Caro leitor, a celebração do Tríduo Pascal é a mais importante para a fé cristã católica, pois, nesses três dias, celebramos o mistério da Redenção por meio da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Gostaria de refletir com você sobre o significado dessa celebração solene.
O Tríduo Pascal tem início com a celebração da Quinta-feira Santa,
na qual se comemoram a instituição do Sacramento da Eucaristia (cf. Mt
26,26-28; Lc 22,19-20; 1Cor 11,23-25), a instituição do sacerdócio ministerial
e o mandamento do amor (cf. Jo 13,34). Um detalhe litúrgico que muitas vezes
passa despercebido é que, embora a celebração se inicie com a invocação da
Santíssima Trindade, ela não se encerra com a bênção final, pois continua na
Sexta-feira Santa com a celebração da Paixão do Senhor. Tanto a Quinta-feira
Santa quanto a Sexta-feira Santa celebram o mesmo mistério: a entrega
voluntária de Cristo à morte para redimir toda a criação (cf. Jo 10,17-18).
Segundo os Evangelhos, Jesus reuniu-se com seus discípulos para a
Última Ceia, provavelmente uma ceia pascal, na qual se celebrava a libertação
da escravidão do Egito (cf. Ex 12,1-14). Nessa ceia, deveriam estar presentes o
pão sem fermento, o vinho e o cordeiro pascal. No decorrer da celebração, Jesus
tomou o pão e disse: "Isto é o meu corpo, que será entregue por vós";
depois, tomou a taça de vinho e declarou: "Este é o meu sangue, o sangue
da nova e eterna aliança, que será derramado por vós para a remissão dos
pecados" (cf. Mt 26,26-28; Lc 22,19-20). Por meio desse gesto, Cristo
instituiu os sinais sacramentais que fariam a Igreja sempre recordar e
atualizar sua entrega suprema, consumada no dia seguinte.
Na Sexta-feira da Paixão, celebramos a morte de Cristo. Para os
cristãos do primeiro século, a morte voluntária de Jesus uniu duas tradições do
Antigo Testamento: a do bode expiatório e a do cordeiro pascal. A primeira
consistia no rito do Dia da Expiação, em que todo o povo de Israel confessava
publicamente seus pecados sobre um bode, que era então lançado ao deserto,
carregando simbolicamente as iniquidades da nação (cf. Lv 16,10). Já a tradição
do cordeiro pascal recordava a libertação da escravidão do Egito, em que os
israelitas imolavam um cordeiro e aspergiam seu sangue nos umbrais das portas
como sinal de salvação (cf. Ex 12,21-23). Jesus, pelo seu sacrifício, expia e
perdoa os nossos pecados; Ele é o novo Cordeiro de Deus (cf. Jo 1,29), que nos
conduz da escravidão do pecado à liberdade dos filhos de Deus. Pela sua morte e
ressurreição, Ele entra no Templo definitivo do céu e, de lá, continua a
oferecer-se ao Pai pela nossa salvação (cf. Hb 9,11-12). Enquanto a Igreja na
Terra celebra sua sagrada liturgia, une-se espiritualmente ao eterno sacrifício
de Cristo por nós (cf. Hb 10,12-14).
Por fim, no Sábado Santo, celebra-se a ressurreição de Jesus por
meio de uma solene e extensa celebração denominada Vigília Pascal. Durante essa
liturgia, medita-se sobre toda a história da salvação, através de sete leituras
do Antigo Testamento, uma leitura do Novo Testamento e a proclamação do
Evangelho.
Nesse contexto, recordam-se a criação (Gn 1,1-2,2), a promessa da
grandiosidade do povo de Deus (Gn 22,1-18), a libertação da escravidão do Egito
(Êx 14,15-15,1), a promessa de uma Nova Aliança (Is 54,5-14), bem como a
profecia da renovação da criação, na qual Deus estabelecerá novos céus e nova
terra (Is 55,1-11; Br 3,9-15.32-4,4; Ez 36,16-28). A tradição cristã sempre
compreendeu que os acontecimentos do Antigo Testamento prefiguram os eventos
que se realizam plenamente em Cristo. Todas essas promessas encontram seu
cumprimento pleno em Cristo, pois n'Ele tem início uma nova criação (2Cor
5,17), e a vida eterna se abre a toda a humanidade.
Eis a verdadeira Páscoa: a passagem deste mundo para o Céu, da
morte para a vida eterna, da temporalidade para a eternidade. No Sábado Santo,
renovam-se as promessas batismais, novos cristãos nascem pelo Sacramento do
Batismo, e a Igreja celebra a vitória definitiva da graça sobre o pecado, da
vida sobre a morte (Rm 6,3-11).
Deus lhe abençoe e feliz e santa Páscoa. Que estas celebrações lhes
façam crescer na santidade, no amor a Cristo e aos irmãos.
Pe. Fr. Inácio José, teólogo e biblista.
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