A RELAÇÃO ENTRE IGREJA E SOCIEDADE
Em nosso contexto brasileiro, vemos a tentativa da religião ocupar os espaços públicos. Nas últimas eleições, cresceu o número de candidaturas vinculadas às Igrejas, sobretudo evangélicas e pentecostais. Existe a expectativa de, nas próximas eleições, esse número cresça cada vez mais. Os candidatos católicos, ou são religiosos que deixam a missão para assumir uma função pública, ou são leigos fundamentalistas engajados em movimentos carismáticos eclesiais. Recentemente, surgiram supostos escândalos, promovidos por pastores evangélicos, dentro do Ministério da Educação, possuidor em suas pastas de um dos maiores recursos econômicos, com os quais se pode promover favores. Diante destas situações, pergunta-se: que tipo de relação deve haver entre Igreja e sociedade?
Contemplando o passado...
Voltando o olhar para a história da Igreja, recorda-se que no passado, o poder religioso estava vinculado ao poder político, sobretudo no tempo medieval. O papa era, praticamente, o rei de toda a Europa. A sociedade vivia um clima de cristandade: na moral e os costumes do povo eram pautados pelos valores cristãos, bem como, todas as questões surgidas na subjetividade humana eram respondidas pela fé católica. Não havia espaço para a pluralidade. Sujeitos que buscassem respostas por meio das ciências, ou pautassem suas vidas por outra experiência religiosa, não sendo a católica, eram perseguidos.
Com o advento da modernidade, o sujeito passou a buscar as respostas por si mesmo e tudo que não passasse pelo crivo da razão, ou da ciência, era questionável. Com a reforma protestante, o catolicismo passou a perder hegemonia e espaços na política. A sociedade se tornou plural e o catolicismo passou a ser uma das vozes dentre tantas outras existentes na sociedade, deixando de ser a voz determinante na moral, nos costumes e na fé.
Contemplando o presente...
Atualmente vive-se o que os autores chamam de pós-modernidade. Percebe-se a exacerbação dos valores modernos tais como: individualismo, hedonismo etc. Diante disso, setores mais conservadores dentro do catolicismo, publicamente, manifestam sua insatisfação com a postura dialogal assumida pela Igreja Católica com a sociedade, a partir do Concílio Vaticano II. As Igrejas evangélicas, por sua vez, com as suas visões fundamentalistas da fé e da bíblia, procuram ocupar os espaços públicos, tendo, de fato, um plano político desrespeitoso com o pluralismo religioso de nossa sociedade ou a laicidade estatal. Uma vez que o Estado é laico, este deve promover o respeito entre todas as expressões religiosas e dos ateus, mas não se pautando por uma postura religiosa nas suas decisões políticas, pois a carta magna da nação não é a Bíblia, mas sim a Constituição Brasileira.
Sendo a bíblia a fonte primeira de toda reflexão teológica, queremos a partir do novo testamento, buscar pistas que nos orientem acerca da relação Igreja e sociedade.
Contemplando a Palavra...
Do ponto de vista da doutrina e da catequese católica, sempre se afirmou que Jesus quis e fundou uma Igreja[1]. Sem negar a doutrina católica, hoje prefere se dizer que Jesus é o fundamento da Igreja, mas não que, explicitamente, Ele quisesse fundar uma nova comunidade religiosa. Vários autores e pesquisadores[2], compreendendo a pessoa de Jesus histórico, dentro do contexto judaico do século I, O afirmam como um profeta apocalíptico, ou seja, um pregador da chegada iminente do Reino de Deus, tal qual João Batista[3].
O Reino de Deus seria a intervenção definitiva divina na história humana, por meio do Messias. Ele haveria de governar para sempre Israel, e, a partir desta nação, proporcionar justiça, paz e fraternidade ao mundo todo. Uma vez chegado o Reino de Deus, não existiria mais a necessidade de uma nova comunidade religiosa, pois o próprio Deus estaria presente na consciência de toda a humanidade[4].
Comparando os evangelhos, nota-se a cena na qual, Pedro afirma Jesus enquanto Messias. Apenas em Mateus, num único versículo, Jesus afirma que fundaria uma Igreja[5]. A mesma cena nos demais evangelhos não afirmam isso, levando-nos a crer, do ponto de vista da exegese bíblica, que este versículo retrataria um aspecto específico da comunidade mateana e não seria um dito originário de Jesus[6]. Em tese, para um profeta apocalíptico, não haveria necessidade de Igreja, pois o Reino de Deus chegaria a qualquer momento.
