paradoxo de Jesus e a Mensagem da Páscoa

Contudo, o leitor atento perceberá um paradoxo: tudo aquilo que a narrativa bíblica diz que os discípulos receberiam de proteção, Jesus mesmo não experimentou.

Diante do tribunal de Seu julgamento, Jesus ficou em absoluto silêncio, não sendo inspirado em nenhuma palavra para se autodefender (cf. Mt 27,14). Jesus foi barbaramente torturado e assassinado pelos romanos. Os fios de Sua cabeça não foram protegidos. Qual é, então, a mensagem que essa diferença quer transmitir aos cristãos?

A mensagem central do Evangelho é a de tentar entender a perseguição pela perspectiva da Páscoa, pela perspectiva da Ressurreição. Todas as perseguições anunciadas por Jesus, os cristãos estavam vivendo no momento da escrita dos evangelhos. Ao colocarem essas palavras nos lábios de Jesus, os evangelistas parecem querer ensinar que, mesmo sendo perseguidos, torturados e assassinados por causa de sua fé, os discípulos devem compreender isso a partir dos olhos da Vida Nova, da Vida Eterna que se lhes abrirá pela sua entrega voluntária e morte em fidelidade ao Evangelho que professam. A promessa de proteção não é física neste mundo, mas a certeza da vitória final na Eternidade, seguindo o caminho de sacrifício e ressurreição do Mestre. Afinal de contas, Jesus que outrora foi perseguido, agora vive para sempre!

O Significado do Mártir

O cristão sabe que haverá de ser perseguido por causa de sua fidelidade aos valores do Evangelho. O cristão, por natureza, é um mártir.

O Evangelho de João define o Espírito Santo como o Paráclito, palavra grega que significa Advogado de Defesa (cf. Jo 14,16). Quem precisa de advogado é quem está sendo acusado ou perseguido. Atos dos Apóstolos deixa claro: o Espírito Santo virá sobre os discípulos para que eles possam testemunhar Jesus em todo lugar, começando por Jerusalém (cf. At 1,8). Testemunho, em grego, se diz martyria, de onde vem a palavra Mártir. Testemunhar é dar a vida por amor a Jesus. O cristão se sabe profundamente amado por Cristo, e por isso, por amor, é capaz de sofrer tudo por Aquele que em primeiro lugar lhe deu a própria vida.

Conclusão: Fidelidade e Não-Violência

A Igreja Católica, desde o Concílio Vaticano II, tem uma firme postura de defesa da Liberdade Religiosa. Nenhuma pessoa pode ser coagida ou obrigada a professar uma fé, seja pelo Estado ou por qualquer outro grupo. Quando o ser humano aprende a respeitar o outro, inclusive na sua subjetividade religiosa, essas perseguições diminuem. Contudo, diante das injustiças que prevalecem no mundo, os cristãos sempre haverão de levantar a sua voz para defender o bem, a verdade e a justiça em nome de Jesus Cristo, mesmo que isso lhes custe a incompreensão e a própria vida.

O que não se pode, em hipótese alguma, é admitir que o cristão justifique a violência para matar, destruir ou aniquilar seus adversários e inimigos religiosos. Fazer isso é esquecer sua vocação primeira de ser mártir. O cristão é capaz de dar a própria vida por amor, mas não pode tirar a vida de quem o detesta e odeia. Que em nossas orações possamos sempre lembrar não somente dos cristãos perseguidos por causa de sua fé, mas de toda pessoa que professa sua fé em Deus com sinceridade de coração e que é perseguida. Como diria um renomado teólogo: “só haverá paz no mundo se houver paz entre as religiões”. Que Deus, um dia, nos conceda essa paz!

Fr. Inácio José, biblista e teólogo. 

terça-feira, 27 de maio de 2025

ESPÍRITO SANTO: PRESENÇA DE CRISTO EM NÓS

 ESPÍRITO SANTO: PRESENÇA DE CRISTO EM NÓS

 

A Solenidade de Pentecostes está se aproximando, marcando o fim do tempo Pascal. Este período litúrgico teve como finalidade ensinar-nos a reconhecer a presença de Jesus ressuscitado em nossa vida cotidiana, o mesmo desafio que os primeiros discípulos enfrentaram com relação à nova presença de Cristo em suas vidas. Esse desafio também se aplica aos cristãos atuais. Muitas vezes não prestamos atenção à presença de Jesus em nossa existência, permitindo-nos ser guiados por valores mundanos que frequentemente contradizem os ensinamentos do evangelho que professamos.

