A
PRESENÇA DIVINA EM JESUS
Creio
que a presença de Deus na pessoa de Jesus transparece sobretudo na sua
compaixão e misericórdia para com os que sofrem. Numa sociedade tradicional e
patriarcal, Jesus teve uma conduta, para muitos desviada do normal. Por isso
mesmo, tanto a religião como o império romano, consideraram seu modo de vida
perigoso. Mas, nesse jeito arriscado e compassivo de ser, Jesus manifestou de
forma absoluta a presença de Deus em nossa história.
Jesus
de Nazaré, historicamente falando, realizou basicamente duas coisas: pregou a
chegada do Reino de Deus[1] e,
para provar esta chegada, exerceu uma atividade terapêutica junto aos doentes[2],
curando os enfermos e expulsando os demônios. Além disso realizou sinais sobre
a natureza que lhe foram atribuídos como milagres.
Vale ressaltar que, no tempo de Jesus, a doença era
considerada pecado[3] e, o enfermo era excluído
da convivência social, por ser considerado “impuro” pela religião[4].
Jesus, ao manifestar compaixão e misericórdia para com o enfermo, está
superando esse preconceito religioso, e do ponto de vista da Revelação Divina,
está nos ensinando que a enfermidade não é castigo divino, mas ocasião de
mostrar Deus reina na medida em que os doentes são acolhidos na convivência
social. O mesmo vale dizer para os exorcismos de Jesus. Toda doença não
explicada racionalmente era atribuída à possessão de demônios, sendo o
tratamento o exorcismo. De qualquer forma Jesus os acolhia e se fazia solidário
às pessoas com esse tipo de problema.
É notável também, a presença de Jesus junto aos
pecadores. Um judeu tradicional jamais comeria com um pecador. João Batista
exigia a conversão do pecador para que ele recebesse o batismo. Jesus, ao
contrário, convive com o pecador e este, ao perceber-se acolhido por Jesus,
sente a vontade de mudar[5]. Essa
abertura de Jesus, fez com que tivesse muitos embates com os fariseus, que
consideravam absurdo esse comportamento de Jesus[6]. Outro
dado curioso é que Jesus perdoava os pecados do povo fora do Templo de
Jerusalém, outro motivo de escândalo[7].
Dito isso podemos nos perguntar: como experimentamos a
presença de Jesus nos dias atuais? Como podemos ser a presença de Jesus hoje em
dia?
Creio que a presença de Jesus nos tempos atuais se dê da
seguinte forma:
a. Numa comunidade que se reúne em nome Dele, e que procurar
praticar o que Jesus fez e disse, o Ressuscitado se faz presente[8]. Não
basta conhecer teoricamente quem é Jesus, mas é preciso colocar em prática os
seus ensinamentos.
b. Ele se faz presente nos sacramentos sobretudo a
Eucaristia, Palavra meditada e Pão Consagrado, em sua memória[9]. A
Eucaristia, desde os primórdios da Igreja, foi o principal meio, através do
qual a comunidade experimentava Jesus Vivo entre eles.
c. Jesus Ressuscitado se faz presente no apostolado da
igreja, confirmando a missão evangelizadora[10]. A
comunidade se sente comissionada pelo Ressuscitado. Ao comunicar a boa nova do
Evangelho notamos a presença do Ressuscitado a nos conduzir.
d. Jesus Ressuscitado está presente nos que sofrem e toda
caridade feita a eles é ao próprio Jesus que fazemos e, no fim da vida, nos
será critério de salvação[11]. No
mundo em que vivemos, talvez seja a presença de Cristo mais esquecida e que
precisa ser urgentemente relembrada: a presença de Cristo nos pobres.
Que o Senhor nos ajude a reconhecer sempre sua presença
em nosso meio.
Fr. Inácio José, mercedário
[1] Mc
1,14; Reino de Deus é Deus intervindo na história humana, fazendo acontecer
aqui o seu Reinado.
[2] Mc
1,25-26; 1,34; a proximidade de Jesus para com os doentes.
[3]
Eclo 38,9-10; o doente deve pedir perdão dos pecados e buscar a medicina.
[4] Lv
13,44-46; os leprosos era isolados da convivência social.
[6] Lc
15,1-2; a proximidade de Jesus para com os pecadores e os murmúrios dos
fariseus.
[7] Mt
9,1-8; Jesus perdoa e cura o paralítico.
[8] Jo
20,19-29; Mt 18,20; a experiência de Tomé com o Ressuscitado se deu na
comunidade e não fora dela.
[9] Lc
24,13-35; a experiência dos
discípulos de Emaús com o Ressuscitado se dá na meditação da Palavra e na
Eucaristia (“partir o pão”).
[10]
Jo 21,1-14; o relato da pesca milagrosa simboliza o sucesso da evangelização. Afinal
de contas, os discípulos são “pescadores de homens”.
[11]
Mt 25,31-46; a parábola do juízo final coloca as obras de misericórdia como
critério para a salvação.
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