RECUPERAR O TEMPO DA GRAÇA (KHARIS)
Queridos irmãos e irmãs. Deus nos ama gratuitamente e nos concede seus favores independente se merecemos ou não. A expressão bíblica que traduz essa realidade é palavra GRAÇA, em grego KHARIS. Na carta ao Gálatas, que Paulo escreveu por volta do ano 57 a 58 d.C, Paulo combate os judeus-cristãos radicais que queriam que os pagãos guardassem as leis judaicas para que se tornassem cristãos. Paulo ao tomar conhecimento de que alguns abraçaram o rigorismo judaico, escreveu a carta para ensinar que a salvação vem pela graça e fé em Jesus não pelas obras da lei judaica, conforme ele mesmo diz:
“Eu não anulo a graça (kharis) de Deus. Ora, se a justiça vem pela Lei, então Cristo morreu por nada”. Gl 2,21
Paulo censura os cristãos da Galácia que “tão depressa, abandonaram aquele que os havia chamado na graça de Cristo, passando a outro evangelho” Gl 1,6. Para Paulo tanto judeus, quanto pagãos são salvos pela fé em Jesus. As leis judaica obrigatórias ao povo judeu, não poderiam ser impostas ao povo pagão que quisesse abraçar a fé em Cristo. O apóstolo justifica sua posição dizendo que
4Vós, que procurais a vossa justificação na Lei, rompestes com Cristo: decaístes da graça (kharis). 5Quanto a nós, que nos deixamos conduzir pelo Espírito, é da fé que aguardamos a justificação, objeto de nossa esperança. 6Com efeito, em Jesus Cristo, o que vale é a fé agindo pelo amor; ser ou não circuncidado não tem importância alguma. (Gl 5,4-6)
Paulo elaborou essa reflexão porque experimentou na pele o chamado divino sem merecimento algum de sua parte (Gl 1,15)[1], pois, antes ele era perseguidor dos cristãos, mas, ao experimentar Jesus Ressuscitado, ele percebe que todo o rigorismo judaico que ele havia praticado outrora não lhe serviu para nada. As próprias colunas da Igreja reconheceram depois o chamado de Paulo para pregar o evangelho aos pagãos (Gl 2,9)[2].
Esse ensino paulino acerca da graça é precioso para nós. Vivemos em tempos relativistas onde as estruturas que nos davam segurança (família, política, religião etc.) não nos proporcionam mais. Daí que todo grupo que propor um caminho seguro de vida fará sucesso. No âmbito religioso assistimos o crescimento de movimentos fundamentalistas, que propõe a salvação mediante a prática dos seus ritos religiosos e da sua interpretação dos textos sagrados.
No catolicismo sempre se ensinou que a salvação vem pelas obras. Ainda corremos o risco de achar que seremos salvos porque praticamos boas obras, ou porque guardamos todos os preceitos religiosos. No fundo isso é uma espécie de barganha com o divino. Não serei salvo porque sou bom, mas porque Deus é bom e graça (kharis) e ele deseja me salvar. O comportamento ético deve ser pautado pela fraternidade e respeito ao ser humano como tal e não como busca de uma recompensa de salvação por parte do divino.
Mesmo em tempos turbulentos, sejam estas consequencias de nossas más ações ou por ocasiões da vida, devemos crer que Deus sempre nos acompanha. E essa é a caracteristica da graça divina. Aquilo que Paulo deseja aos irmãos cristãos sempre ao início de suas cartas, em suas saudações, é sempre verdade: a graça e a paz de Deus Nosso Pai e do Senhor Jesus, sempre estão conosco (Gl 1,3; 6,18).
Fr. Inácio José, mercedário
[1] 15Deus, porém, tinha me posto à parte desde o ventre materno. Quando então ele me chamou por sua graça 16e se dignou revelar-me o seu Filho, para que eu o anunciasse aos pagãos, não consultei carne e sangue, 17nem subi, logo, a Jerusalém para estar com os que eram apóstolos antes de mim. Pelo contrário, parti para a Arábia e, depois, voltei ainda a Damasco.
[2] 9Reconhecendo a graça que me foi dada, Tiago,Cefas e João, considerados as colunas da igreja, deram-nos a mão, a mim e a Barnabé,
como sinal de nossa comunhão recíproca. Assim ficou confirmado que nós iríamos aos pagãos, e eles, aos judeus. 10O que nos recomendaram foi somente que nos lembrássemos dos pobres. E isso procurei fazer sempre,
com toda a solicitude.
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