O Novo Testamento apresenta duas teologias distintas sobre a vinda do Espírito Santo, embora ambas coincidam com a ideia de que, com a vinda do Espírito, nasce a Igreja, com a missão de testemunhar Jesus.

Para a teologia joanina, Cristo ressuscitado derramou o Espírito Santo no dia da ressurreição, simbolizando uma nova criação com seu sopro. A igreja se torna semente de uma nova humanidade, enviada por Cristo para reconciliar e levar a paz a todos (Jo 20,19-23; Gn 2,7).

Já a teologia lucana indica que o Espírito Santo foi dado no Pentecostes, 50 dias após a Páscoa, durante a festividade judaica que celebrava o início das colheitas e o recebimento das tábuas da lei por Moisés (At 2, 1-4). Lucas vê o Espírito Santo como aquele que marca o coração dos fiéis para a “colheita”, escrevendo a lei de Deus neles, tornando-os testemunhas de Cristo ressuscitado no mundo.

A que “colheita” Lucas se refere? Ele se refere à colheita celestial. Cristo foi o primeiro a ser colhido (1Cor 15,20-23). Os primeiros que se converteram são chamados de primícias (Tg 1,18; 1Cor 16,15; Rm 16,5). O Espírito Santo foi concedido como primícia da Redenção e provocará nossa ressurreição, no fim dos tempos (Rm 8,23). Aqueles que já estão no céu são referidos como primícias no Apocalipse (Ap 14,4).

Lucas pode estar pensando na profecia de Ez 36,26-27, onde Deus prometeu substituir os corações de pedra por corações de carne e inscrever suas leis nos corações de seu povo. Assim, eles observariam a vontade de Deus com alegria. Se antes a aliança estava escrita em tábuas de pedra, agora está inscrita nos corações humanos, com o Espírito (2Cor 3,3).

No início deste artigo, abordamos o desafio dos primeiros cristãos em compreender a nova presença de Cristo entre eles após a ressurreição. Historicamente, Cristo estava ao lado deles; agora, ressuscitado, Cristo está dentro deles. O novo testamento, em várias passagens, ensina que o Espírito Santo habita no coração do cristão (1Cor 3,16; 1Cor 6,19; Jo 14,17; 2Tim 1,14; 1Jo 4,13). Em certas ocasiões, o Espírito de Deus é também chamado de Espírito de Cristo (Rm 8,9; Rm 8,11; Fil 1,19; Gl 4,6). Por isso, durante sua existência cristã, o fiel deverá constantemente perguntar-se, com sinceridade e fé: "O que Cristo faria se estivesse aqui, no meu lugar?" E o Espírito Santo, que habita seu coração desde o batismo, haverá de mostrar-lhe qual é a conduta cristã correta (Jo 14,26). Sendo fiel às inspirações divinas, realizará a vontade do Pai, pois esta lei está escrita em seu interior. Assim, encaminhar-se-á para a colheita definitiva no céu.

Deus te abençoe e deixe-se iluminar pelo Espírito Santo que lhe habita.

Pe. Fr. Inácio José, teólogo e biblista.

terça-feira, 29 de abril de 2025

CRISTO, NOVO ADÃO: A REDENÇÃO DA HUMANIDADE E A NOVA CRIAÇÃO NA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO

 





CRISTO, NOVO ADÃO: A REDENÇÃO DA HUMANIDADE E A NOVA CRIAÇÃO NA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO

 

Caro leitor,

Quero meditar com você, neste artigo, sobre o significado e o mistério da Redenção de Cristo à luz da história da salvação. Aproveito o ensejo para corrigir uma informação equivocada que apresentei em meu artigo anterior publicado neste jornal. Será muito útil que você tenha em mãos a Sagrada Escritura, para ler todas as citações, a fim de ter uma compreensão melhor.

