UMA LEITURA DO
APOCALIPSE EM ÉPOCA DE CRISE
Fr. Inácio José[1]
Em épocas
conturbadas sempre aparecem “profetas do agouro” anunciando tragédias,
catástrofes, enfim... o fim! Outros, com certo fanatismo, anunciam que Jesus
está próximo de voltar e veem sinais de sua vinda em todos os lugares. Muito
disso se deve a leituras errôneas daquilo que se chama “literatura
apocalíptica” que está tanto presente no Primeiro Testamento[2],
bem como no Segundo Testamento[3]. A
proposta deste breve texto é esclarecer do que se trata tal literatura e propor
uma reta leitura desses textos, sobretudo do Apocalipse de João.
A literatura
apocalíptica nasceu no judaísmo entre 150 a.C. e 100 a.C[4]. O
povo de Israel estava sob o domínio dos selêucidas, que tentaram impor à força
a religião grega sobre a religião judaica. O contexto era de perseguição
religiosa e martírio de muitos de judeus. Diante disso a literatura apocalítica
nasce como resistência de fé do povo de Israel. Esse tipo de literatura possui
caractéristicas: pseudonímia (atribuição a autores de prestígio); simbolismo (a
linguagem de difícil interpretação. Aconselho a compra de uma boa Bíblia de
estudo - Bíblia de Jerusalém, Bíblia TEB, Bíblia do Peregrino – porque as notas
de rodapé e introduções esclarecem o possível significado dos números, cores,
personagens que aparecem no texto bíblico); pessimismo (o mal está dominando a
realidade, mas a vitória no fim será de Deus); determinismo (tudo já está
dedicido de antemão para a vitória de Deus)[5].
O Apocalipse de
João foi escrito no contexto do fim do séc I, no final do reinado de
Dominiciano[6].
As comunidades cristãs estão sofrendo a perseguição do Império Romano porque se
recusam a adorar o imperador romano como deus, proclamando apenas Jesus como
Senhor (Kyrios, termo grego também usado para proclamar a divindade do
imperador romano).
O
Apocalipse não é uma especulação futurológica, nem um livro para confundir
nossa cabeça. É expressão de resistência e de esperança para a atualidade dos
fiéis. (...) O Apocalipse nos ensina a ver a história à luz daquilo que se
cumpriu definitivamente na morte e ressurreição do Grande Mártir e Testemunha,
Jesus, o Cordeiro. É Ele quem abre o livro da história, ele tem a última
palavra sobre a história humana[7].
É absolutamente
normal que em situações que consideremos limites, a gente esteja pessimista,
considerando estar no fim de tudo, que não há mais saída. No entanto, não é
essa a pretensão da literatura apocalíptica, nem no Primeiro e nem no Segundo
Testamento. A finalidade dela é mostrar que, por trás do “aparente caos” que
esteja na história, Deus a tem na palma de sua mão, e que em breve intervirá
para acabar com o sofrimentos que os injustos estão provocando na humanidade.
Essa mentalidade também, não deve nos tornar passivos diante das injustiças no
mundo[8].
Pelo contrário, os cristãos, sabedores de que, em breve Deus interviria na
história, viviam ativamente seu testemunho (martírio) cristão, colaborando para
que o Reinado de Deus o quanto antes se tornasse pleno.
Creio que é
desta forma que devemos nos comportar diante das dificuldades
sócio-político-econômicos que o nosso país enfrenta. Ao invés de dar crédito a
fórmulas mágicas, tais como a falsa “teologia da prosperidade” para se ver
“livre dos apertos”, ou se resignar com o pessimismo constatável pela realidade,
precisamos nutrir a esperança de que dias melhores virão, porque a história
está nas mãos de Deus e de Seu Filho Jesus, mas, ao mesmo tempo, está em nossas
mãos, para que ajudemos a Deus dar novo rumo à nossa vida. Simplesmente constatar
que a situação está difícil não basta para que se mude a realidade, mas é
necessária a criatividade e a atitude de Jesus diante das circunstâncias de
sofrimento. Atitude sim, passividade não! Esperança sim, pessimismo não! Esperança
ativa sim, desespero não.
[1]
Graduado em Filosofia, Teologia.
Pós-Graduado em História, Teologia e Cultura Judaica pelo Centro Cristão de
Estudos Judaicos (CCEJ).
[2]
No Primeiro Testamento
temos os seguintes textos que se enquadram na literatura apocalíptica: Is
24-27; Is 34-35; o livro de Daniel.
[3] No Segundo Testamento: Mc 13; Mt
24; 1Ts 4,13-5,11; 2Ts 2,1-12, Apocalipse de João.
[4] PRIGENT, Pierre. Apocaliptico.
In: MAREDSOUS. Dicionário
Enciclopédico da Bíblia. Tradução de Ary E. Pintarelli e Orlando A. Bernardi.
São Paulo: Loyola, Paulinas, Paulus, Academia Cristã, 2013. p. 116.
[5] Idem.
[6] PRIGENT, Pierre. Apocalipse,
Livro. In: MAREDSOUS. Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Tradução de Ary E.
Pintarelli e Orlando A. Bernardi. São Paulo: Loyola, Paulinas, Paulus, Academia
Cristã, 2013. p. 113.
[7] Introdução ao livro do
Apocalipse, Bíblia da CNBB, p. 1443.
[8] Na comunidade cristã de
Tessalônica, por exemplo, haviam pessoas que não trabalhavam mais, com a
desculpa de que Jesus estaria voltando imediatamente. Cf. 2Ts 3,10.
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