a.
As
cinco linhas fundamentais da teologia bíblica da graça são:
1.
O
Deus da graça é o Deus da compaixão e misericórdia – está sempre perto dos que
passam necessidade, dos perseguidos e afligidos. Deus nunca esquece a Aliança
feita com os pais do povo de Israel. Aos clamores do povo Deus atende e
socorre, provocando hinos de ações de graças como se expressa em muitos salmos.
No Segundo Testamento essa compaixão é encarnada na pessoa de Jesus que viveu a
solidariedade e socorro aos pobres, doentes, marginalizados de seu tempo.
2.
O
Deus da graça é o Deus fiel – à infidelidade do povo Deus responde permanecendo
fiel. Deus toma a iniciativa de dar um coração fiel à humanidade e na plenitude
dos tempos envia seu Filho para que resgatar a todos e fazer-nos seus filhos.
3.
O
Deus da graça é o Deus que salva – protegendo a quem pecou e não condenando-o a
morrer; salvando a humanidade dos perigos (dilúvio, escravidão, infertilidade).
Em Jesus, a manifestação da salvação divina se manifesta de forma concreta no
cuidado terapêutico que Jesus tem para com os doentes, endemoninhados e
pecadores.
4.
O
Deus da graça é o Deus que justifica – justificar é tornar justo, era a
sentença dada pelo juiz no tribunal. Uma vez que a humanidade por si não pode
se salvar e não tem condições de ser plenamente fiel à Aliança, mediante a
prática das obras da Lei, Deus mesmo justifica (perdoa) gratuitamente a
humanidade através de Jesus. As boas obras são consequência da justificação
divina e não causadoras da justificação, como pensavam os fariseus.
5.
O
Deus da graça é o Deus da gratuidade incondicional – os bens, os dons colocados
por Deus à disposição da humanidade são gratuitos. As próprias obras humanas
são ação da graça divina. O ser humano tocado pela graça colabora com a
salvação de si próprio, dos demais e do mundo.
b.
Viver
a dinâmica da gratuidade em nossos dias é um grande desafio. Vivemos num mundo
regido pela idolatria do dinheiro, do mercado, da compra. As pessoas não são
gratuitas umas com as outras, sempre esperam algo em troca pelas suas ações. Mas
há algo que o dinheiro não compra: a alegria de fazer as pessoas felizes. Quando
a graça divina toca nosso coração somos gratuitos com as pessoas, fazemos o bem
sem esperar nada em troca, perdoamos aos inimigos, visitamos os doentes,
alimentamos os pobres que muitas vezes não tem nada para nos oferecer a não um
muito obrigado. Além disso, ao fazer o bem a uma pessoa, esta pode se sentir
tocada a também a fazer o bem a outra e assim vai crescendo uma rede de
gratuidade pela sociedade e pelo mundo. Sobretudo quando somos misericordiosos
numa situação em que deveríamos ser apenas justos (como no caso do roubo por
ex.), aí se manifesta plenamente a gratuidade. A prova da gratuidade divina
para conosco é que, sem merecimento alguma de nossa parte, Deus nos salvou. Assim,
fazendo o bem sobretudo aos que, cremos não merecer, estaremos sendo sinais da
graça, da misericórdia e da solidariedade divina pelo ser humano.