Entende-se por história da salvação a narrativa bíblica que relata, ainda que de forma simbólica, a relação do ser humano com Deus. Na primeira criação, Deus cria Adão e Eva em estado de graça, vivendo em plena comunhão com Deus, com o próximo e com a criação, no Jardim do Éden. Este, por sua vez, é uma metáfora da vida eterna, ou seja, da vida em perfeita comunhão com Deus. Contudo, o ser humano, ao escutar a voz do tentador, pecou, colocando toda a humanidade em estado de desgraça, isto é, em inimizade com Deus. Assim, a criação de Deus necessitava ser refeita: carecia de redenção e de salvação.

Para que a salvação acontecesse, Deus estabelece um novo Adão e uma nova Eva — um novo casal primitivo, do qual nasceria uma humanidade redimida, e inauguraria um novo céu e uma nova terra em comunhão com Deus (cf. Ap 21,1). São Paulo entende Jesus como o novo Adão, aquele que veio corrigir o pecado do primeiro (cf. Rm 5,12-19). Subentende-se, portanto, que sua Mãe, Maria Santíssima, é a nova Eva, a Mãe da humanidade redimida. Se o primeiro Adão falhou em proteger Eva do pecado, o segundo Adão salvou, por antecipação, sua Santíssima Mãe, preservando-a da mancha do pecado original (cf. Lc 1,28).

Toda a vida de Jesus, suas palavras e ações, foram o modo pelo qual Deus começou a recriar a humanidade e o mundo. Contudo, chegou o momento decisivo: Jesus decide ir para Jerusalém, a fim de sofrer a Paixão e Êxodo para a Terra Prometida Celestial (Lc 9,51). Ao entrar na cidade, amaldiçoa uma figueira, dizendo: “Que ninguém jamais coma de teus frutos” (Mc 11,14). Segundo antigas lendas judaicas — extraídas de tradições extrabíblicas — a árvore do conhecimento do bem e do mal seria uma figueira, razão pela qual Adão e Eva se cobrem com folhas dessa árvore após o pecado (cf. Gn 3,7). Assim, ao amaldiçoar a figueira, Jesus simbolicamente amaldiçoa a morte, fruto da árvore proibida. Jesus vai a Jerusalém para destruir a morte por meio de seu sacrifício.

Ele se reúne com seus discípulos para celebrar a ceia pascal. Nessa ceia, era costume tomar quatro cálices de vinho: o cálice da santificação (saída do Egito), o cálice da libertação, o cálice da bênção e o cálice da consumação. Segundo São Paulo, o “cálice da bênção” é identificado com o cálice da nova aliança no sangue de Cristo (cf. 1Cor 10,16; 11,25). Isso indica que Jesus abençoou o terceiro cálice, instituindo, assim, a Eucaristia. Todavia, faltava o quarto cálice. Os evangelistas registram que Jesus disse que não beberia mais do fruto da videira até que chegasse o Reino de Deus (cf. Mt 26,29; Mc 14,25; Lc 22,18), ou seja, Ele não tomou o último cálice durante a ceia.

Após a ceia, Jesus dirige-se ao Monte das Oliveiras, ao Jardim do Getsêmani — palavra hebraica que significa “jardim da prensa”. Ali, Jesus, o novo Adão, vai retomar a história do primeiro Jardim. Começa sua agonia, que não é sem significado: antigas tradições judaicas afirmavam que a Árvore da Vida, no Jardim do Éden, era uma oliveira.

Jesus, tal como uma oliveira pressionada, começa a suar sangue (cf. Lc 22,44), ao carregar sobre si o peso do pecado do mundo. Assim, como a oliveira liberta seu óleo sob pressão, Jesus começa a oferecer a seiva de sua vida. No Getsêmani, Ele aceita o cálice do sofrimento, dizendo: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22,42). Assim, Ele começa a beber o quarto cálice.

Após ser condenado, Jesus é crucificado no Calvário. Segundo antigas lendas judaicas, o Calvário seria o lugar onde estava enterrado o crânio de Adão, interpretação que parece ser acolhida pela tradição cristã antiga, pois, em ícones da crucifixão, vê-se frequentemente um crânio aos pés da cruz. O sangue do novo Adão redime o pecado do primeiro.

O Evangelho de João apresenta Jesus como o "Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (Jo 1,29). No relato joanino, Jesus morre no exato momento em que os cordeiros pascais eram imolados no Templo de Jerusalém (cf. Jo 19,14). Assim, Jesus, o novo Cordeiro, realiza a verdadeira Páscoa, protegendo-nos da morte eterna e abrindo-nos a passagem para o céu.

