PENTECOSTES JUDAICO E PENTECOSTES CRISTÃO
Caro leitor, no último artigo que
escrevemos para este jornal, fizemos uma comparação entre a Páscoa judaica e a
Páscoa cristã, compreendendo como a nossa religião se inspirou na religião
judaica, dando um novo sentido aos símbolos usados no judaísmo.
O tempo Pascal se encerra com a
festa de Pentecostes, que por sua vez também é originalmente uma festa judaica
adaptada ao cristianismo. Na tradição cristã, a festa de Pentecostes recorda a
vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos reunidos no cenáculo. Celebra-se
nesse dia o nascimento da igreja, que, com a unção do Divino Espírito Santo,
assume a missão de evangelizar todo o mundo, anunciando Jesus como caminho,
verdade e vida. Essa tradição está fundamentada em Atos, capítulo 2, que narra
a vinda do Espírito Santo. O Evangelho de João, por sua vez, narra a vinda do
Espírito Santo no dia da ressurreição de Jesus, quando Ele, Ressuscitado, se
manifesta à igreja e, soprando sobre a comunidade cristã, unge-a com o Espírito
Santo e a envia em missão. Portanto, acerca da vinda do Espírito Santo, tem-se,
na Bíblia, duas tradições.
Do ponto de vista judaico, o que se
celebrava em Pentecostes? Era a chamada festa das colheitas ou das primícias
(Ex 34,22; Lv 23,16; Dt 16,9). Os primeiros frutos da terra eram colhidos nessa
festa, que acontecia 50 dias depois da Páscoa. Por que Lucas colocou a vinda do
Espírito Santo nesse dia? Talvez seja para mostrar ao leitor-ouvinte que o
Espírito Santo é dado àqueles que serão colhidos para a ressurreição. Afinal de
contas, o Espírito Santo é chamado no Novo Testamento de primícias (Rm 8,23);
Cristo, que foi o primeiro ressuscitado pela força do Espírito Santo (Rm 8,11),
é chamado de primícia (1Cor 15,20.23), e os que se convertem ao cristianismo
também recebem este nome (Rm 16,5; 1Cor 16,15). Em suma, o Espírito Santo é
dado àqueles que serão colhidos para a vida eterna.
Mas há outro sentido na festa de
Pentecostes. Além de se celebrar o princípio das colheitas, comemorava-se o dia
no qual Moisés recebeu a Torá no Sinai (Ex 31,18). Torá significa “instrução,
ensino”, mais do que propriamente lei. O povo de Israel nunca foi fiel a essa
instrução do Sinai, até que um dia Deus prometeu que escreveria essa instrução
no coração do povo (Jr 31,31-34) para resolver esse problema. Assim, o segundo
sentido que Lucas dá ao Pentecostes cristão é que, pela ação do Espírito Santo,
Deus escreve a sua Torá dentro do coração do ser humano, de tal maneira que
cada um, desde seu interior, saiba discernir a própria vontade de Deus (Rm
8,4-5).
Assim, do Pentecostes judaico, festa
originalmente agrícola que depois teve o sentido da Aliança de Deus
acrescentado, passa-se ao Pentecostes cristão com os mesmos sentidos ampliados
e plenificados: nesse dia, o Espírito Santo vem à humanidade para ungir aqueles
que serão colhidos para viver eternamente no céu, desde que vivam a fidelidade
à instrução divina, que este mesmo Espírito Santo escreverá em seus corações.
Permitamos que nossa vida seja guiada pela luz do Espírito Santo, e em cada
momento decisivo de nossa vida, peçamos sua luz e nos perguntemos: o que Jesus
faria se estivesse aqui em meu lugar?
Deus te abençoe e conceda saúde e
paz.
Padre Frei Inácio José, doutorando
em teologia bíblica pela FAJE, bolsista Fapemig.

