A INSTRUMENTALIZAÇÃO POLÍTICA DA FÉ
A intenção desta coluna não é provocar polêmica, mas convidar o
leitor à reflexão sobre o dilema que o nosso país enfrenta atualmente.
Reflito aqui como padre e teólogo bíblico em formação pela Igreja. Existe um
ditado popular que diz: "religião e política não se misturam". Nada
mais falso do que isso, pois todo discurso religioso carrega em si uma
consequência política. E aqui, precisamos esclarecer o que entendemos por
"política".
Em seu sentido original, Política tem a ver com o bem da pólis,
da cidade. Política diz respeito ao bem comum, ao bem da sociedade em
geral. Não tem nada a ver com política partidária ou filiação a ideologias
específicas. Quando Jesus alimentava os famintos, curava os doentes e incluía
os marginalizados, Ele estava assumindo uma atitude política
influenciada por sua religião, por sua profunda experiência de Deus.
O Reino de Deus: Uma União de Fé e Pólis
Ao voltarmos para as catequeses primeiras, que são os Evangelhos,
notamos que tudo o que Jesus fazia tinha como justificativa o Reino de Deus.
A expressão "Reino de Deus" une dois campos: Reino é uma
palavra do campo da política (poder/governo), e Deus é uma palavra do
campo religioso.
O Reino de Deus que Jesus tanto pregava – em função do qual curava,
exorcizava, perdoava e alimentava – era a crença judaica de que um dia Deus
reinaria definitivamente sobre Israel. Quando o Reinado de Deus chegasse, tudo
aquilo que oprimia o povo haveria de desaparecer. No contexto histórico de
Jesus, isso significava a expulsão do Império Romano e o governo do Messias,
que reuniria todos os filhos de Israel. Note que Jesus preocupou-se com as vítimas
do Império e não em enfrentá-lo diretamente.
Repare que a atitude de Jesus de compaixão para com todos os
que sofriam era uma atitude política, mas com um profundo fundamento
religioso.
A Instrumentalização da Fé Hoje
O que assistimos hoje no Brasil é, na verdade, uma instrumentalização
da fé. Sob a bandeira das ideologias partidárias, a religião é usada para
angariar votos. Os políticos, sabendo que nosso povo é religioso, utilizam a fé
para conquistar os cargos que almejam e, depois, são capazes de votar contra o
próprio povo.
Recentemente, no dia 21 de novembro, o Papa Leão XIV, falando para
jovens norte-americanos, afirmou que devemos evitar usar categorias políticas
para se referir à Igreja. “A Igreja não pertence a nenhum partido político”. A
Igreja não é nem de direita, nem de esquerda, porque segue o Evangelho de
Jesus Cristo, que está acima de toda ideologia. Na verdade, o Evangelho é a instância
crítica que julga se determinadas políticas (de direita, de centro ou de
esquerda) estão convenientes com os valores do Reino de Deus.
A Necessidade de um Voto Crítico
É preciso que você esteja bem atento, porque no ano eleitoral
usarão novamente o discurso de que "cristão não pode votar em partido X ou
Y", o que não é verdade.
Há valores do Evangelho tanto nas pautas de direita quanto nas de
esquerda. Contudo, o conjunto de todas as pautas (de qualquer ideologia)
frequentemente contém políticas que são contrárias aos Evangelhos. Por isso, a
aderência do cristão a uma ideologia política deve ser sempre crítica.
Doutrina Social da Igreja: O Guia Crítico
A Doutrina Social da Igreja (DSI) serve como a bússola para
a crítica cristã, não se alinhando rigidamente a nenhuma ideologia, mas
dialogando com ambas. A DSI favorece pautas de inclusão social, superação da
desigualdade e o cuidado estatal com os pobres (frequentemente associadas à
esquerda), ao mesmo tempo que defende a vida desde a concepção ao fim
natural, a instituição familiar e a propriedade privada como meio de
sustento (pautas comuns à direita). Contudo, a Igreja se opõe veementemente ao
relativismo moral e sexual (pautas de esquerda), assim como à exclusão de
imigrantes, à negligência dos direitos humanos e à defesa de uma propriedade
privada absoluta que acentua a distância entre ricos e pobres (pautas
associadas à direita). Dessa forma, a adesão do cristão a qualquer plataforma
política deve ser sempre crítica, buscando os valores do Evangelho que
promovam a justiça e o bem comum, independentemente da etiqueta partidária.
Aqui está a versão refinada do parágrafo final, mantendo a força e
o foco da sua mensagem:
O Alerta Final: A Venda da Alma às Ideologias
Por fim, é preciso dizer que, lamentavelmente, diversas lideranças
religiosas têm vendido suas almas às ideologias políticas,
desconsiderando sua fidelidade primordial ao Evangelho. Recentemente, vimos nas
redes sociais a profunda decepção de algumas lideranças que rezaram a Deus para
que seu "político de estimação" não fosse preso. Vimos, por outro
lado, outras lideranças religiosas manifestando alegria pelo mesmo
acontecimento. Ambos os lados estão instrumentalizando a religião em favor de
interesses políticos.
Quando um candidato ou líder usa o nome de Deus a seu favor para
demonizar o lado oposto, isso configura abuso espiritual e
instrumentalização política da fé alheia. Essa prática deve ser seriamente
evitada, pois incorre no pecado de usar o Santo Nome de Deus em vão. Qualquer
pessoa de bom senso perceberá que essas lideranças não estão falando em nome do
Evangelho – afinal, como o mesmo Deus poderia justificar posturas políticas tão
opostas? Na verdade, estão falando em nome de suas convicções políticas
pessoais.
O critério, mais uma vez, reside nas mãos do fiel: discernir se a
proposta política apresentada está alinhada com os valores perenes do
Evangelho ou se é apenas um disfarce para interesses ideológicos e
partidários.
Pe. Fr. Inácio José, teólogo e biblista
