NATAL:
UMA PERSPECTIVA BÍBLICA
Fr.
Inácio José, OdeM
Caros
leitores, vivemos tempos litúrgicos de intensa espiritualidade: o advento nos
prepara para celebrar o mistério do Natal (primeira vinda de Jesus) e nos
recorda que aguardamos a segunda vinda do Senhor (parusia). O tempo do Natal
nos recorda o mistério da Encarnação do Verbo: Deus que, para nos salvar,
assumiu plenamente a nossa condição humana, menos o pecado. Mas o que a Bíblia
nos fala do Natal? É o que pretendemos explicar nessas breves linhas. Peço ao
leitor que na medida em que vá avançando na leitura, pegue sua Bíblia e confira
os textos bíblicos citados.
Em
primeiro lugar, os textos bíblicos não pretendem descrever o que aconteceu
historicamente, mas elaborar uma catequese teológica acerca do mistério do
Nascimento do Messias[1]. Até
mesmo porque, lido numa perspectiva histórica, os “relatos da infância do
Senhor” são absolutamente contraditórios entre si[2].
Entre os biblistas e historiadores existe inclusive certo consenso de que Jesus
tenha nascido, de fato, na cidade de Nazaré e não em Belém como afirmam as
narrativas da infância de Mateus e Lucas,[3] ao
passo que, os próprios evangelistas e Atos afirmam que Jesus é de Nazaré (Mc
1,9; Mt 21,11; Jo 1,45-46, At 10,38).
Vamos
à Biblia. Os evangelistas que refletiram teologicamente o nascimento e infância
de Jesus foram Mateus e Lucas. Comecemos por Mateus. Escrito por volta dos anos
80 d.C, por um judeu-cristão para uma comunidade de cristãos vindos do
judaísmo. Começa com uma genealogia simbólica (Mt 1,1-17), na qual mostra a
origem judaica de Jesus, sua vinculação a Davi (simbolizado pelo número 14)
perpassando toda a história de Israel. Depois, já narra o nascimento de Jesus da
virgem Maria, como cumprimento da profecia de Is 7,14, em Belém, depois do
aviso do anjo, em sonho a José (Mt 1,18-25). Em seguida (Mt 2,1-12), temos a
visita dos magos, que simbolizam os não-israelitas (pagãos), que vem reconhecer
o Menino Jesus como Rei de Israel, ao passo que ele é, desde já, rejeitado
pelas lideranças de Israel (sacerdotes) e Rei Herodes. Em seguida, Mateus
mostra Jesus participando das dores vividas pelo povo de Israel ao longo de sua
história: a permanência no Egito (Mt 2,13-18), Herodes pretende matar o menino
Jesus do mesmo modo como o faraó pretendia matar o menino Moisés; o exílio
babilônico é referenciado pela citação de Jr 31,15 onde Ramá era no passado o
local de onde os exilados israelitas partiam para o cativeiro; e por fim, a
dispersão do exílio (Mt 2,19-23), quando a família de Jesus volta do Egito e
não retorna a Belém, mas sim a Nazaré onde viverão daqui pra frente. Resumindo:
segundo Mateus, Jesus nasce em seu lar em Belém e, após a visita dos magos, é
obrigado a fugir para o Egito e do Egito vai para Nazaré onde será criado. Jesus
é o Messias de Israel, novo Moisés enviado por Deus para libertar o povo de
seus pecados. Outra versão, bem diferente, temos em Lucas.
Lucas,
por sua vez, também foi escrito por volta dos anos 80 d.C, para uma comunidade
de pagãos convertidos ao cristianismo. A comunidade tem inspiração na teologia
paulina, ou seja, que Jesus é o Salvador de toda a humanidade e não apenas do
povo de Israel. Além disso, Lucas faz um paralelo entre João Batista (último profeta
do Antigo Testamento) e Jesus (Novo Testamento recém-chegado), mostrando a
superioridade de Jesus em relação ao Antigo Testamento, que também é
simbolizado pelos personagens idosos que aparecem no texto. Confira: Lc 1,5-23,o
anjo Gabriel anuncia o nascimento de João Batista, ao idoso Zacarias, que está
oficiando no Templo de Jerusalém. A incredulidade lhe faz ficar mudo e sua
idosa mulher fica grávida. Lc 1,26-38: o mesmo anjo, agora vai a Nazaré, a uma
virgem prometida em casamento anunciar-lhe que será a mãe do Filho do
Altíssimo. Ela que não tinha motivos pra acreditar, acredita e fala “eis a
serva do Senhor”, ficando, assim, grávida. Em seguida, em Lc 1,39-45, temos o
encontro do Novo Testamento (Jesus) e o Antigo Testamento (João Batista), que se
alegra com a sua chegada, pois Jesus veio realizar todas as expectativas do
povo do Antigo Testamento. Lucas coloca nos lábios de Maria um antigo cântico
dos cristãos (Lc 1,46-56), que louva a Deus por salvar os pequenos e pobres de
Israel. Maria permanece 3 meses com Isabel, tal qual a arca da aliança
permaneceu 3 meses com Davi (2Sm
6,9-11): Maria é apresentada como a
nova arca que leva consigo Jesus, a nova aliança de Deus com toda a humanidade.
Lc 1.57-80, temos o nascimento de João Batista e o cântico do Benedictus, mais
um cântico dos antigos cristãos, posto agora nos lábios de Zacarias.
