terça-feira, 13 de novembro de 2018

SEMANA SANTA


MISSA DO CRISMA – UNÇÃO PARA SERVIR
1ª LEITURA. O profeta Isaías recebe a unção do Espírito Santo para consolar os que sofrem.
SALMO. O salmista canta a unção que Deus faz ao rei de Israel e promete a ele sua força divina.
2ª LEITURA. João, o vidente, nos ensina que Jesus fez do povo cristão um povo sacerdotal, um reino para o Senhor.
EVANGELHO. Jesus, na sinagoga de Nazaré, medita a passagem do profeta Isaías, dizendo que nele se cumpriu aquela profecia.
TRAZENDO OS TEXTOS PRA PERTO DA GENTE. Nesta celebração é abençoado os santos óleos (batismo, unção dos enfermos e crisma) que serão usados em nossas comunidades. No povo de Israel, a unção era sinal da autoridade dada por Deus para servir ao povo. O profeta Isaías recebe a unção para consolar os que estavam no exílio da Babilônia (1ª leitura); Jesus cumpre essa profecia, pois nele o Espírito foi derramado para evangelizar a todos os que sofrem (evangelho). Fomos ungidos no batismo, o que nos faz ser um povo de sacerdotes e reis para Deus (2ª leitura).
PARA PENSAR. Colocamos nossa vida a serviço fazendo valer a crisma (unção) que recebemos?
GESTO CONCRETO. Engajar-se em alguma pastoral da comunidade.
ESPIRITUALIDADE. Sentir-se enviado por Deus para evangelizar.
DEUS NOS ABENÇOE. FR. INÁCIO JOSÉ, MERCEDÁRIO

CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DO SENHOR – DEUS NOS AMA ATÉ A ENTREGA DE SI MESMO
1ª LEITURA. Isaías medita sobre a condição do Servo que, maltratado e condenado, salvava o povo de seus pecados.
SALMO. O salmista, em meio ao sofrimento imposto pelos inimigos, entrega sua vida, confiante, a Deus.
2ª LEITURA. Jesus é sumo sacerdote, porque aprendeu a obediência pelo sofrimento e, por isso, é capaz de se compadecer de nossas dores.
EVANGELHO. João narra a paixão de Jesus, através da qual, Jesus vence o mal e o pecado da humanidade.
TRAZENDO OS TEXTOS PRA PERTO DA GENTE. Hoje celebramos a Paixão de Jesus. O Servo que, perseguido e assassinado injustamente (1ª leitura) e, por cujo sofrimento Deus perdoava seu povo de seus pecados, a comunidade cristã reconhece em Jesus Cristo (evangelho). A paixão de Jesus prova o amor de Deus pela humanidade, pois nos amou até o fim, até a entrega da própria vida, para nos ensinar que Deus é puro dom, pura entrega. Por sua paixão/ressurreição Jesus foi entronizado no céu, de onde intercede ao Pai por todos nós (2ª leitura).
PARA PENSAR. Cristo deu sua vida por nós. O que somos capazes de fazer por Ele?
GESTO CONCRETO. Meditar a via sacra.
ESPIRITUALIDADE. Condoer-se pelos seus pecados.
DEUS NOS ABENÇOE. FR. INÁCIO JOSÉ, MERCEDÁRIO

DOMINGO DE PÁSCOA – RESSURREIÇÃO DO SENHOR – VIDA NOVA E ETERNA EM CRISTO
1ª LEITURA. Pedro prega aos judeus, anunciando que Aquele que foi rejeitado, Deus o ressuscitou e os apóstolos dão testemunho disso.
SALMO. O salmista louva a Deus porque, estando em meio à provação, foi salvo e redimido por Deus.
2ª LEITURA. Paulo orienta a comunidade a jogar fora a maldade porque o nosso Cordeiro foi imolado.
EVANGELHO. Os discípulos de Emaús, experimentam a presença do Ressuscitado na vida deles, na meditação da Palavra e na celebração da Eucaristia.
TRAZENDO OS TEXTOS PRA PERTO DA GENTE. Hoje celebramos a Páscoa: a Ressurreição de Jesus. Por ela Deus nos abriu as portas da vida eterna. Jesus vive eternamente. Jesus agora está sempre presente com os discípulos e sua presença se faz sentir quando meditamos a Palavra e participamos da Eucaristia (evangelho). Deus ressuscitou Jesus confirmando a sua missão de instaurar o Reino de Deus (1ª leitura). A Ressurreição de Jesus nos dá vida nova, por isso devemos nos afastar do pecado (2ª leitura). Cristo pode louvar a Deus que o fez pedra angular de toda a criação (salmo).
PARA PENSAR. Cremos na vida eterna que teremos junto a Deus no céu?
GESTO CONCRETO. Morrer a cada dia para o pecado ressurgindo aos poucos para vida nova nos dada pelo batismo.
ESPIRITUALIDADE. Viver com os pés no chão mas com o coração no céu.
DEUS NOS ABENÇOE. FR. INÁCIO JOSÉ, MERCEDÁRIO

