sábado, 18 de fevereiro de 2017

O DEUS DA GRAÇA NO PRIMEIRO TESTAMENTO

O DEUS DA GRAÇA NO PRIMEIRO TESTAMENTO

INTRODUÇÃO

Da mesma forma que para entrar pela porta da frente da casa se faz necessário ter a chave certa, da mesma forma para se entender a Bíblia precisa de ter a chave correta para ler certos textos. Dessa leitura deturpada é temos “falsas imagens de deus”. Não é a toa que muitos acham confuso o Primeiro Testamento e como que pode haver “mudança” em Deus (guerreiro, manda matar pessoas e crianças e depois todo bondoso no Segundo Testamento).
Contrariando o pensamento popular de que o Deus do Antigo Testamento é um deus “maldoso e vingativo” e que o Deus do Novo Testamento é um deus “bonzinho e amoroso”, a verdadeira imagem de Deus que transparece no Primeiro Testamento a partir da leitura de certos textos é que Ele é o Deus da Graça. Deus sempre foi assim. Ele não muda. As criaturas é que são passíveis de mudanças. Mas Deus não! A explicação mais lógica para que Deus seja apresentado dessa forma no Primeiro Testamento, é que o povo de Israel experimentava a Deus assim, mas com o tempo a experiência religiosa evolui. A experiência mais sadia e profunda de Deus que temos é a experiência de Jesus, enquanto Fiho de Deus. A partir dele entendemos que Deus sempre foi Graça e é inclusive com essa chave de leitura que devemos ler e entender certas passagens complicadas do Primeiro Testamento, sobretudo as que contrariam essa noção da gratuidade divina. Analisaremos alguns textos bíblicos para comprovar essa tese de que, apesar das dificuldades, a verdadeira imagem de Deus que aparece no Primeiro Testamento é do Deus da Graça.

PENTATEUCO.


Ex 34,6-7
6Iahweh passou diante dele, e ele exclamou: "Iahweh! Iahweh... Deus de compaixão e de piedade (hannun), lento para a cólera e cheio de amor e fidelidade; 7que guarda o seu amor a milhares, tolera a falta, a transgressão e o pecado, mas a ninguém deixa impune e castiga a falta dos pais nos filhos e nos filhos dos seus filhos, até a terceira e quarta geração."

O livro do Ex está inserido no bloco literário do Pentateuco, ou Torá. O contexto próximo do texto é a adoração ao bezerro de ouro, idolatria do povo de Israel. Moisés quebra as primeiras tábuas da aliança destruindo aquele ídolo, torna a invocar a Deus que agora se manifesta como misericórdia e graça. O texto revela que a bondade de Deus é maior que sua vontade de castigar; se a punição dos pecados vai até a terceira e quarta geração, porém, Deus guarda seu amor a milhares. O castigo divino visa corrigir, da mesma forma como um pai ou mãe corrige para o bem a conduta de seus filhos. Nesse sentido, a correção é uma prova de amor.

TRADIÇÃO CRONISTA

Ne 9,17
Recusaram-se a obedecer, esquecidos das maravilhas que havias feito por eles; endureceram a cerviz, conceberam o plano de voltar para o Egito, para sua escravidão. Mas tu és o Deus do perdão, cheio de piedade e compaixão, lento para a cólera e cheio de amor: não os abandonaste!

            O livro de Ne faz parte da tradição cronista. O contexo do versículo é a cerminônia na qual, o povo regido por Neemias, relembra sua história pedindo perdão pelos pecados cometidos. O texto continua relembrando a graça de Deus para com o povo de Israel no deserto, mesmo após a sua infidelidade. Deus os conduziu através da coluna de fogo, alimentou com maná, matou-lhes a sede, apesar da dura cerviz do povo. Mais uma vez se retrata que o amor de Deus é maior que sua justiça ou desejo de castigar.