Entretanto, sabe-se o que aconteceu com Jesus: foi barbaramente assassinado numa cruz pelo Império Romano. Sua morte não foi gratuita. Jesus foi assassinado pelo fato de ser profeta. Sua pregação sobre a proximidade do Reino de Deus gerava no coração das pessoas a insatisfação diante do reinado de César, que trazia para o povo judeu opressão, escravidão e morte. Jesus foi morto porque sua pregação sobre o Reino e sua pessoa foram considerados perigosos aos olhos do Império, como tantos outros crucificados.
Contudo, os discípulos afirmam que Jesus foi ressuscitado e exaltado à glória dos céus. Esta é a diferença entre Jesus e os demais crucificados de sua época. O que foi humilhado pelo poder político de então, foi exaltado pelo poder divino. Daí nasceu, na comunidade eclesial, a crença de que Jesus ressuscitado, voltaria uma segunda vez para estabelecer, de modo cabal, o Reino de Deus na história humana. Isso aconteceria em breve, conforme se nota em vários textos neotestamentários[7].
Porém, a brevidade se tornou demora. Muitos começaram a questionar se Jesus, de fato, voltaria uma segunda vez. Afinal, os discípulos de Jesus, confessando-O como Messias, foram expulsos das sinagogas judaicas, tornando-se agora uma religião ilícita diante do Império, sendo obrigados a adorar o imperador como se fosse Deus e, como recusavam-se a esta prática, eram perseguidos e martirizados[8].
Enquanto Jesus não voltava, o jeito era dignificar a vida dos desumanizados pelo Império Romano. Lendo as cartas paulinas, percebe-se que os membros da Igreja eram, precisamente, os marginalizados pela sociedade greco-romana de então[9]. Aliás, “Igreja” é uma palavra, originalmente, vinda do mundo político e não do mundo religioso. Igreja era a assembleia dos cidadãos, daqueles que tinham voz e vez na sociedade e, deliberavam os caminhos e as decisões da comunidade[10]. Nas comunidades eclesiais, aqueles que não tinham voz social, eram incluídos. Justificava-se, assim, a necessidade de uma Igreja, uma comunidade alternativa de cidadãos formada pelos discípulos de Jesus, fazendo uma contraposição à sociedade greco-romana excludente. Eles aguardavam, ansiosamente, a segunda vinda de Cristo, coincidindo com a chegada do Reino e durante esta espera, continuavam a praticar o que Jesus lhes havia ensinado, sendo presença samaritana junto aos sofredores, como forma de adiantar a chegada do Reino. A Igreja nasceu, assim, como consequência da demora da parusia[11].
O que a Palavra nos inspira?
Partindo do exemplo de Jesus, intui-se que o papel eclesial na sociedade há de ser a profecia. Inspirada pela Palavra de Deus, a comunidade eclesial deve fermentar as realidades sociais com os valores humanizantes, bem como, denunciar situações de injustiça destruidoras da dignidade humana. Nesse sentido, a Igreja não pode temer a perseguição e a incompreensão social quando levantar a voz contra os abusos dos direitos humanos, a corrupção, as agressões às vidas inocentes.
Da práxis das comunidades eclesiais primitivas, descobre-se que a Igreja, além de exercer a profecia, deve cuidar dos excluídos da sociedade. Este é um ponto que, seriamente, precisa ser refletido. Por causa do moralismo católico, muitos afastam-se de nossas comunidades e, por outro lado, membros de nossas Igrejas comportam-se como os fariseus no tempo de Jesus, tendo comportamentos preconceituosos, discursos de ódio e cheio de moralismos, para com os destoantes da moral católica. O Papa Francisco propõe-nos uma Igreja acolhedora de todas as pessoas na sua condição existencial; ensina-nos a escutá-las com amor, acompanhá-las com atenção, discernir junto a elas um caminho de reconciliação com a Igreja[12]. A misericórdia deve sempre estar acima da moral[13].
A Igreja não deve ansiar ocupar os espaços de poder público, de tal modo a forçar a fé e a moral cristã para todos, como tantos líderes religiosos evangélicos pretendem, mas sim, no meio social, ocupar-se das vítimas deste sistema econômico que mata, no dizer do Santo padre o Papa Francisco. A história pregressa da Igreja demonstra que a união de poder religioso e político causou sérios danos para sua vida espiritual e o seu testemunho evangélico.