QUINTA FEIRA SANTA – CEIA DO SENHOR – CRISTO SE FAZ NOSSO ALIMENTO PARA QUE SIRVAMOS AOS DEMAIS
1ª LEITURA. Deus orienta Moisés a como preparar o Cordeiro ser imolado na Páscoa: na Passagem do senhor que haverá de libertar os hebreus da escravidão egípcia.
SALMO. O salmista louva a Deus que lhe quebrou os grilhões da escravidão.
2ª LEITURA. Paulo ensina o que aprendeu: que na noite em que foi entregue, Jesus instituiu o mistério da Eucaristia.
EVANGELHO. Na última ceia, Jesus lava os pés dos discípulos, como condição de serviço e os pedem que façam o mesmo.
TRAZENDO OS TEXTOS PRA PERTO DA GENTE. Hoje celebramos a instituição da Eucaristia, recordamos a última ceia de Jesus com seus discípulos, na qual nos deixou o mandamento do amor. Antes de morrer Jesus ceou com seus discípulos e pediu que os discípulos repetissem essa ceia como recordação de sua vida. No gesto de entregar o pão e vinho Jesus mostra que haverá de dar a sua pessoa e dar a sua vida pelos seus (2ª leitura). Nos alimentamos de Jesus para que coloquemos a nossa vida a serviços dos irmãos de comunidade, sobretudo os que mais sofrem (evangelho). Jesus instituiu a Eucaristia como nova ceia pascal, na qual celebramos a libertação do pecado e da morte (1ª leitura). Celebremos a Eucaristia, assumindo o mandamento do amor como regra de vida e agradecendo a Deus que nos libertou (salmo).
PARA PENSAR. Celebrar a Eucaristia transforma o nosso jeito de se relacionar com os demais?
GESTO CONCRETO. Participar com devoção e atenção da celebração da Eucaristia.
ESPIRITUALIDADE. Fazer da vida uma atitude de serviço aos demais.
DEUS NOS ABENÇOE. FR. INÁCIO JOSÉ, MERCEDÁRIO

VIGÍLIA PASCAL – PASSAR DA TREVA PARA A LUZ, DA MORTE PARA A VIDA
1ª LEITURA. Deus criou o universo, criou o ser humano à sua imagem e semelhança e descansou.
2ª LEITURA. Abraão está disposto a sacrificar o filho a Deus, ao que Deus lhe impede e lhe promete longa descendência.
3ª LEITURA. Deus faz os hebreus atravessarem o mar vermelho a pé enxuto, ao que suprime as forças escravagistas egípcias.
4ª LEITURA. Deus promete se casar com seu povo, sinal de uma nova aliança que fará e que nada haverá de destruir.
5ª LEITURA. Paulo nos ensina que fomos batizados na morte e ressurreição de Jesus, por isso devemos morrer para o pecado e ressurgir com Cristo para uma vida santa.
EVANGELHO. As mulheres vão ao túmulo em busca de “Jesus morto” e recebem a notícia de não devem buscar entre os mortos o que vive para sempre. Deus ressuscitou Jesus.
TRAZENDO OS TEXTOS PRA PERTO DA GENTE. Celebramos a Vigília de Páscoa, a noite de todas as noites. Todas as demais decorrem desta importante celebração. Nela, a simbologia das trevas que vão desaparecendo diante da luz, mostra a vitória da vida sobre a morte. Deus criou o universo e pela ressurreição de Jesus recriou toda a humanidade (1ª leitura). Deus protegeu Isaac, mas não poupou a entrega de Jesus pela qual temos vida eterna (2ª leitura). Deus libertou os hebreus da escravidão e pelas águas do batismo nos liberta da escravidão do pecado e da morte (3ª leitura). Deus prometeu uma aliança eterna com seu povo e esta foi selada pela morte e ressurreição de Jesus (4ª leitura). Celebrar a Ressurreição e ser batizado significa, concretamente, assumir uma vida nova e santa com Cristo (5ª leitura). Jesus vive eternamente, foi ressuscitado por Deus, por isso não podemos busca-lo no mundo dos mortos, mas sim nos céus, onde foi entronizado para sempre.
PARA PENSAR. Valorizamos nosso batismo como condição da vida nova assumida com Cristo?
GESTO CONCRETO. Participar da Vigília de Páscoa com amor e devoção.
ESPIRITUALIDADE. Renascer com Cristo para uma nova vida.
DEUS NOS ABENÇOE. FR. INÁCIO JOSÉ, MERCEDÁRIO

DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR – CRISTO REINA DA CRUZ
1º EVANGELHO. Jesus entra em Jerusalém, montado num jumentinho, aclamado como Rei dos judeus.
1ª LEITURA. O Servo permanece fiel na missão dada por Deus, mesmo diante da violência sofrida, pois sabe que não será humilhado.
SALMO. O salmista canta seu sentimento de abandono diante das perseguições sofridas, mas confia na libertação futura.
2ª LEITURA. Cristo não se apegou a sua condição divina, mas se humilhou até a morte, por isso Deus o exaltou ao mais alto do céu.
EVANGELHO. Lucas narra a paixão de Jesus como a morte do justo inocente que entrega sua vida nas mãos de Deus e ainda promete a salvação ao pecador arrependido.
TRAZENDO OS TEXTOS PRA PERTO DA GENTE. Nesse domingo celebramos: a entrada de Jesus em Jerusalém, aclamado pelo povo e, sua morte de cruz, sinal de sua rejeição pelas lideranças de Jerusalém. Esta celebração abre a Semana Santa. Jesus é Rei, mas que não governa pela força e poder, mas sobretudo pelo amor e pela conversão do coração (1º evangelho). Jesus permanece firme na sua decisão de ir a Jerusalém, mesmo sabendo que sua vida corre risco, cumprindo em si a missão do Servo (1ª leitura). A morte de Jesus (evangelho), nos mostra que Deus para nos salvar não se apegou a sua condição gloriosa, mas se fez um de nós (2ª leitura). Jesus assumiu a mais baixa condição humana e por isso é exaltado por Deus a mais alta glória do céu. Na cruz Jesus sente-se abandonado, mas confia que Deus o haverá de alguma responder à sua fidelidade à missão (salmo).
PARA PENSAR. Somos fieis a Jesus apenas na glória ou também nos momentos de cruz?
GESTO CONCRETO. Participar com devoção das celebrações da semana santa.
ESPIRITUALIDADE. Contemplar a Cruz como sinal de fidelidade de Jesus à missão dada por Deus.
DEUS NOS ABENÇOE. FR. INÁCIO JOSÉ, MERCEDÁRIO

