OS
PROFETAS EM DEFESA DA LIBERDADE
Fr.
Inácio José, OdeM
Caro
leitor. Continuemos a nossa reflexão acerca do carisma mercedário, a partir dos
textos bíblicos que inspiraram nosso fundador São Pedro Nolasco nesse
empreendimento de libertar gratuitamente os cristãos cativos pobres em risco de
perder a fé. Já vimos anteriormente a vocação de Moisés, chamado por Deus a
libertar os israelitas da escravidão egípcia e, vimos também, a experiência de
Deus enquanto misericórdia que nos liberta da escravidão dos ídolos. Hoje
veremos as vozes proféticas que se levantaram em prol da liberdade do povo.
6 Assim diz o SENHOR: “Não perdoarei Israel por seus três
crimes e, agora, por mais este: Eles vendem o justo por dinheiro, o sofredor,
por um par de sandálias. 7 esmagam a cabeça dos fracos no pó da terra e tornam
a vida dos oprimidos impossível. (Am 2,6-7. Tradução Bíblia CNBB).
Os
profetas eram pessoas que tinham uma experiência profunda do Deus do Êxodo
(Deus que liberta da escravidão) e sentiam-se vocacionados a anunciar ao povo a
Aliança de Deus, denunciar as infidelidades da nação para com a Aliança e consolar
os que sofrem, mediante palavras de esperança. Amós era do Reino do Sul (Judá),
mas foi convocado por Deus para profetizar no Reino do Norte (Israel) no tempo
do reinado de Jeroboão II, um tempo de prosperidade econômica, mas de decadência
moral e religiosa. Ele denunciou que, mesmo em meio a toda religiosidade do
povo, o culto era pervertido e havia uma injustiça social institucionalizada.
Vejamos:
Eles vendem o justo (ƒaddîq = pessoa
justa, direita, inocente) por dinheiro,
o sofredor (°ebyôn
= pessoa necessitada), por um par de
sandálias. Aqui temos clara alusão à
instituição da escravidão como forma de pagar dívidas. O par de sandálias significa
que os pobres eram vendidos por dívidas insignificantes. Mostra o desprezo dos
ricos para com os pobres. Esmagam a
cabeça dos fracos (dal
= o que é de classe inferior) no pó da terra
e tornam a vida (derek
= caminho) dos oprimidos (±¹nî = pobre, aflito) impossível. Denuncia novamente o trato opressor dos ricos em relação aos pobres. Esmagar
a cabeça dos inferiores no pó da terra significa o mais profundo desprezo e “tornar
a vida dos oprimidos impossível” (literal: torcer o caminho dos pobres) pode
ser traduzido no sentido judicial de “não fazer justiça aos pobres”[1].
O que
este texto profético nos diz de nosso carisma? Amós denuncia o enriquecimento
das pessoas à custa da escravidão, à custa das injustiças nos tribunais,
motivados pelo desprezo dos ricos para com os mais pobres. São Pedro Nolasco
era comerciante. Poderia pensar apenas no lucro de seu empreendimento. Mas não!
Tocado ao ver um cristão cativo sendo vendido como escravo, investe seu
dinheiro para libertá-lo e, anos mais tarde, inspirado por Deus mediante Maria das
Mercês, funda a Ordem das Mercês para justamente comprar a liberdade daqueles
que, naquele contexto, estavam com suas vidas esmagadas no pó da terra,
vendidos como mercadoria pelos muçulmanos.
No texto
bíblico aparecem três palavras referentes aos pobres: °ebyôn, dal, e ±¹nî. Em
apenas dois versículos, o profeta usa vasto vocabulário para se referir aos
cativos de seu tempo. O carisma original das Mercês consistia justamente em
arrecadar recursos para comprar a liberdade dos cristãos pobres submetidos ao
cativeiro, aos quais as famílias não tinham condição de redimir. Por isso, quem
bebe de nossa espiritualidade deve obrigatoriamente se aproximar dos mais
pobres, escutar as suas angústias, os seus clamores por liberdade e, por gestos
e palavras lhe suscitar esperança de, um dia, possuir uma vida digna. Por outro
lado, o mercedário, religioso ou leigo, deve também, como o profeta Amós e como
São Pedro Nolasco, denunciar a economia e a política de interesses de certos
grupos nacionais e internacionais que estão fazendo com que surja novos tipos
de escravidão, cuja última consequência é a opressão e o cárcere[2]. Reze
e medite esses versículos bíblicos e procure responder: que lugar os pobres ocupam
na minha vida? Uso de palavras e gestos para promove-los? Deus nos abençoe e
nos conceda cada vez mais nos encantar com nosso carisma redentor.
[1]
RIVAS, Pedro Jaramillo. Amos. In. Comentario al Antiguo Testamento II. Estella: La Casa de la Biblia, 1997. p.329.
[2]
PIKAZA, Xavier. Pedro Nolasco, Biblia de la libertad (2). Profetas. In. http://blogs.periodistadigital.com/xpikaza.php?cat=4747
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