quarta-feira, 12 de abril de 2017

graça

a.       As cinco linhas fundamentais da teologia bíblica da graça são:
1.      O Deus da graça é o Deus da compaixão e misericórdia – está sempre perto dos que passam necessidade, dos perseguidos e afligidos. Deus nunca esquece a Aliança feita com os pais do povo de Israel. Aos clamores do povo Deus atende e socorre, provocando hinos de ações de graças como se expressa em muitos salmos. No Segundo Testamento essa compaixão é encarnada na pessoa de Jesus que viveu a solidariedade e socorro aos pobres, doentes, marginalizados de seu tempo.
2.      O Deus da graça é o Deus fiel – à infidelidade do povo Deus responde permanecendo fiel. Deus toma a iniciativa de dar um coração fiel à humanidade e na plenitude dos tempos envia seu Filho para que resgatar a todos e fazer-nos seus filhos.
3.      O Deus da graça é o Deus que salva – protegendo a quem pecou e não condenando-o a morrer; salvando a humanidade dos perigos (dilúvio, escravidão, infertilidade). Em Jesus, a manifestação da salvação divina se manifesta de forma concreta no cuidado terapêutico que Jesus tem para com os doentes, endemoninhados e pecadores.
4.      O Deus da graça é o Deus que justifica – justificar é tornar justo, era a sentença dada pelo juiz no tribunal. Uma vez que a humanidade por si não pode se salvar e não tem condições de ser plenamente fiel à Aliança, mediante a prática das obras da Lei, Deus mesmo justifica (perdoa) gratuitamente a humanidade através de Jesus. As boas obras são consequência da justificação divina e não causadoras da justificação, como pensavam os fariseus.
5.      O Deus da graça é o Deus da gratuidade incondicional – os bens, os dons colocados por Deus à disposição da humanidade são gratuitos. As próprias obras humanas são ação da graça divina. O ser humano tocado pela graça colabora com a salvação de si próprio, dos demais e do mundo.

b.      Viver a dinâmica da gratuidade em nossos dias é um grande desafio. Vivemos num mundo regido pela idolatria do dinheiro, do mercado, da compra. As pessoas não são gratuitas umas com as outras, sempre esperam algo em troca pelas suas ações. Mas há algo que o dinheiro não compra: a alegria de fazer as pessoas felizes. Quando a graça divina toca nosso coração somos gratuitos com as pessoas, fazemos o bem sem esperar nada em troca, perdoamos aos inimigos, visitamos os doentes, alimentamos os pobres que muitas vezes não tem nada para nos oferecer a não um muito obrigado. Além disso, ao fazer o bem a uma pessoa, esta pode se sentir tocada a também a fazer o bem a outra e assim vai crescendo uma rede de gratuidade pela sociedade e pelo mundo. Sobretudo quando somos misericordiosos numa situação em que deveríamos ser apenas justos (como no caso do roubo por ex.), aí se manifesta plenamente a gratuidade. A prova da gratuidade divina para conosco é que, sem merecimento alguma de nossa parte, Deus nos salvou. Assim, fazendo o bem sobretudo aos que, cremos não merecer, estaremos sendo sinais da graça, da misericórdia e da solidariedade divina pelo ser humano. 

