segunda-feira, 18 de março de 2024

SEGUNDO DOMINGO QUARESMA ANO B

 

No segundo domingo da Quaresma, na primeira leitura, extraída do livro do Gênesis 22, temos o relato conhecido como o sacrifício de Abraão, mas na tradição judaica é chamado de a amarradura de Isaac. Era comum no mundo antigo que o primeiro filho fosse sacrificado às divindades. A consciência religiosa da época era de que as divindades, por qualquer motivo, poderiam enviar catástrofes sobre a humanidade, e por isso eram necessários sacrifícios humanos para aplacar a ira sobrenatural. O povo de Israel teve o mesmo costume, que depois foi substituído pelo sacrifício de um animal. Segundo os exegetas, a finalidade deste texto é mostrar que o Deus de Israel não deseja mais sacrifícios humanos.

Na segunda leitura, temos Romanos 8,31-34, onde Paulo afirma que Deus não poupou seu filho amado, mas o entregou por todos nós. Se no mundo antigo se pensava que as divindades eram contra a humanidade, a tradição cristã nos ensina que Deus está a favor da humanidade. Deus está do nosso lado a tal ponto que, em Cristo Jesus, de forma gratuita, nossos pecados são perdoados e somos reconciliados com a divindade. Fazendo o paralelo, percebemos Deus salvando o filho de Abraão, mas não poupando seu próprio filho em nosso favor.

O evangelho traz Marcos 9,2-10, relatando a transfiguração de Jesus no Monte. Do ponto de vista da liturgia, esse texto se lê em paralelo ao deserto do primeiro domingo. Se no primeiro domingo fomos convidados a adentrar no deserto quaresmal para nos purificarmos do pecado, a transfiguração nos demonstra o que acontecerá conosco se vivermos bem a nossa Quaresma: seremos transfigurados do pecado para a graça, da morte para a vida. Do ponto de vista narrativo, a transfiguração quer mostrar para o leitor que aquele que, lá no final da história vai morrer na Cruz, é Divino, e que a Cruz é o caminho para a ressurreição. Moisés e Elias simbolizam todo o Antigo Testamento, a lei e os profetas que dão testemunho de que Jesus é o Messias, ou dito de outra forma, que a comunidade, a partir da experiência da ressurreição, consegue compreender que a lei e os profetas dão testemunho do messianismo de Jesus. Após a manifestação da voz do pai por meio da nuvem, os discípulos enxergam somente a Jesus, mostrando que agora não escutam mais nem Moisés nem o testemunho dos profetas, porque Jesus é o verdadeiro revelador do rosto do pai. Além disso, o desejo de Pedro de montar três tendas é motivado pelo medo. A palavra "skene" em grego pode significar também templo ou tabernáculo. É a tentação de permanecer nos momentos de contemplação inútil, resistindo a descer da Montanha e ir caminhar rumo à Cruz e à doação de vida. Este segundo domingo, portanto, nos ensina que o caminho da Cruz é o único para a ressurreição. Padre Frei José, doutorando em teologia bíblica pela FAJE.

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