CAMINHO DE SALVAÇÃO, CAMINHO DE HUMANIZAÇÃO
Caros
leitores, estamos vivenciando o tempo litúrgico do Natal, momento privilegiado
para darmos graças a Deus pelo mistério da encarnação: Deus que para salvar o
ser humano, assume a nossa natureza, a nossa fragilidade, a fim de nos
divinizar, ou seja, propiciar a cada um de nós a sua própria vida.
Numa
leitura tradicional, o início do livro do Gênesis retrata o ser humano caindo
na tentação de “divinizar-se sem Deus”, e isso trouxe para toda a humanidade a
desgraça, ou seja, a falta de comunhão com o próprio Deus, a perca desta
comunhão com o sagrado.
Qual
não é a nossa surpresa, ao percebermos que Deus, no auge da história da
salvação, procurou responder esse anseio humano! O prólogo de João afirma que “no
princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus, o Verbo era Deus e o Verbo se
fez carne habitou entre nós” e propiciou a cada um de nós ser filhos de Deus. Ora,
isso nada mais é do que uma resposta àquilo que estava dentro do coração do ser
humano, o seu maior desejo: divinizar-se. Se, no livro do Gênesis, o pecado
humano foi querer “divinizar-se sem Deus”, o caminho da salvação-redenção é “divinizar-se
com Deus”.
Não
me entendam mal. Nenhum ser humano, bem como nenhuma criatura, haverá de se
tornar, um dia, Deus. Deus é Deus e o resto são criaturas. Mas, participar da
vida divina, estabelecer uma relação de proximidade com o sagrado é vocação de
todo ser humano e de todo o universo, e nos é concedido por graça. Deus deseja
que todo o existente participe de sua vida e exista para sempre.
E
como se faz para comungar da vida divina? Pasmem! É sendo humanos! Deus para
salvar a humanidade escolheu humanizar-se, tornar-se um de nós, nos amar com o
coração humano, ensinando-nos a ser gente de verdade.
Se
levamos a sério que Jesus Cristo é plenamente Deus e humano, ao lermos o
evangelho, aquilo que os autores sagrados, em forma de narrativa ou discurso, tentaram
nos transmitir acerca de seu ensinamento e sua vida, percebemos a grande “humanidade
de Deus”.
Cristo
cura os doentes não é porque seja Deus! Cristo alimenta os famintos não é
porque seja Deus! Cristo luta pela justiça não é porque seja Deus! Ele faz tudo
isso é porque ele é ser humano e porque é próprio do ser humano a compaixão
pelos enfermos, a misericórdia pelos que sofrem e a luta por um mundo mais
justo e belo.
A
espiritualidade do Natal, portanto, deve nos abrir os olhos para essas falsas
espiritualidades que nos ensinam que para ser santo é necessário negar nossa
humanidade. Muito pelo contrário: para sermos santos, participantes da vida
divina, aqui e agora, é necessário assumir a nossa humanidade, ser gente de
verdade, configurando o nosso jeito de ser à humanidade de Cristo, e desta
forma, estaremos já participando da vida divina, aqui agora, e depois, esta
vida será eternizada no céu.
Que
Deus nos conceda abrir a fragilidade de nossa vida ao Verbo de Deus, que deseja
em nós se fazer carne também. O verdadeiro Natal é Jesus nascer em cada coração,
em cada pessoa, humanizando-a e, ao mesmo tempo, divinizando-a. Que as
celebrações natalinas nos ajudem a valorizar aquilo de mais belo em nossa
humanidade, reconhecendo aí os traços de divinização e cristificação de nossa
vida.
Pe.
Fr. Inácio José, mestre em teologia bíblica, FAJE.
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