A GRAÇA DIVINA NO SEGUNDO TESTAMENTO E NA PESSOA DE JESUS

A GRAÇA DIVINA NO SEGUNDO TESTAMENTO E NA PESSOA DE JESUS
Os escritos do Segundo Testamento enfocam a teologia da graça da seguinte forma:
Nos sinóticos, a experiência da graça está no fato de acolher a Jesus e a proposta do Reino de Deus. Deus é a apresentado por Jesus como Gratuidade que nos oferece a Salvação. Em Mateus e Marcos a palavra charis não aparece; em Lucas aparece oito vezes e em Atos, dezessete vezes. A ausência da palavra charis é compensada pela presença atuante do Reino de Deus que se manifesta na gratuidade do Pai em se aproximar dos pobres e pecadores, através de Jesus. Deus manifesta seu poder não na força, mas na simplicidade e pobreza do cotidiano. Seu Reino não tira força do poder humano mas do próprio amor divino; o Reino é Deus mesmo se desdobrando de amor e cuidado para com o humano necessitado. Através da manifestação do Reino, a graça divina se manifesta como: 1. Realidade presente e escatológica. 2. Convite à relação filial com Deus. 3. Convite ao seguimento de Jesus. 4. Experiência atual de salvação. Em Atos dos Apóstolos, charis aparece dezessete vezes e graça seria a força que vem Deus e de Cristo e que acompanha a missão apostólica, se realizando com o dom do Espírito como ação carismática e santificadora da Igreja.
Nas cartas paulinas, charis aparece, pelo menos, cem vezes. O “Reino de Deus” dos evangelhos, é traduzido por Paulo pelo termo “graça”. É o centro da pregaçõ paulina. Graça seria dom divino, iniciativa divina, salvação gratuita de Deus manifestada em Cristo e que gera uma vida nova no ser humano. A teologia da graça paulina pode ser assim sintetizada:
a.                                           A humanidade é pecadora mas é Cristo ela encontra a salvação e justificação.
b.                                           A participação na morte e ressurreição de Cristo pelo batismo alcança para o ser humano um relação pessoal com Jesus que lhe faz cada dia morrer para o pecado e viver a vida nova cristã.
c.                                           Pela vida em Cristo recebemos o Espírito Santo que faz filhos adotivos de Deus, assemelhando-nos a Jesus.
d.                                          Deus justifica o ser humano pecador mediante a sua fé operante em Cristo. A justificação é realidade presente que, atuando no ser humano, o faz nova criatura.
Nos escritos joaninos, charis aparece três vezes e, mesmo assim, somente no prólogo do evangelho joanino. A teologia joanina gira em torno do amor que Deus é que se manifesta na encarnação do Filho. O Verbo feito carne é fonte de vida e pela vinda dele ao mundo já vivemos a “vida eterna” que é sinônimo de “graça”. Pela encarnação do Verbo há uma relação íntima entre Deus e os seres humanos. Quem nasce de Deus vive sempre em Deus. A segunda carta de Pedro fala que o cristão é participante da natureza divina. Aqui não se trata panteísmo, mas se trata, segundo o pensamento bíblico como um todo, de que a participação da vida divina não se reserva somente para o fim da vida, mas já está presente no cristão, como graça de assimilação de Deus, que consiste na incorruptibilidade e imortalidade que serão plenas na nossa ressurreição.
A pessoa de Jesus, como revelação de Deus em nossa história, é manifestação da Graça. Isso transparece em seu jeito de ser: anunciando a chegada do Reino de Deus como manifestação gratuita do Pai que ama a todo ser humano; na solidariedade aos doentes, marginalizados pela religião oficial; no perdão dado ao pecadores; na convivência com os pobres, excluídos pela sistema econômico e social de seu tempo; na acolhida à mulher enquanto discípulas, algo que era contra-cultural para o seu tempo. Inúmeras das parábolas de Jesus se reflete a Graça divina:
a.       A parábola do samaritano Lc 10,29-37: o samaritano pode simbolizar o próprio Deus que gratuitamente salva a humanidade ferida e quase morta pelo pecado.
b.      A parábola do pai misericordioso Lc 15,11-32: Deus acolhe o pecador que volta necessitado e não necessariamente arrependido.
c.       A parábola do fariseu e publicano Lc 18,9-14: o publicano (sem deixar de ser publicano) é perdoado ao passo que o fariseu não.
d.      A parábola dos trabalhadores da última hora Mt 20,1-16: o patrão (Deus), porque é bom paga o mesmo salário a todos os trabalhadores.

Desta forma nota-se, tanto em Jesus, quanto nas suas parábolas, bem como na reflexão teológica que as comunidades realizaram acerca da pessoa de Jesus mediante as cartas e evangelhos, que a temática da graça, mesmo que o termo charis não apareça, está sempre presente. O marco da experiência cristã de Deus é a graça divina que transparece nesse amor gratuito unilateral de Deus pela humanidade. 

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