Segundo o ritual pascal judaico, após a imolação, o sangue do cordeiro era recolhido e aspergido sobre o altar. O cordeiro era transpassado horizontalmente e suspenso entre dois homens para ser esfolado. Tal descrição corresponde surpreendentemente ao que ocorreu com Jesus: Ele foi flagelado, tendo sua pele arrancada, e crucificado entre dois ladrões (cf. Mt 27,38). Para assar o cordeiro pascal, era também necessário atravessá-lo da boca à extremidade do corpo, em uma posição que lembra a crucificação, para não tocar em nada e ficar ritualmente impuro.

Contudo, o cordeiro pascal do Antigo Testamento não perdoava pecados; ele apenas relembrava o Êxodo e mantinha a esperança de um êxodo definitivo. No artigo anterior, mencionei equivocadamente que os primeiros cristãos poderiam ter associado o sacrifício de Cristo à figura do bode expiatório. Entretanto, a pesquisa do exegeta norte-americano Dr. Brant Pitre esclarece que o verdadeiro pano de fundo é o sacrifício diário dos dois cordeiros no Templo: um às 9h e outro às 15h. Estes sacrifícios tinham como finalidade a expiação dos pecados.

Ora, os Evangelhos sinópticos informam que Jesus foi crucificado às 9h da manhã (cf. Mc 15,25) e morreu às 3h da tarde (cf. Mc 15,34-37). Todo o tempo da crucifixão de Jesus corresponde, assim, ao tempo do sacrifício expiatório diário, tornando-o verdadeiramente o "Cordeiro de Deus" que tira o pecado do mundo.

Além disso, os evangelistas relatam que Jesus tomou vinagre enquanto estava na cruz (cf. Jo 19,29-30). O vinagre era o vinho azedo. Ao bebê-lo, Jesus consumou o quarto cálice da nova Páscoa, unindo definitivamente a ceia pascal ao sacrifício da cruz. Por isso, a Igreja ensina que, ao celebrar a Santa Missa, estamos verdadeiramente diante do Calvário.

No Evangelho de João, após tomar o vinagre, Jesus proclama: "Tudo está consumado" (Jo 19,30), e entrega o espírito. Assim, a nova criação se completa. Na primeira criação, Deus descansou no sétimo dia (cf. Gn 2,2); na nova criação, Jesus redime a humanidade no sexto dia e repousa no túmulo no sábado.

No sábado, o dia do descanso judaico, Jesus desce à mansão dos mortos para destruir a morte e libertar a humanidade cativa (cf. 1Pd 3,19-20). No primeiro dia da nova semana, a Ressurreição acontece: assim como, na primeira criação, a luz foi criada no primeiro dia, na nova criação, a luz da vida eterna brilha na ressurreição de Cristo.Por esse motivo, os cristãos não guardam mais o sábado, mas celebram o domingo, o primeiro dia da nova criação realizada pela Ressurreição.

Antigas iconografias da Ressurreição retratam Jesus ressuscitado destruindo as portas do inferno, puxando pelas mãos Adão e Eva, nossos primeiros pais, agora resgatados da morte eterna e reconduzidos ao Paraíso. Eis o grande mistério que celebramos durante o Tempo Pascal: a Ressurreição é a abertura das portas do Céu para nós. Jesus mesmo prometeu este acesso ao bom ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43), o mesmo que foi perdido pelo pecado dos primeiros pais (Gn 3,23-24).

Demos graças a Deus por este maravilhoso mistério: se grande foi a nossa criação, estupenda foi a nossa redenção em Cristo. Feliz Páscoa.

Pe. Fr. Inácio José, teólogo e biblista. Doutorando em Teologia pela FAJE.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

PAIXÃO, MORTE E RESSURREIÇÃO DE CRISTO: UM APROFUNDAMENTO BÍBLICO

Caro leitor, a celebração do Tríduo Pascal é a mais importante para a fé cristã católica, pois, nesses três dias, celebramos o mistério da Redenção por meio da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Gostaria de refletir com você sobre o significado dessa celebração solene.

