sábado, 18 de fevereiro de 2017

UMA LEITURA DO APOCALIPSE EM ÉPOCA DE CRISE

UMA LEITURA DO APOCALIPSE EM ÉPOCA DE CRISE
Fr. Inácio José[1]

Em épocas conturbadas sempre aparecem “profetas do agouro” anunciando tragédias, catástrofes, enfim... o fim! Outros, com certo fanatismo, anunciam que Jesus está próximo de voltar e veem sinais de sua vinda em todos os lugares. Muito disso se deve a leituras errôneas daquilo que se chama “literatura apocalíptica” que está tanto presente no Primeiro Testamento[2], bem como no Segundo Testamento[3]. A proposta deste breve texto é esclarecer do que se trata tal literatura e propor uma reta leitura desses textos, sobretudo do Apocalipse de João.
A literatura apocalíptica nasceu no judaísmo entre 150 a.C. e 100 a.C[4]. O povo de Israel estava sob o domínio dos selêucidas, que tentaram impor à força a religião grega sobre a religião judaica. O contexto era de perseguição religiosa e martírio de muitos de judeus. Diante disso a literatura apocalítica nasce como resistência de fé do povo de Israel. Esse tipo de literatura possui caractéristicas: pseudonímia (atribuição a autores de prestígio); simbolismo (a linguagem de difícil interpretação. Aconselho a compra de uma boa Bíblia de estudo - Bíblia de Jerusalém, Bíblia TEB, Bíblia do Peregrino – porque as notas de rodapé e introduções esclarecem o possível significado dos números, cores, personagens que aparecem no texto bíblico); pessimismo (o mal está dominando a realidade, mas a vitória no fim será de Deus); determinismo (tudo já está dedicido de antemão para a vitória de Deus)[5].
O Apocalipse de João foi escrito no contexto do fim do séc I, no final do reinado de Dominiciano[6]. As comunidades cristãs estão sofrendo a perseguição do Império Romano porque se recusam a adorar o imperador romano como deus, proclamando apenas Jesus como Senhor (Kyrios, termo grego também usado para proclamar a divindade do imperador romano).

O Apocalipse não é uma especulação futurológica, nem um livro para confundir nossa cabeça. É expressão de resistência e de esperança para a atualidade dos fiéis. (...) O Apocalipse nos ensina a ver a história à luz daquilo que se cumpriu definitivamente na morte e ressurreição do Grande Mártir e Testemunha, Jesus, o Cordeiro. É Ele quem abre o livro da história, ele tem a última palavra sobre a história humana[7].

É absolutamente normal que em situações que consideremos limites, a gente esteja pessimista, considerando estar no fim de tudo, que não há mais saída. No entanto, não é essa a pretensão da literatura apocalíptica, nem no Primeiro e nem no Segundo Testamento. A finalidade dela é mostrar que, por trás do “aparente caos” que esteja na história, Deus a tem na palma de sua mão, e que em breve intervirá para acabar com o sofrimentos que os injustos estão provocando na humanidade. Essa mentalidade também, não deve nos tornar passivos diante das injustiças no mundo[8]. Pelo contrário, os cristãos, sabedores de que, em breve Deus interviria na história, viviam ativamente seu testemunho (martírio) cristão, colaborando para que o Reinado de Deus o quanto antes se tornasse pleno.
Creio que é desta forma que devemos nos comportar diante das dificuldades sócio-político-econômicos que o nosso país enfrenta. Ao invés de dar crédito a fórmulas mágicas, tais como a falsa “teologia da prosperidade” para se ver “livre dos apertos”, ou se resignar com o pessimismo constatável pela realidade, precisamos nutrir a esperança de que dias melhores virão, porque a história está nas mãos de Deus e de Seu Filho Jesus, mas, ao mesmo tempo, está em nossas mãos, para que ajudemos a Deus dar novo rumo à nossa vida. Simplesmente constatar que a situação está difícil não basta para que se mude a realidade, mas é necessária a criatividade e a atitude de Jesus diante das circunstâncias de sofrimento. Atitude sim, passividade não! Esperança sim, pessimismo não! Esperança ativa sim, desespero não.



[1] Graduado em Filosofia, Teologia. Pós-Graduado em História, Teologia e Cultura Judaica pelo Centro Cristão de Estudos Judaicos (CCEJ).
[2] No Primeiro Testamento temos os seguintes textos que se enquadram na literatura apocalíptica: Is 24-27; Is 34-35; o livro de Daniel.
[3] No Segundo Testamento: Mc 13; Mt 24; 1Ts 4,13-5,11; 2Ts 2,1-12, Apocalipse de João.
[4] PRIGENT, Pierre. Apocaliptico. In: MAREDSOUS. Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Tradução de Ary E. Pintarelli e Orlando A. Bernardi. São Paulo: Loyola, Paulinas, Paulus, Academia Cristã, 2013. p. 116.
[5] Idem.
[6] PRIGENT, Pierre. Apocalipse, Livro. In: MAREDSOUS. Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Tradução de Ary E. Pintarelli e Orlando A. Bernardi. São Paulo: Loyola, Paulinas, Paulus, Academia Cristã, 2013. p. 113.
[7] Introdução ao livro do Apocalipse, Bíblia da CNBB, p. 1443.
[8] Na comunidade cristã de Tessalônica, por exemplo, haviam pessoas que não trabalhavam mais, com a desculpa de que Jesus estaria voltando imediatamente. Cf. 2Ts 3,10.

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