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

NATAL UMA PERSPECTIVA BÍBLICA


NATAL: UMA PERSPECTIVA BÍBLICA
Fr. Inácio José, OdeM

Caros leitores, vivemos tempos litúrgicos de intensa espiritualidade: o advento nos prepara para celebrar o mistério do Natal (primeira vinda de Jesus) e nos recorda que aguardamos a segunda vinda do Senhor (parusia). O tempo do Natal nos recorda o mistério da Encarnação do Verbo: Deus que, para nos salvar, assumiu plenamente a nossa condição humana, menos o pecado. Mas o que a Bíblia nos fala do Natal? É o que pretendemos explicar nessas breves linhas. Peço ao leitor que na medida em que vá avançando na leitura, pegue sua Bíblia e confira os textos bíblicos citados.
Em primeiro lugar, os textos bíblicos não pretendem descrever o que aconteceu historicamente, mas elaborar uma catequese teológica acerca do mistério do Nascimento do Messias[1]. Até mesmo porque, lido numa perspectiva histórica, os “relatos da infância do Senhor” são absolutamente contraditórios entre si[2]. Entre os biblistas e historiadores existe inclusive certo consenso de que Jesus tenha nascido, de fato, na cidade de Nazaré e não em Belém como afirmam as narrativas da infância de Mateus e Lucas,[3] ao passo que, os próprios evangelistas e Atos afirmam que Jesus é de Nazaré (Mc 1,9; Mt 21,11; Jo 1,45-46, At 10,38).
Vamos à Biblia. Os evangelistas que refletiram teologicamente o nascimento e infância de Jesus foram Mateus e Lucas. Comecemos por Mateus. Escrito por volta dos anos 80 d.C, por um judeu-cristão para uma comunidade de cristãos vindos do judaísmo. Começa com uma genealogia simbólica (Mt 1,1-17), na qual mostra a origem judaica de Jesus, sua vinculação a Davi (simbolizado pelo número 14) perpassando toda a história de Israel. Depois, já narra o nascimento de Jesus da virgem Maria, como cumprimento da profecia de Is 7,14, em Belém, depois do aviso do anjo, em sonho a José (Mt 1,18-25). Em seguida (Mt 2,1-12), temos a visita dos magos, que simbolizam os não-israelitas (pagãos), que vem reconhecer o Menino Jesus como Rei de Israel, ao passo que ele é, desde já, rejeitado pelas lideranças de Israel (sacerdotes) e Rei Herodes. Em seguida, Mateus mostra Jesus participando das dores vividas pelo povo de Israel ao longo de sua história: a permanência no Egito (Mt 2,13-18), Herodes pretende matar o menino Jesus do mesmo modo como o faraó pretendia matar o menino Moisés; o exílio babilônico é referenciado pela citação de Jr 31,15 onde Ramá era no passado o local de onde os exilados israelitas partiam para o cativeiro; e por fim, a dispersão do exílio (Mt 2,19-23), quando a família de Jesus volta do Egito e não retorna a Belém, mas sim a Nazaré onde viverão daqui pra frente. Resumindo: segundo Mateus, Jesus nasce em seu lar em Belém e, após a visita dos magos, é obrigado a fugir para o Egito e do Egito vai para Nazaré onde será criado. Jesus é o Messias de Israel, novo Moisés enviado por Deus para libertar o povo de seus pecados. Outra versão, bem diferente, temos em Lucas.
Lucas, por sua vez, também foi escrito por volta dos anos 80 d.C, para uma comunidade de pagãos convertidos ao cristianismo. A comunidade tem inspiração na teologia paulina, ou seja, que Jesus é o Salvador de toda a humanidade e não apenas do povo de Israel. Além disso, Lucas faz um paralelo entre João Batista (último profeta do Antigo Testamento) e Jesus (Novo Testamento recém-chegado), mostrando a superioridade de Jesus em relação ao Antigo Testamento, que também é simbolizado pelos personagens idosos que aparecem no texto. Confira: Lc 1,5-23,o anjo Gabriel anuncia o nascimento de João Batista, ao idoso Zacarias, que está oficiando no Templo de Jerusalém. A incredulidade lhe faz ficar mudo e sua idosa mulher fica grávida. Lc 1,26-38: o mesmo anjo, agora vai a Nazaré, a uma virgem prometida em casamento anunciar-lhe que será a mãe do Filho do Altíssimo. Ela que não tinha motivos pra acreditar, acredita e fala “eis a serva do Senhor”, ficando, assim, grávida. Em seguida, em Lc 1,39-45, temos o encontro do Novo Testamento (Jesus) e o Antigo Testamento (João Batista), que se alegra com a sua chegada, pois Jesus veio realizar todas as expectativas do povo do Antigo Testamento. Lucas coloca nos lábios de Maria um antigo cântico dos cristãos (Lc 1,46-56), que louva a Deus por salvar os pequenos e pobres de Israel. Maria permanece 3 meses com Isabel, tal qual a arca da aliança permaneceu 3 meses com Davi (2Sm 6,9-11): Maria é apresentada como a nova arca que leva consigo Jesus, a nova aliança de Deus com toda a humanidade. Lc 1.57-80, temos o nascimento de João Batista e o cântico do Benedictus, mais um cântico dos antigos cristãos, posto agora nos lábios de Zacarias.
Lc 2,1-7: nascimento de Jesus. Aqui difere bastante de Mateus: a família de Jesus é de Nazaré e por causa de um censo do império romano, eles são obrigados a se deslocar a Belém e, como não havia local para eles, Jesus nasce entre os animais. Como já disse anteriormente, não há nas fontes romanas da época, registro de tal censo, aliás, como é descrito em Lucas, contradiz a praxe de como os romanos faziam o censo[4]. Lc 2,8-20 mostra os pastores (pobres) como os primeiros destinatários da mensagem da chegada de Jesus. Vão adorá-lo e reconhece-lo como Salvador. Lc 2,21-39 mostra Jesus sendo circuncidado e apresentado no Templo e, novamente, dois idosos, Ana e o Simeão (simbolizando o Antigo Testamento), acolhendo o menino Jesus (Novo Testamento) e se alegrando, louvando e bendizendo a Deus pela sua chegada. Depois disso, voltam a Nazaré. Por fim, Lc 2,41-52, mostra Jesus, aos doze anos, no Templo, assumindo o compromisso de ocupar-se das coisas de seu Pai. Resumindo: a família de Jesus é de Nazaré e, por causa de um censo romano, eles vão a Belém e Jesus nasce lá por “coincidência”. Nota-se que, já havia uma crença prévia de que o Messias nasceria em Belém (Mq 5,2), o que fez com que os evangelistas esboçassem, cada um a sua maneira, um motivo para que “no texto” Jesus nascesse lá, afim de mostrar que Jesus é o Messias desde o seu nascimento. Entretanto, como disse anteriormente, há mais fortes indícios de que Jesus historicamente tenha nascido sim na cidade de Nazaré (Mc 1,9; Mt 21,11; Jo 1,45-46, At 10,38), era conhecido como Jesus Nazareno (Mc 1,24; 10,47; 14,67; 16,6; Lc 4,34; 24,19) o que justifica a não aceitação dele como Messias por parte das lideranças de Israel.
O que os evangelistas pretendiam, portanto, ao escrever essas narrativas do nascimento de Jesus, confessado como Messias e Senhor? Pretendiam, não descrever, de forma histórica como se deu o nascimento do Salvador, mas sim, cada qual à sua comunidade, refletir o que significa o nascimento de Jesus. Daí depreendemos: Jesus é filho do povo de Israel, confessado como descendente de Davi, rejeitado por Israel, mas acolhido pelos pagãos e experimenta em sua pele as dores históricas do povo de Israel (Mateus). Jesus é a Nova Aliança (Testamento) de Deus com toda a humanidade e sua chegada traz plenitude às promessas do Antigo Testamento e os pobres são os primeiros destinatários da mensagem de Jesus, tanto que ele nasce em meio à pobreza (Lucas). Ambas catequeses são belíssimas, inspiradas pelo Espirito Santo e reconhecidas como canônicas pela Igreja, embora não tenham a pretensão de descrever de forma exata como se realizou o mistério do Verbo que se fez carne e habitou entre nós. Que Deus te abençoe e que você nesse tempo do Natal reconheça o amor de Deus por ti: te ama tanto que se fez igual a você em tudo, menos no pecado, para lhe salvar.

BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA PARA APROFUNDAMENTO
BARBAGLIO, Giuseppe. Jesus, Hebreu da Galileia. São Paulo: Paulinas.
BORG, Marcus J. CROSSAN, John Dominic. O Primeiro Natal. O que podemos aprender com o nascimento de Jesus. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira.
BROWN, Raymond. O Nascimento do Messias. Comentário das narrativas da infância nos evangelhos de Mateus e Lucas. São Paulo: Paulinas.
PAGOLLA, Jose Antonio. Jesus – uma aproximação histórica. Petrópolis: Vozes.


[1] BARBAGLIO, Giuseppe. Jesús, hebreo de Galilea. Investigación histórica. Salamanca: Secretariado Trinitário, 2003. p. 120.
[2] Para Mateus, Jesus nasce no lar que José e Maria tem em Belém. Para Lucas, eles não têm lar em Belém e Jesus nasce no presépio, motivado por um censo que historicamente não há fontes que comprovem. Cf. BROWN, Raymond. El Nacimiento del Mesias. Comentario a los relatos de la infancia. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1982. p. 432.
[3] Quem escreve o texto bíblico está procurando demonstrar que Jesus é o Messias. Na tradição judaica esperava-se que o Messias nascesse em Belém (Mq 5,2). No entanto Mateus e Lucas divergiram quanto ao motivo real do nascimento de Jesus na cidade real, o que levanta a suspeita de que, na realidade seja uma catequese para os membros de suas comunidades. Cf. PAGOLLA, Jose Antonio. Jesús, uma aproximación histórica. Madrid: PPC Editorial, 2007. p. 34.
[4] BORG, Marcus J. CROSSAN, John Dominic. La Primera Navidad. Los que los evangelios enseñan realmente acerca del nacimiento de Jesús. Estella: Editorial Verbo Divino, 2009. p.145-148.