O papel de ocupar os espaços públicos, na visão católica, é responsabilidade dos leigos. Estes sim, bem formados na Doutrina Social da Igreja, devem ocupar os poderes públicos, tendo em vista promover políticas públicas pautadas nos valores do evangelho, aqui entendido como essa proposta de humanização da sociedade, sempre respeitando o pluralismo religioso e de opiniões existentes em nossa sociedade. Nesse aspecto, o grande desafio do magistério católico é fazer com que sua doutrina social seja conhecida pelos fiéis. Não poucas vezes, sobretudo neste contexto político polarizado no qual vivemos, percebemos muitos católicos avessos à política ou alienados por ideologias políticas anticristãs.
Conclusão
Jesus, nos evangelhos, utiliza algumas metáforas para se referir a ação apostólica dos discípulos: sal da terra, luz do mundo e fermento na massa[14]. O sal, na antiguidade, além de temperar a comida, conservava a carne e curava as feridas. A luz servia para iluminar a casa e, sobretudo, para os viajantes, a luz das estrelas servia de orientação. O fermento era considerado uma substância impura para o judaísmo, mas, sem ele, não se tinha o pão cotidiano. Essas metáforas podem ser aplicadas à Igreja.
Na sua relação com a sociedade, a Igreja é chamada a temperar as relações sociais com os valores evangélicos; a conservar, na sociedade, o valor inviolável da vida, sobretudo dos que mais sofrem e, mediante a acolhida fraterna, curar as feridas das pessoas. Tendo a Jesus Cristo e seu evangelho como sua maior riqueza, a Igreja deve propor o evangelho como luz que oriente as pessoas na construção de uma sociedade mais justa e fraterna. A Igreja também é fermento: não deve temer relacionar-se com os que a sociedade e a própria comunidade religiosa consideram como impuros, mas acolhendo-os e incluindo-os, ser exemplo de uma sociedade onde haja vida e espaço para todos. E assim, adiantar a chegada do Reino, da qual quer ser sinal.
Pe. Fr. Inácio José, OdeM, Mestre em Teologia Bíblica.
[1] Catecismo da Igreja Católica n. 763-766.
[2] Albert Schweitzer (1906), Bart Ehrman (2001), dentre outros.
[3] Mt 3,2; 4,17; Mc 1,14-15; Lc 4,43. “Reino dos céus”, em Mt, tem o mesmo significado de “Reino de Deus” dos demais sinóticos.
[4] Sobre o Reino de Deus cf. Is 9,7; Jr 23,5; Dn 7,13-14. Sobre o conhecimento de Deus cf. Is 11,9; Jr 31,34; Hb 2,4.
[5] Mt 16,18. Comparar com Mc 8,27-30 e Lc 9,18-21. O evangelho de João coloca a profissão de fé petrina em outro contexto, Jo 6,66-69.
[6] Para os critérios metodológicos acerca da pesquisa dos ditos originários de Jesus cf. THEISSEN, Gerd. METZ, Annette. El Jesus Historico. Manual. Salamanca: Ediciones Sigueme, 1999, p. 139-140. Este livro foi traduzido para o português pela Loyola.
[7] Tais textos evidenciam a expectativa iminente da parusia: 1Ts 4,13-17; Hb 10,37; 2Pd 2,9; Ap 1,1; 2,16; 22,6.
[8] Ap 7,14; 12,11. Apocalipse foi escrito no fim do séc. I, tendo como pano de fundo a perseguição romana contra os cristãos.
[9] Trabalhadores manuais: 1Cor 4,12; Ef 4,28; 1Ts 4,11. Escravos: Ef 6,5; Cl 3,22; 1Tm 6,1; Tt 2,9. Mulheres: At 18,18; Rm 16,1.3; 1Cor 16,19; 2Tm 4,19.
[10] Igreja. In: MACKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 2005, p. 432.
[11] É conhecida a polêmica frase de Alfred Loisy: “Jesus veio proclamando o Reino, e o que chegou foi a Igreja. (L’Evangile et l’Eglise). Atualmente, do ponto de vista histórico, tal frase é plenamente aceita.
[12] Papa Francisco, Amoris Laetitia, 291. 296-300.
[13] Papa Francisco, Amoris Laetitia, 311.
[14] Mt 5,13-14; 13,33.

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