Lc
2,1-7: nascimento de Jesus. Aqui difere bastante de Mateus: a família de Jesus
é de Nazaré e por causa de um censo do império romano, eles são obrigados a se
deslocar a Belém e, como não havia local para eles, Jesus nasce entre os
animais. Como já disse anteriormente, não há nas fontes romanas da época,
registro de tal censo, aliás, como é descrito em Lucas, contradiz a praxe de
como os romanos faziam o censo[4]. Lc 2,8-20
mostra os pastores (pobres) como os primeiros destinatários da mensagem da
chegada de Jesus. Vão adorá-lo e reconhece-lo como Salvador. Lc 2,21-39 mostra
Jesus sendo circuncidado e apresentado no Templo e, novamente, dois idosos, Ana
e o Simeão (simbolizando o Antigo Testamento), acolhendo o menino Jesus (Novo
Testamento) e se alegrando, louvando e bendizendo a Deus pela sua chegada.
Depois disso, voltam a Nazaré. Por fim, Lc 2,41-52, mostra Jesus, aos doze
anos, no Templo, assumindo o compromisso de ocupar-se das coisas de seu Pai. Resumindo:
a família de Jesus é de Nazaré e, por causa de um censo romano, eles vão a
Belém e Jesus nasce lá por “coincidência”. Nota-se que, já havia uma crença
prévia de que o Messias nasceria em Belém (Mq 5,2), o que fez com que os
evangelistas esboçassem, cada um a sua maneira, um motivo para que “no texto” Jesus
nascesse lá, afim de mostrar que Jesus é o Messias desde o seu nascimento.
Entretanto, como disse anteriormente, há mais fortes indícios de que Jesus
historicamente tenha nascido sim na cidade de Nazaré (Mc 1,9; Mt 21,11; Jo
1,45-46, At 10,38), era conhecido como Jesus Nazareno (Mc 1,24; 10,47; 14,67;
16,6; Lc 4,34; 24,19) o que justifica a não aceitação dele como Messias por
parte das lideranças de Israel.
O
que os evangelistas pretendiam, portanto, ao escrever essas narrativas do
nascimento de Jesus, confessado como Messias e Senhor? Pretendiam, não
descrever, de forma histórica como se deu o nascimento do Salvador, mas sim,
cada qual à sua comunidade, refletir o que significa o nascimento de Jesus. Daí
depreendemos: Jesus é filho do povo de Israel, confessado como descendente de
Davi, rejeitado por Israel, mas acolhido pelos pagãos e experimenta em sua pele
as dores históricas do povo de Israel (Mateus). Jesus é a Nova Aliança
(Testamento) de Deus com toda a humanidade e sua chegada traz plenitude às
promessas do Antigo Testamento e os pobres são os primeiros destinatários da
mensagem de Jesus, tanto que ele nasce em meio à pobreza (Lucas). Ambas
catequeses são belíssimas, inspiradas pelo Espirito Santo e reconhecidas como
canônicas pela Igreja, embora não tenham a pretensão de descrever de forma
exata como se realizou o mistério do Verbo que se fez carne e habitou entre
nós. Que Deus te abençoe e que você nesse tempo do Natal reconheça o amor de
Deus por ti: te ama tanto que se fez igual a você em tudo, menos no pecado,
para lhe salvar.
BIBLIOGRAFIA
RECOMENDADA PARA APROFUNDAMENTO
BARBAGLIO,
Giuseppe. Jesus, Hebreu da Galileia. São Paulo: Paulinas.
BORG,
Marcus J. CROSSAN, John Dominic. O Primeiro Natal. O que podemos aprender
com o nascimento de Jesus. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira.
BROWN,
Raymond. O Nascimento do Messias. Comentário das narrativas da infância nos
evangelhos de Mateus e Lucas. São Paulo: Paulinas.
PAGOLLA,
Jose Antonio. Jesus – uma aproximação histórica. Petrópolis: Vozes.
[1] BARBAGLIO, Giuseppe. Jesús, hebreo de Galilea. Investigación
histórica. Salamanca: Secretariado Trinitário, 2003. p. 120.
[2] Para Mateus,
Jesus nasce no lar que José e Maria tem em Belém. Para Lucas, eles não têm lar
em Belém e Jesus nasce no presépio, motivado por um censo que historicamente
não há fontes que comprovem. Cf. BROWN, Raymond. El Nacimiento del
Mesias. Comentario a los relatos de la infancia. Madrid:
Ediciones Cristiandad, 1982. p. 432.
[3] Quem escreve o
texto bíblico está procurando demonstrar que Jesus é o Messias. Na tradição
judaica esperava-se que o Messias nascesse em Belém (Mq 5,2). No entanto Mateus
e Lucas divergiram quanto ao motivo real do nascimento de Jesus na cidade real,
o que levanta a suspeita de que, na realidade seja uma catequese para os
membros de suas comunidades. Cf. PAGOLLA, Jose Antonio. Jesús, uma
aproximación histórica. Madrid: PPC Editorial, 2007. p. 34.
[4] BORG, Marcus
J. CROSSAN, John Dominic. La Primera Navidad. Los que los evangelios enseñan realmente acerca del nacimiento de Jesús. Estella: Editorial Verbo Divino, 2009. p.145-148.
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