DEUS DESEJA SALVAR AS “ALMAS” OU SALVAR AS “PESSOAS”?
Em resposta a muitas postagens, nas redes sociais, nas quais vemos
as pessoas acusando a Igreja de se preocupar com questões sociais, ao invés de
se preocupar com a salvação das “almas”, é justo perguntar: Deus está
preocupado em salvar as “almas” ou está interessado em salvar as pessoas
integralmente?
Se tomamos por base a Bíblia, notaremos que Deus está preocupado em
salvar as pessoas de modo integral, de tal forma que, no Antigo Testamento, Ele
intervém em situações sociais para salvar seu povo (cf. Ex 14,1-5; Sl 34,6; 40,17;
etc); os profetas, de modo geral, denunciam as injustiças sociais que
prejudicavam a vida corporal das pessoas (cf. Am 2,6-8; Mq, 2,1-2; Is 1,10-18);
o próprio Jesus se preocupava com a vida corporal das pessoas (cf. Mt 4,23;
9,35; 14,14-21 etc), curando enfermos e alimentando os famintos; além disso, na
perspectiva bíblica, o ser humano é visto como corpo (parte material), alma (parte
imaterial) e espírito (abertura ao transcendente) de forma indivisível (cf. 1Ts
5,23), formando uma unidade e não como os gregos pensavam (corpo e alma que pudessem
viver separados); Jesus ao curar o corpo, tocava a alma e abria a pessoa ao convívio
com Deus pela fé (espírito).
O desprezo do corpo, na história da Igreja, no século I e II, fez
com surgissem heresias (doutrinas erradas) em torno de Cristo (docetismo, que
negava a realidade corporal de Jesus) e em torno da salvação trazida por Ele
(gnosticismo, apenas a “alma” é salva, porque tudo que é material, inclusive o
corpo, é malévolo). Também não podemos esquecer que o credo católico afirma: “cremos
na ressurreição da carne” e não diz “cremos na ressurreição das almas”, ou
seja, a parte material do ser humano é vista de forma positiva, de tal forma
que será resgatada por Deus no dia final. Aliás, a Igreja afirma inclusive que
Jesus Cristo e Nossa Senhora, estão nos céus, ressuscitados integralmente e não
apenas em “alma”.
A própria Igreja Católica tomou consciência disso, no Concílio
Vaticano II (1962-1965), quando ela própria se entendeu como “sacramento de
salvação para o mundo” (Lumen Gentium 48), anunciando o Evangelho para que a
sociedade humana seja mais justa e mais fraterna, conforme o espírito cristão. Se
a missão da Igreja for apenas de ser instrumento de salvação da parte imaterial
do ser humano (alma), não faz sentido ter as pastorais que cuidam das pessoas
(sobriedade, saúde etc.). Entendemos que um corpo maltratado, pode prejudicar a
vida espiritual da pessoa, ou seja a sua relação com Deus. Assim sendo, concluímos
que, Deus deseja salvar as pessoas por inteiro e não apenas “uma parte delas”. A
preocupação social da missão da Igreja é tendo em vista a pessoa integral,
ajudando-a abrir-se à comunhão com Deus (vida espiritual).
Pe. Fr. Inácio José, mercedário
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