sexta-feira, 2 de novembro de 2018

NATAL UMA PERSPECTIVA BÍBLICA


NATAL: UMA PERSPECTIVA BÍBLICA
Fr. Inácio José, OdeM

Caros leitores, vivemos tempos litúrgicos de intensa espiritualidade: o advento nos prepara para celebrar o mistério do Natal (primeira vinda de Jesus) e nos recorda que aguardamos a segunda vinda do Senhor (parusia). O tempo do Natal nos recorda o mistério da Encarnação do Verbo: Deus que, para nos salvar, assumiu plenamente a nossa condição humana, menos o pecado. Mas o que a Bíblia nos fala do Natal? É o que pretendemos explicar nessas breves linhas. Peço ao leitor que na medida em que vá avançando na leitura, pegue sua Bíblia e confira os textos bíblicos citados.
Em primeiro lugar, os textos bíblicos não pretendem descrever o que aconteceu historicamente, mas elaborar uma catequese teológica acerca do mistério do Nascimento do Messias[1]. Até mesmo porque, lido numa perspectiva histórica, os “relatos da infância do Senhor” são absolutamente contraditórios entre si[2]. Entre os biblistas e historiadores existe inclusive certo consenso de que Jesus tenha nascido, de fato, na cidade de Nazaré e não em Belém como afirmam as narrativas da infância de Mateus e Lucas,[3] ao passo que, os próprios evangelistas e Atos afirmam que Jesus é de Nazaré (Mc 1,9; Mt 21,11; Jo 1,45-46, At 10,38).
Vamos à Biblia. Os evangelistas que refletiram teologicamente o nascimento e infância de Jesus foram Mateus e Lucas. Comecemos por Mateus. Escrito por volta dos anos 80 d.C, por um judeu-cristão para uma comunidade de cristãos vindos do judaísmo. Começa com uma genealogia simbólica (Mt 1,1-17), na qual mostra a origem judaica de Jesus, sua vinculação a Davi (simbolizado pelo número 14) perpassando toda a história de Israel. Depois, já narra o nascimento de Jesus da virgem Maria, como cumprimento da profecia de Is 7,14, em Belém, depois do aviso do anjo, em sonho a José (Mt 1,18-25). Em seguida (Mt 2,1-12), temos a visita dos magos, que simbolizam os não-israelitas (pagãos), que vem reconhecer o Menino Jesus como Rei de Israel, ao passo que ele é, desde já, rejeitado pelas lideranças de Israel (sacerdotes) e Rei Herodes. Em seguida, Mateus mostra Jesus participando das dores vividas pelo povo de Israel ao longo de sua história: a permanência no Egito (Mt 2,13-18), Herodes pretende matar o menino Jesus do mesmo modo como o faraó pretendia matar o menino Moisés; o exílio babilônico é referenciado pela citação de Jr 31,15 onde Ramá era no passado o local de onde os exilados israelitas partiam para o cativeiro; e por fim, a dispersão do exílio (Mt 2,19-23), quando a família de Jesus volta do Egito e não retorna a Belém, mas sim a Nazaré onde viverão daqui pra frente. Resumindo: segundo Mateus, Jesus nasce em seu lar em Belém e, após a visita dos magos, é obrigado a fugir para o Egito e do Egito vai para Nazaré onde será criado. Jesus é o Messias de Israel, novo Moisés enviado por Deus para libertar o povo de seus pecados. Outra versão, bem diferente, temos em Lucas.
Lucas, por sua vez, também foi escrito por volta dos anos 80 d.C, para uma comunidade de pagãos convertidos ao cristianismo. A comunidade tem inspiração na teologia paulina, ou seja, que Jesus é o Salvador de toda a humanidade e não apenas do povo de Israel. Além disso, Lucas faz um paralelo entre João Batista (último profeta do Antigo Testamento) e Jesus (Novo Testamento recém-chegado), mostrando a superioridade de Jesus em relação ao Antigo Testamento, que também é simbolizado pelos personagens idosos que aparecem no texto. Confira: Lc 1,5-23,o anjo Gabriel anuncia o nascimento de João Batista, ao idoso Zacarias, que está oficiando no Templo de Jerusalém. A incredulidade lhe faz ficar mudo e sua idosa mulher fica grávida. Lc 1,26-38: o mesmo anjo, agora vai a Nazaré, a uma virgem prometida em casamento anunciar-lhe que será a mãe do Filho do Altíssimo. Ela que não tinha motivos pra acreditar, acredita e fala “eis a serva do Senhor”, ficando, assim, grávida. Em seguida, em Lc 1,39-45, temos o encontro do Novo Testamento (Jesus) e o Antigo Testamento (João Batista), que se alegra com a sua chegada, pois Jesus veio realizar todas as expectativas do povo do Antigo Testamento. Lucas coloca nos lábios de Maria um antigo cântico dos cristãos (Lc 1,46-56), que louva a Deus por salvar os pequenos e pobres de Israel. Maria permanece 3 meses com Isabel, tal qual a arca da aliança permaneceu 3 meses com Davi (2Sm 6,9-11): Maria é apresentada como a nova arca que leva consigo Jesus, a nova aliança de Deus com toda a humanidade. Lc 1.57-80, temos o nascimento de João Batista e o cântico do Benedictus, mais um cântico dos antigos cristãos, posto agora nos lábios de Zacarias.
Lc 2,1-7: nascimento de Jesus. Aqui difere bastante de Mateus: a família de Jesus é de Nazaré e por causa de um censo do império romano, eles são obrigados a se deslocar a Belém e, como não havia local para eles, Jesus nasce entre os animais. Como já disse anteriormente, não há nas fontes romanas da época, registro de tal censo, aliás, como é descrito em Lucas, contradiz a praxe de como os romanos faziam o censo[4]. Lc 2,8-20 mostra os pastores (pobres) como os primeiros destinatários da mensagem da chegada de Jesus. Vão adorá-lo e reconhece-lo como Salvador. Lc 2,21-39 mostra Jesus sendo circuncidado e apresentado no Templo e, novamente, dois idosos, Ana e o Simeão (simbolizando o Antigo Testamento), acolhendo o menino Jesus (Novo Testamento) e se alegrando, louvando e bendizendo a Deus pela sua chegada. Depois disso, voltam a Nazaré. Por fim, Lc 2,41-52, mostra Jesus, aos doze anos, no Templo, assumindo o compromisso de ocupar-se das coisas de seu Pai. Resumindo: a família de Jesus é de Nazaré e, por causa de um censo romano, eles vão a Belém e Jesus nasce lá por “coincidência”. Nota-se que, já havia uma crença prévia de que o Messias nasceria em Belém (Mq 5,2), o que fez com que os evangelistas esboçassem, cada um a sua maneira, um motivo para que “no texto” Jesus nascesse lá, afim de mostrar que Jesus é o Messias desde o seu nascimento. Entretanto, como disse anteriormente, há mais fortes indícios de que Jesus historicamente tenha nascido sim na cidade de Nazaré (Mc 1,9; Mt 21,11; Jo 1,45-46, At 10,38), era conhecido como Jesus Nazareno (Mc 1,24; 10,47; 14,67; 16,6; Lc 4,34; 24,19) o que justifica a não aceitação dele como Messias por parte das lideranças de Israel.
O que os evangelistas pretendiam, portanto, ao escrever essas narrativas do nascimento de Jesus, confessado como Messias e Senhor? Pretendiam, não descrever, de forma histórica como se deu o nascimento do Salvador, mas sim, cada qual à sua comunidade, refletir o que significa o nascimento de Jesus. Daí depreendemos: Jesus é filho do povo de Israel, confessado como descendente de Davi, rejeitado por Israel, mas acolhido pelos pagãos e experimenta em sua pele as dores históricas do povo de Israel (Mateus). Jesus é a Nova Aliança (Testamento) de Deus com toda a humanidade e sua chegada traz plenitude às promessas do Antigo Testamento e os pobres são os primeiros destinatários da mensagem de Jesus, tanto que ele nasce em meio à pobreza (Lucas). Ambas catequeses são belíssimas, inspiradas pelo Espirito Santo e reconhecidas como canônicas pela Igreja, embora não tenham a pretensão de descrever de forma exata como se realizou o mistério do Verbo que se fez carne e habitou entre nós. Que Deus te abençoe e que você nesse tempo do Natal reconheça o amor de Deus por ti: te ama tanto que se fez igual a você em tudo, menos no pecado, para lhe salvar.

BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA PARA APROFUNDAMENTO
BARBAGLIO, Giuseppe. Jesus, Hebreu da Galileia. São Paulo: Paulinas.
BORG, Marcus J. CROSSAN, John Dominic. O Primeiro Natal. O que podemos aprender com o nascimento de Jesus. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira.
BROWN, Raymond. O Nascimento do Messias. Comentário das narrativas da infância nos evangelhos de Mateus e Lucas. São Paulo: Paulinas.
PAGOLLA, Jose Antonio. Jesus – uma aproximação histórica. Petrópolis: Vozes.


[1] BARBAGLIO, Giuseppe. Jesús, hebreo de Galilea. Investigación histórica. Salamanca: Secretariado Trinitário, 2003. p. 120.
[2] Para Mateus, Jesus nasce no lar que José e Maria tem em Belém. Para Lucas, eles não têm lar em Belém e Jesus nasce no presépio, motivado por um censo que historicamente não há fontes que comprovem. Cf. BROWN, Raymond. El Nacimiento del Mesias. Comentario a los relatos de la infancia. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1982. p. 432.
[3] Quem escreve o texto bíblico está procurando demonstrar que Jesus é o Messias. Na tradição judaica esperava-se que o Messias nascesse em Belém (Mq 5,2). No entanto Mateus e Lucas divergiram quanto ao motivo real do nascimento de Jesus na cidade real, o que levanta a suspeita de que, na realidade seja uma catequese para os membros de suas comunidades. Cf. PAGOLLA, Jose Antonio. Jesús, uma aproximación histórica. Madrid: PPC Editorial, 2007. p. 34.
[4] BORG, Marcus J. CROSSAN, John Dominic. La Primera Navidad. Los que los evangelios enseñan realmente acerca del nacimiento de Jesús. Estella: Editorial Verbo Divino, 2009. p.145-148.

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