O Tríduo Pascal tem início com a celebração da Quinta-feira Santa, na qual se comemoram a instituição do Sacramento da Eucaristia (cf. Mt 26,26-28; Lc 22,19-20; 1Cor 11,23-25), a instituição do sacerdócio ministerial e o mandamento do amor (cf. Jo 13,34). Um detalhe litúrgico que muitas vezes passa despercebido é que, embora a celebração se inicie com a invocação da Santíssima Trindade, ela não se encerra com a bênção final, pois continua na Sexta-feira Santa com a celebração da Paixão do Senhor. Tanto a Quinta-feira Santa quanto a Sexta-feira Santa celebram o mesmo mistério: a entrega voluntária de Cristo à morte para redimir toda a criação (cf. Jo 10,17-18).

Segundo os Evangelhos, Jesus reuniu-se com seus discípulos para a Última Ceia, provavelmente uma ceia pascal, na qual se celebrava a libertação da escravidão do Egito (cf. Ex 12,1-14). Nessa ceia, deveriam estar presentes o pão sem fermento, o vinho e o cordeiro pascal. No decorrer da celebração, Jesus tomou o pão e disse: "Isto é o meu corpo, que será entregue por vós"; depois, tomou a taça de vinho e declarou: "Este é o meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós para a remissão dos pecados" (cf. Mt 26,26-28; Lc 22,19-20). Por meio desse gesto, Cristo instituiu os sinais sacramentais que fariam a Igreja sempre recordar e atualizar sua entrega suprema, consumada no dia seguinte.

Na Sexta-feira da Paixão, celebramos a morte de Cristo. Para os cristãos do primeiro século, a morte voluntária de Jesus uniu duas tradições do Antigo Testamento: a do bode expiatório e a do cordeiro pascal. A primeira consistia no rito do Dia da Expiação, em que todo o povo de Israel confessava publicamente seus pecados sobre um bode, que era então lançado ao deserto, carregando simbolicamente as iniquidades da nação (cf. Lv 16,10). Já a tradição do cordeiro pascal recordava a libertação da escravidão do Egito, em que os israelitas imolavam um cordeiro e aspergiam seu sangue nos umbrais das portas como sinal de salvação (cf. Ex 12,21-23). Jesus, pelo seu sacrifício, expia e perdoa os nossos pecados; Ele é o novo Cordeiro de Deus (cf. Jo 1,29), que nos conduz da escravidão do pecado à liberdade dos filhos de Deus. Pela sua morte e ressurreição, Ele entra no Templo definitivo do céu e, de lá, continua a oferecer-se ao Pai pela nossa salvação (cf. Hb 9,11-12). Enquanto a Igreja na Terra celebra sua sagrada liturgia, une-se espiritualmente ao eterno sacrifício de Cristo por nós (cf. Hb 10,12-14).

Por fim, no Sábado Santo, celebra-se a ressurreição de Jesus por meio de uma solene e extensa celebração denominada Vigília Pascal. Durante essa liturgia, medita-se sobre toda a história da salvação, através de sete leituras do Antigo Testamento, uma leitura do Novo Testamento e a proclamação do Evangelho.

Nesse contexto, recordam-se a criação (Gn 1,1-2,2), a promessa da grandiosidade do povo de Deus (Gn 22,1-18), a libertação da escravidão do Egito (Êx 14,15-15,1), a promessa de uma Nova Aliança (Is 54,5-14), bem como a profecia da renovação da criação, na qual Deus estabelecerá novos céus e nova terra (Is 55,1-11; Br 3,9-15.32-4,4; Ez 36,16-28). A tradição cristã sempre compreendeu que os acontecimentos do Antigo Testamento prefiguram os eventos que se realizam plenamente em Cristo. Todas essas promessas encontram seu cumprimento pleno em Cristo, pois n'Ele tem início uma nova criação (2Cor 5,17), e a vida eterna se abre a toda a humanidade.

Eis a verdadeira Páscoa: a passagem deste mundo para o Céu, da morte para a vida eterna, da temporalidade para a eternidade. No Sábado Santo, renovam-se as promessas batismais, novos cristãos nascem pelo Sacramento do Batismo, e a Igreja celebra a vitória definitiva da graça sobre o pecado, da vida sobre a morte (Rm 6,3-11).

Deus lhe abençoe e feliz e santa Páscoa. Que estas celebrações lhes façam crescer na santidade, no amor a Cristo e aos irmãos.

Pe. Fr. Inácio José, teólogo e biblista. 

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