OS PROFETAS EM DEFESA DA LIBERDADE


OS PROFETAS EM DEFESA DA LIBERDADE 
Fr. Inácio José, OdeM
Caro leitor. Continuemos a nossa reflexão acerca do carisma mercedário, a partir dos textos bíblicos que inspiraram nosso fundador São Pedro Nolasco nesse empreendimento de libertar gratuitamente os cristãos cativos pobres em risco de perder a fé. Já vimos anteriormente a vocação de Moisés, chamado por Deus a libertar os israelitas da escravidão egípcia e, vimos também, a experiência de Deus enquanto misericórdia que nos liberta da escravidão dos ídolos. Hoje veremos as vozes proféticas que se levantaram em prol da liberdade do povo.
6 Assim diz o SENHOR: “Não perdoarei Israel por seus três crimes e, agora, por mais este: Eles vendem o justo por dinheiro, o sofredor, por um par de sandálias. 7 esmagam a cabeça dos fracos no pó da terra e tornam a vida dos oprimidos impossível. (Am 2,6-7. Tradução Bíblia CNBB).
            Os profetas eram pessoas que tinham uma experiência profunda do Deus do Êxodo (Deus que liberta da escravidão) e sentiam-se vocacionados a anunciar ao povo a Aliança de Deus, denunciar as infidelidades da nação para com a Aliança e consolar os que sofrem, mediante palavras de esperança. Amós era do Reino do Sul (Judá), mas foi convocado por Deus para profetizar no Reino do Norte (Israel) no tempo do reinado de Jeroboão II, um tempo de prosperidade econômica, mas de decadência moral e religiosa. Ele denunciou que, mesmo em meio a toda religiosidade do povo, o culto era pervertido e havia uma injustiça social institucionalizada.
Vejamos: Eles vendem o justo (ƒaddîq = pessoa justa, direita, inocente) por dinheiro, o sofredor (°ebyôn = pessoa necessitada), por um par de sandálias. Aqui temos clara alusão à instituição da escravidão como forma de pagar dívidas. O par de sandálias significa que os pobres eram vendidos por dívidas insignificantes. Mostra o desprezo dos ricos para com os pobres. Esmagam a cabeça dos fracos (dal = o que é de classe inferior) no pó da terra e tornam a vida (derek = caminho) dos oprimidos (±¹nî = pobre, aflito) impossível. Denuncia novamente o trato opressor dos ricos em relação aos pobres. Esmagar a cabeça dos inferiores no pó da terra significa o mais profundo desprezo e “tornar a vida dos oprimidos impossível” (literal: torcer o caminho dos pobres) pode ser traduzido no sentido judicial de “não fazer justiça aos pobres”[1].
O que este texto profético nos diz de nosso carisma? Amós denuncia o enriquecimento das pessoas à custa da escravidão, à custa das injustiças nos tribunais, motivados pelo desprezo dos ricos para com os mais pobres. São Pedro Nolasco era comerciante. Poderia pensar apenas no lucro de seu empreendimento. Mas não! Tocado ao ver um cristão cativo sendo vendido como escravo, investe seu dinheiro para libertá-lo e, anos mais tarde, inspirado por Deus mediante Maria das Mercês, funda a Ordem das Mercês para justamente comprar a liberdade daqueles que, naquele contexto, estavam com suas vidas esmagadas no pó da terra, vendidos como mercadoria pelos muçulmanos.
No texto bíblico aparecem três palavras referentes aos pobres: °ebyôn, dal, e ±¹nî. Em apenas dois versículos, o profeta usa vasto vocabulário para se referir aos cativos de seu tempo. O carisma original das Mercês consistia justamente em arrecadar recursos para comprar a liberdade dos cristãos pobres submetidos ao cativeiro, aos quais as famílias não tinham condição de redimir. Por isso, quem bebe de nossa espiritualidade deve obrigatoriamente se aproximar dos mais pobres, escutar as suas angústias, os seus clamores por liberdade e, por gestos e palavras lhe suscitar esperança de, um dia, possuir uma vida digna. Por outro lado, o mercedário, religioso ou leigo, deve também, como o profeta Amós e como São Pedro Nolasco, denunciar a economia e a política de interesses de certos grupos nacionais e internacionais que estão fazendo com que surja novos tipos de escravidão, cuja última consequência é a opressão e o cárcere[2]. Reze e medite esses versículos bíblicos e procure responder: que lugar os pobres ocupam na minha vida? Uso de palavras e gestos para promove-los? Deus nos abençoe e nos conceda cada vez mais nos encantar com nosso carisma redentor.


[1] RIVAS, Pedro Jaramillo. Amos. In. Comentario al Antiguo Testamento II. Estella: La Casa de la Biblia, 1997. p.329.
[2] PIKAZA, Xavier. Pedro Nolasco, Biblia de la libertad (2). Profetas. In. http://blogs.periodistadigital.com/xpikaza.php?cat=4747

QUE O SENHOR TE ABENÇOE

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