A Perseguição aos Cristãos: Uma Perspectiva Histórica e Bíblica
A Igreja recebe constantemente, com tristeza e pesar, a notícia de cristãos
barbaramente perseguidos e assassinados em diversos lugares do mundo. A
opressão manifesta-se em nações africanas, como Nigéria, Sudão e Camarões, e em
regimes ditatoriais, como Nicarágua e Coreia do Norte. Há, ainda, o caso
peculiar da China, na qual a Igreja tem certa liberdade religiosa, mas é
compelida a permanecer em constante silêncio. Este mistério dos cristãos
serem perseguidos em cada época já foi, de certa forma, anunciado pelas
catequeses primeiras, que são os textos bíblicos.
O Fundamento Histórico do Cristianismo
Antes de adentrarmos neste tema sob a perspectiva bíblica, é
essencial fazermos uma contextualização histórica, jamais esquecendo que a experiência
concreta vivida pelos cristãos deu origem aos textos sagrados.
Do ponto de vista histórico e sociológico, o Cristianismo nasceu da
experiência dos discípulos de Jesus, a partir da Ressurreição de Cristo.
Os discípulos experimentaram Jesus ressuscitado e, a partir de então, começaram
a proclamá-l'O como o Messias de Israel.
Historicamente, Jesus poderia ter sido enquadrado como um profeta
apocalíptico, tal como vários outros de Sua época. O diferencial crucial é que,
após Seu martírio, os Seus discípulos deram testemunho de que Ele havia sido
ressuscitado por Deus. A partir desse evento, eles O compreenderam como o Filho
de Deus e Messias de Israel e, por Sua ressurreição, passaram a
considerá-l'O Rei de todo o universo, pois está sentado à direita de
Deus Pai (cf. Mc 16,19; At 2,33).
O Início da Perseguição
Ao confessarem Jesus como Messias de Israel, os cristãos começaram
a ser expulsos das sinagogas pelos judeus (Jo 9). Essa separação fez com que o
Cristianismo deixasse de ser visto como uma seita lícita do Judaísmo,
tornando-se uma religião ilícita perante o Império Romano.
Isso ocasionou a perseguição por parte do Império. Os cristãos
confessavam Jesus como Deus e recusavam-se a cultuar o Imperador Romano
como uma divindade – algo exigido de todos os habitantes do Império. Essa
recusa foi vista como um ato de traição e subversão política, resultando
na perseguição dos seguidores de Cristo (Ap 13,15).
A Perseguição nas Escrituras
É neste contexto histórico que os Evangelhos são escritos. Em todos
eles, anuncia-se que os cristãos seriam perseguidos por causa de sua adesão a
Jesus. Por exemplo, nas Bem-aventuranças, Jesus afirma:
"Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça,
porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados sois vós, se vos perseguirem
por causa de mim. Alegrai-vos!" (Mt 5,10-12)
Quando Jesus envia os discípulos em missão, Ele adverte que eles
serão entregues a governadores e açoitados nas sinagogas (cf. Mt
10,17). Tudo isso indica que, desde o início, aqueles que confessavam Jesus
como Messias e Ser Divino sofreram perseguições.
Por outro lado, há textos de esperança que, diante da iminência do
martírio, afirmam:
- Não preparar defesa: Os
discípulos não devem preparar defesa alguma, porque o Espírito Santo os
inspirará no momento (cf. Mc 13,11).
- Vida preservada: Mesmo
sendo entregues por seus próprios familiares, a vida essencial
permaneceria segura, pois "nenhum fio da própria cabeça haveria de
se perder" (cf. Lc 21,18).
A Perseguição no Apocalipse
O Livro do Apocalipse foi todo escrito sob esta perspectiva.
A perseguição aos cristãos era tamanha que eles tiveram de usar uma linguagem
altamente simbólica e esotérica, facilmente entendida pela comunidade, mas
estranha a quem estava fora do contexto cristão. A grande mensagem do
Apocalipse é que a Igreja, apesar de todas as perseguições sofridas pelo
"dragão" do Império Romano, se ela permanecer fiel, Cristo, o
Cordeiro de Deus, haverá de resgatá-la e salvá-la. A mensagem é clara: o bem
prevalecerá, mas isso não isenta a Igreja de padecer os males das
perseguições históricas.
