terça-feira, 27 de dezembro de 2022

CAMINHO DE SALVAÇÃO, CAMINHO DE HUMANIZAÇÃO



CAMINHO DE SALVAÇÃO, CAMINHO DE HUMANIZAÇÃO

Caros leitores, estamos vivenciando o tempo litúrgico do Natal, momento privilegiado para darmos graças a Deus pelo mistério da encarnação: Deus que para salvar o ser humano, assume a nossa natureza, a nossa fragilidade, a fim de nos divinizar, ou seja, propiciar a cada um de nós a sua própria vida.

Numa leitura tradicional, o início do livro do Gênesis retrata o ser humano caindo na tentação de “divinizar-se sem Deus”, e isso trouxe para toda a humanidade a desgraça, ou seja, a falta de comunhão com o próprio Deus, a perca desta comunhão com o sagrado.

Qual não é a nossa surpresa, ao percebermos que Deus, no auge da história da salvação, procurou responder esse anseio humano! O prólogo de João afirma que “no princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus, o Verbo era Deus e o Verbo se fez carne habitou entre nós” e propiciou a cada um de nós ser filhos de Deus. Ora, isso nada mais é do que uma resposta àquilo que estava dentro do coração do ser humano, o seu maior desejo: divinizar-se. Se, no livro do Gênesis, o pecado humano foi querer “divinizar-se sem Deus”, o caminho da salvação-redenção é “divinizar-se com Deus”.

Não me entendam mal. Nenhum ser humano, bem como nenhuma criatura, haverá de se tornar, um dia, Deus. Deus é Deus e o resto são criaturas. Mas, participar da vida divina, estabelecer uma relação de proximidade com o sagrado é vocação de todo ser humano e de todo o universo, e nos é concedido por graça. Deus deseja que todo o existente participe de sua vida e exista para sempre.

E como se faz para comungar da vida divina? Pasmem! É sendo humanos! Deus para salvar a humanidade escolheu humanizar-se, tornar-se um de nós, nos amar com o coração humano, ensinando-nos a ser gente de verdade.

Se levamos a sério que Jesus Cristo é plenamente Deus e humano, ao lermos o evangelho, aquilo que os autores sagrados, em forma de narrativa ou discurso, tentaram nos transmitir acerca de seu ensinamento e sua vida, percebemos a grande “humanidade de Deus”.

Cristo cura os doentes não é porque seja Deus! Cristo alimenta os famintos não é porque seja Deus! Cristo luta pela justiça não é porque seja Deus! Ele faz tudo isso é porque ele é ser humano e porque é próprio do ser humano a compaixão pelos enfermos, a misericórdia pelos que sofrem e a luta por um mundo mais justo e belo.

A espiritualidade do Natal, portanto, deve nos abrir os olhos para essas falsas espiritualidades que nos ensinam que para ser santo é necessário negar nossa humanidade. Muito pelo contrário: para sermos santos, participantes da vida divina, aqui e agora, é necessário assumir a nossa humanidade, ser gente de verdade, configurando o nosso jeito de ser à humanidade de Cristo, e desta forma, estaremos já participando da vida divina, aqui agora, e depois, esta vida será eternizada no céu.

Que Deus nos conceda abrir a fragilidade de nossa vida ao Verbo de Deus, que deseja em nós se fazer carne também. O verdadeiro Natal é Jesus nascer em cada coração, em cada pessoa, humanizando-a e, ao mesmo tempo, divinizando-a. Que as celebrações natalinas nos ajudem a valorizar aquilo de mais belo em nossa humanidade, reconhecendo aí os traços de divinização e cristificação de nossa vida.

Pe. Fr. Inácio José, mestre em teologia bíblica, FAJE.

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