quarta-feira, 12 de abril de 2017

A GRAÇA DIVINA NO SEGUNDO TESTAMENTO E NA PESSOA DE JESUS

A GRAÇA DIVINA NO SEGUNDO TESTAMENTO E NA PESSOA DE JESUS
Os escritos do Segundo Testamento enfocam a teologia da graça da seguinte forma:
Nos sinóticos, a experiência da graça está no fato de acolher a Jesus e a proposta do Reino de Deus. Deus é a apresentado por Jesus como Gratuidade que nos oferece a Salvação. Em Mateus e Marcos a palavra charis não aparece; em Lucas aparece oito vezes e em Atos, dezessete vezes. A ausência da palavra charis é compensada pela presença atuante do Reino de Deus que se manifesta na gratuidade do Pai em se aproximar dos pobres e pecadores, através de Jesus. Deus manifesta seu poder não na força, mas na simplicidade e pobreza do cotidiano. Seu Reino não tira força do poder humano mas do próprio amor divino; o Reino é Deus mesmo se desdobrando de amor e cuidado para com o humano necessitado. Através da manifestação do Reino, a graça divina se manifesta como: 1. Realidade presente e escatológica. 2. Convite à relação filial com Deus. 3. Convite ao seguimento de Jesus. 4. Experiência atual de salvação. Em Atos dos Apóstolos, charis aparece dezessete vezes e graça seria a força que vem Deus e de Cristo e que acompanha a missão apostólica, se realizando com o dom do Espírito como ação carismática e santificadora da Igreja.
Nas cartas paulinas, charis aparece, pelo menos, cem vezes. O “Reino de Deus” dos evangelhos, é traduzido por Paulo pelo termo “graça”. É o centro da pregaçõ paulina. Graça seria dom divino, iniciativa divina, salvação gratuita de Deus manifestada em Cristo e que gera uma vida nova no ser humano. A teologia da graça paulina pode ser assim sintetizada:
a.                                           A humanidade é pecadora mas é Cristo ela encontra a salvação e justificação.
b.                                           A participação na morte e ressurreição de Cristo pelo batismo alcança para o ser humano um relação pessoal com Jesus que lhe faz cada dia morrer para o pecado e viver a vida nova cristã.
c.                                           Pela vida em Cristo recebemos o Espírito Santo que faz filhos adotivos de Deus, assemelhando-nos a Jesus.
d.                                          Deus justifica o ser humano pecador mediante a sua fé operante em Cristo. A justificação é realidade presente que, atuando no ser humano, o faz nova criatura.
Nos escritos joaninos, charis aparece três vezes e, mesmo assim, somente no prólogo do evangelho joanino. A teologia joanina gira em torno do amor que Deus é que se manifesta na encarnação do Filho. O Verbo feito carne é fonte de vida e pela vinda dele ao mundo já vivemos a “vida eterna” que é sinônimo de “graça”. Pela encarnação do Verbo há uma relação íntima entre Deus e os seres humanos. Quem nasce de Deus vive sempre em Deus. A segunda carta de Pedro fala que o cristão é participante da natureza divina. Aqui não se trata panteísmo, mas se trata, segundo o pensamento bíblico como um todo, de que a participação da vida divina não se reserva somente para o fim da vida, mas já está presente no cristão, como graça de assimilação de Deus, que consiste na incorruptibilidade e imortalidade que serão plenas na nossa ressurreição.
A pessoa de Jesus, como revelação de Deus em nossa história, é manifestação da Graça. Isso transparece em seu jeito de ser: anunciando a chegada do Reino de Deus como manifestação gratuita do Pai que ama a todo ser humano; na solidariedade aos doentes, marginalizados pela religião oficial; no perdão dado ao pecadores; na convivência com os pobres, excluídos pela sistema econômico e social de seu tempo; na acolhida à mulher enquanto discípulas, algo que era contra-cultural para o seu tempo. Inúmeras das parábolas de Jesus se reflete a Graça divina:
a.       A parábola do samaritano Lc 10,29-37: o samaritano pode simbolizar o próprio Deus que gratuitamente salva a humanidade ferida e quase morta pelo pecado.
b.      A parábola do pai misericordioso Lc 15,11-32: Deus acolhe o pecador que volta necessitado e não necessariamente arrependido.
c.       A parábola do fariseu e publicano Lc 18,9-14: o publicano (sem deixar de ser publicano) é perdoado ao passo que o fariseu não.
d.      A parábola dos trabalhadores da última hora Mt 20,1-16: o patrão (Deus), porque é bom paga o mesmo salário a todos os trabalhadores.

Desta forma nota-se, tanto em Jesus, quanto nas suas parábolas, bem como na reflexão teológica que as comunidades realizaram acerca da pessoa de Jesus mediante as cartas e evangelhos, que a temática da graça, mesmo que o termo charis não apareça, está sempre presente. O marco da experiência cristã de Deus é a graça divina que transparece nesse amor gratuito unilateral de Deus pela humanidade. 

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