O Paradoxo de Jesus e a Mensagem da Páscoa
Contudo, o leitor atento perceberá um paradoxo: tudo aquilo
que a narrativa bíblica diz que os discípulos receberiam de proteção, Jesus
mesmo não experimentou.
Diante do tribunal de Seu julgamento, Jesus ficou em absoluto
silêncio, não sendo inspirado em nenhuma palavra para se autodefender (cf. Mt
27,14). Jesus foi barbaramente torturado e assassinado pelos romanos. Os
fios de Sua cabeça não foram protegidos. Qual é, então, a mensagem que
essa diferença quer transmitir aos cristãos?
A mensagem central do Evangelho é a de tentar entender a
perseguição pela perspectiva da Páscoa, pela perspectiva da Ressurreição.
Todas as perseguições anunciadas por Jesus, os cristãos estavam vivendo no
momento da escrita dos evangelhos. Ao colocarem essas palavras nos lábios de
Jesus, os evangelistas parecem querer ensinar que, mesmo sendo perseguidos,
torturados e assassinados por causa de sua fé, os discípulos devem compreender
isso a partir dos olhos da Vida Nova, da Vida Eterna que se lhes abrirá
pela sua entrega voluntária e morte em fidelidade ao Evangelho que professam. A
promessa de proteção não é física neste mundo, mas a certeza da vitória
final na Eternidade, seguindo o caminho de sacrifício e ressurreição do
Mestre. Afinal de contas, Jesus que outrora foi perseguido, agora vive para
sempre!
O Significado do Mártir
O cristão sabe que haverá de ser perseguido por causa de sua
fidelidade aos valores do Evangelho. O cristão, por natureza, é um mártir.
O Evangelho de João define o Espírito Santo como o Paráclito,
palavra grega que significa Advogado de Defesa (cf. Jo 14,16).
Quem precisa de advogado é quem está sendo acusado ou perseguido. Atos dos
Apóstolos deixa claro: o Espírito Santo virá sobre os discípulos para que eles
possam testemunhar Jesus em todo lugar, começando por Jerusalém (cf. At
1,8). Testemunho, em grego, se diz martyria, de onde vem a palavra Mártir.
Testemunhar é dar a vida por amor a Jesus. O cristão se sabe profundamente
amado por Cristo, e por isso, por amor, é capaz de sofrer tudo por Aquele que
em primeiro lugar lhe deu a própria vida.
Conclusão: Fidelidade e Não-Violência
A Igreja Católica, desde o Concílio Vaticano II, tem uma firme
postura de defesa da Liberdade Religiosa. Nenhuma pessoa pode ser
coagida ou obrigada a professar uma fé, seja pelo Estado ou por qualquer outro
grupo. Quando o ser humano aprende a respeitar o outro, inclusive na sua
subjetividade religiosa, essas perseguições diminuem. Contudo, diante das
injustiças que prevalecem no mundo, os cristãos sempre haverão de levantar a
sua voz para defender o bem, a verdade e a justiça em nome de Jesus Cristo,
mesmo que isso lhes custe a incompreensão e a própria vida.
O que não se pode, em hipótese alguma, é admitir que o cristão justifique
a violência para matar, destruir ou aniquilar seus adversários e inimigos
religiosos. Fazer isso é esquecer sua vocação primeira de ser mártir. O
cristão é capaz de dar a própria vida por amor, mas não pode tirar a vida de
quem o detesta e odeia. Que em nossas orações possamos sempre lembrar não
somente dos cristãos perseguidos por causa de sua fé, mas de toda pessoa que
professa sua fé em Deus com sinceridade de coração e que é perseguida. Como diria
um renomado teólogo: “só haverá paz no mundo se houver paz entre as religiões”.
Que Deus, um dia, nos conceda essa paz!
Fr. Inácio José, biblista e teólogo.
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