sexta-feira, 2 de novembro de 2018

OS PROFETAS EM DEFESA DA LIBERDADE


OS PROFETAS EM DEFESA DA LIBERDADE 
Fr. Inácio José, OdeM
Caro leitor. Continuemos a nossa reflexão acerca do carisma mercedário, a partir dos textos bíblicos que inspiraram nosso fundador São Pedro Nolasco nesse empreendimento de libertar gratuitamente os cristãos cativos pobres em risco de perder a fé. Já vimos anteriormente a vocação de Moisés, chamado por Deus a libertar os israelitas da escravidão egípcia e, vimos também, a experiência de Deus enquanto misericórdia que nos liberta da escravidão dos ídolos. Hoje veremos as vozes proféticas que se levantaram em prol da liberdade do povo.
6 Assim diz o SENHOR: “Não perdoarei Israel por seus três crimes e, agora, por mais este: Eles vendem o justo por dinheiro, o sofredor, por um par de sandálias. 7 esmagam a cabeça dos fracos no pó da terra e tornam a vida dos oprimidos impossível. (Am 2,6-7. Tradução Bíblia CNBB).
            Os profetas eram pessoas que tinham uma experiência profunda do Deus do Êxodo (Deus que liberta da escravidão) e sentiam-se vocacionados a anunciar ao povo a Aliança de Deus, denunciar as infidelidades da nação para com a Aliança e consolar os que sofrem, mediante palavras de esperança. Amós era do Reino do Sul (Judá), mas foi convocado por Deus para profetizar no Reino do Norte (Israel) no tempo do reinado de Jeroboão II, um tempo de prosperidade econômica, mas de decadência moral e religiosa. Ele denunciou que, mesmo em meio a toda religiosidade do povo, o culto era pervertido e havia uma injustiça social institucionalizada.
Vejamos: Eles vendem o justo (ƒaddîq = pessoa justa, direita, inocente) por dinheiro, o sofredor (°ebyôn = pessoa necessitada), por um par de sandálias. Aqui temos clara alusão à instituição da escravidão como forma de pagar dívidas. O par de sandálias significa que os pobres eram vendidos por dívidas insignificantes. Mostra o desprezo dos ricos para com os pobres. Esmagam a cabeça dos fracos (dal = o que é de classe inferior) no pó da terra e tornam a vida (derek = caminho) dos oprimidos (±¹nî = pobre, aflito) impossível. Denuncia novamente o trato opressor dos ricos em relação aos pobres. Esmagar a cabeça dos inferiores no pó da terra significa o mais profundo desprezo e “tornar a vida dos oprimidos impossível” (literal: torcer o caminho dos pobres) pode ser traduzido no sentido judicial de “não fazer justiça aos pobres”[1].
O que este texto profético nos diz de nosso carisma? Amós denuncia o enriquecimento das pessoas à custa da escravidão, à custa das injustiças nos tribunais, motivados pelo desprezo dos ricos para com os mais pobres. São Pedro Nolasco era comerciante. Poderia pensar apenas no lucro de seu empreendimento. Mas não! Tocado ao ver um cristão cativo sendo vendido como escravo, investe seu dinheiro para libertá-lo e, anos mais tarde, inspirado por Deus mediante Maria das Mercês, funda a Ordem das Mercês para justamente comprar a liberdade daqueles que, naquele contexto, estavam com suas vidas esmagadas no pó da terra, vendidos como mercadoria pelos muçulmanos.
No texto bíblico aparecem três palavras referentes aos pobres: °ebyôn, dal, e ±¹nî. Em apenas dois versículos, o profeta usa vasto vocabulário para se referir aos cativos de seu tempo. O carisma original das Mercês consistia justamente em arrecadar recursos para comprar a liberdade dos cristãos pobres submetidos ao cativeiro, aos quais as famílias não tinham condição de redimir. Por isso, quem bebe de nossa espiritualidade deve obrigatoriamente se aproximar dos mais pobres, escutar as suas angústias, os seus clamores por liberdade e, por gestos e palavras lhe suscitar esperança de, um dia, possuir uma vida digna. Por outro lado, o mercedário, religioso ou leigo, deve também, como o profeta Amós e como São Pedro Nolasco, denunciar a economia e a política de interesses de certos grupos nacionais e internacionais que estão fazendo com que surja novos tipos de escravidão, cuja última consequência é a opressão e o cárcere[2]. Reze e medite esses versículos bíblicos e procure responder: que lugar os pobres ocupam na minha vida? Uso de palavras e gestos para promove-los? Deus nos abençoe e nos conceda cada vez mais nos encantar com nosso carisma redentor.


[1] RIVAS, Pedro Jaramillo. Amos. In. Comentario al Antiguo Testamento II. Estella: La Casa de la Biblia, 1997. p.329.
[2] PIKAZA, Xavier. Pedro Nolasco, Biblia de la libertad (2). Profetas. In. http://blogs.periodistadigital.com/xpikaza.php?cat=4747

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