            TRADIÇÃO PROFÉTICA

Ez 18,1-32
1A palavra de Iahweh me foi dirigida nestes termos: 2Que vem a ser este provérbio que vós usais na terra de Israel: "Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos ficaram embotados"? 3Por minha vida, oráculo do Senhor Iahweh, não repetireis jamais este provérbio em Israel. 4Todas as vidas me pertencem, tanto a vida do pai, como a do filho. Pois bem, aquele que pecar, esse morrerá. 5Se um homem é justo e pratica o direito e a justiça, 6não come sobre os montes e não eleva os seus olhos para os ídolos imundos da casa de Israel, nem desonra a mulher do seu próximo, nem se une com uma mulher durante a sua impureza, 7nem explora a ninguém, se devolve o penhor de uma dívida, não comete furto, dá o seu pão ao faminto e veste ao que está nu, 8não empresta com usura, não aceita juros, abstém-se do mal, julga com verdade entre homens e homens; 9se age de acordo com os meus estatutos e observa as minhas normas, praticando fielmente a verdade: este homem será justo e viverá, oráculo do Senhor Iahweh. 10Contudo se tiver um filho violento e sanguinário, que pratique uma destas coisas, 11quando ele não cometeu nenhuma, isto é, um filho que chegue a comer nos montes, que desonre a mulher do seu próximo, 12que explore o pobre e o necessitado, que cometa furto, que não devolva o penhor, que eleve os seus olhos para os ídolos imundos e cometa abominação, 13que empreste com usura e aceite juros, certamente não viverá, por ter praticado todas estas abominações: ele morrerá e o seu sangue cairá sobre ele. 14Mas se este, por sua vez, tiver um filho que vê todos os pecados cometidos pelo seu pai, os vê, mas não os imita, 15isto é, não come sobre os montes e não eleva os seus olhos para os ídolos impuros da casa de Israel, não desonra a mulher do seu próximo, 16não explora ninguém, não exige penhor e não comete furto, antes, dá o seu pão ao faminto e veste aquele que está nu, 17se abstém da injustiça, não aceita usura nem juros, observa as minhas normas e anda nos meus estatutos, este não morrerá pelas iniquidades de seu pai, antes, certamente viverá. 18O seu pai, visto que agiu com violência e praticou o furto, visto que não se comportou bem no seio do seu povo, este, sim, morrerá por causa da sua iniqüidade. 19E vós dizeis: "Por que o filho não há de levar a iniqüidade de seu pai?" Ora, o filho praticou o direito e a justiça, observou todos os meus estatutos e os praticou! Por tudo isso, certamente viverá. 20Sim, a pessoa que peca é a que morre! O filho não sofre o castigo da iniqüidade do pai, como o pai não sofre o castigo da iniqüidade do filho: a justiça do justo será imputada a ele, exatamente como a impiedade do ímpio será imputada a ele. 21Mas quanto ao ímpio, se ele se converter de todos os pecados que cometeu e passar a guardar os meus estatutos e a praticar o direito e a justiça, certamente viverá: ele não morrerá.22Nenhum dos crimes que praticou será lembrado. Viverá como resultado da justiça que passou a praticar. 23Porventura tenho eu prazer na morte do ímpio? — oráculo do Senhor Iahweh. — Porventura não alcançará ele a vida se se converter de seus maus caminhos? 24Por outra parte, se o justo renunciar à sua justiça e fizer o mal, à imitação de todas as abominações praticadas pelo ímpio, poderá ele viver, fazendo isto? Não! Toda a justiça que praticou já não será lembrada! Antes, em virtude da infidelidade que praticou e do pecado que cometeu, morrerá. 25Entretanto dizeis: "O modo de agir do Senhor não é justo". Pois ouvi-me, ó casa de Israel: será o meu modo de proceder errado? Não será antes o vosso modo de proceder que não está certo? 26Com efeito, ao renunciar o justo à sua justiça e ao fazer o mal, é em virtude do mal que praticou que ele morre. 27E se o ímpio renunciar à sua impiedade, passando a praticar o direito e a justiça, salva a sua vida. 28Caiu em si e renunciou a toda a iniqüidade que tinha cometido. Certamente ele viverá e não morrerá. 29E no entanto a casa de Israel diz: "O modo de proceder do Senhor não está certo". Será o meu procedimento que não está certo, ó casa de Israel? Não será antes o vosso procedimento que não está certo? 30Por isso mesmo eu vos julgarei, a cada um conforme o seu procedimento, ó casa de Israel, oráculo do Senhor Iahweh. Convertei-vos e abandonai todas as vossas transgressões. Não torneis a buscar pretexto para fazerdes o mal. 31Lançai fora todas as transgressões que cometestes, formai um coração novo e um espírito novo. Por que haveis de morrer, ó casa de Israel? 32Eu não tenho prazer na morte de quem quer que seja, oráculo do Senhor Iahweh. Convertei-vos e vivereis!

                O profeta Ezequiel está no contexto do exílio do povo de Israel na Babilônia (séc VI a.C). A justificativa teológica que os sacerdotes deram para o exílio foi que Deus castigou o povo pelo pecado de idolatria, por isso, agora o povo está sem rei, sem terra e sem templo. No entanto havia o pensamento de que os pecados dos pais eram castigados nos filhos e o profeta Ezequiel combate essa ideologia religiosa, imputando à responsabilidade individual a consequência pelos seus atos. Além disso, deixa bem claro que existe a liberdade humana que, num processo de mudança de atitudes, de conversão, pode reverter o mau decorrente de seus atos. Como esse texto sinaliza a graça divina? Outra pessoa não paga pelo meu pecado e até mesmo eu, não pagarei pelo meu pecado se eu mudar de conduta. Ou seja, o perdão é maior que a punição.

            TRADIÇÃO POÉTICA

Sl 86,5.15-17
5Tu és bom e perdoas, Senhor, és cheio de amor com todos os que te invocam. 6Iahweh, atende à minha prece, considera minha voz suplicante!... 15Tu, Senhor, Deus de piedade e compaixão, lento para a cólera, cheio de amor e fidelidade, 16volta-te para mim, tem piedade de mim! Concede tua força ao teu servo, e tua salvação ao filho de tua serva: 17realiza um sinal de bondade para mim! Meus inimigos verão e ficarão envergonhados, pois tu, Iahweh, me socorres e consolas.
            Os salmos são a expressão orante do povo de Deus. Através deles o povo recorda sua história, revivendo seu relacionamento com o divino. O Salmo 86 é a súplica de alguém que se diz pobre, infeliz e perseguido pelos inimigos. Ao rezar pede a Deus que lhe faça justiça, mas, ao mesmo tempo, proclama a bondade gratuita de Deus para com todos os seus filhos. Proclama que Deus é lento para a cólera, ou seja, que sua bondade supera o castigo e que Ele é bom e perdoa.

            CONCLUSÃO

            Muitos outros textos poderiam ser demonstrados a partir do estudo da teologia bíblica da graça, mas apenas nos limitamos ao que foi pedido no trabalho. Esses textos, de certa forma, já evidenciam aquilo que depois se tornará explícito no Segundo Testamento, a partir de Jesus de Nazaré: que Deus é amor, que faz o sol nascer sobre bons e maus, faz a chuva cair sobre justos e injustos; que Ele não se mede a partir de nossa noção de retribuição ou mérito. Que o experimentar essa graça e bondade de Deus nos faça melhores e mais gratuitos em nossas relações todo os seres humanos. Assim seremos como o nosso Pai do Céu.

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