No
segundo domingo da Quaresma, na primeira leitura, extraída do livro do Gênesis
22, temos o relato conhecido como o sacrifício de Abraão, mas na tradição
judaica é chamado de a amarradura de Isaac. Era comum no mundo antigo que o
primeiro filho fosse sacrificado às divindades. A consciência religiosa da
época era de que as divindades, por qualquer motivo, poderiam enviar
catástrofes sobre a humanidade, e por isso eram necessários sacrifícios humanos
para aplacar a ira sobrenatural. O povo de Israel teve o mesmo costume, que
depois foi substituído pelo sacrifício de um animal. Segundo os exegetas, a
finalidade deste texto é mostrar que o Deus de Israel não deseja mais
sacrifícios humanos.
Na
segunda leitura, temos Romanos 8,31-34, onde Paulo afirma que Deus não poupou
seu filho amado, mas o entregou por todos nós. Se no mundo antigo se pensava
que as divindades eram contra a humanidade, a tradição cristã nos ensina que
Deus está a favor da humanidade. Deus está do nosso lado a tal ponto que, em
Cristo Jesus, de forma gratuita, nossos pecados são perdoados e somos
reconciliados com a divindade. Fazendo o paralelo, percebemos Deus salvando o
filho de Abraão, mas não poupando seu próprio filho em nosso favor.
O
evangelho traz Marcos 9,2-10, relatando a transfiguração de Jesus no Monte. Do
ponto de vista da liturgia, esse texto se lê em paralelo ao deserto do primeiro
domingo. Se no primeiro domingo fomos convidados a adentrar no deserto
quaresmal para nos purificarmos do pecado, a transfiguração nos demonstra o que
acontecerá conosco se vivermos bem a nossa Quaresma: seremos transfigurados do
pecado para a graça, da morte para a vida. Do ponto de vista narrativo, a
transfiguração quer mostrar para o leitor que aquele que, lá no final da
história vai morrer na Cruz, é Divino, e que a Cruz é o caminho para a
ressurreição. Moisés e Elias simbolizam todo o Antigo Testamento, a lei e os
profetas que dão testemunho de que Jesus é o Messias, ou dito de outra forma,
que a comunidade, a partir da experiência da ressurreição, consegue compreender
que a lei e os profetas dão testemunho do messianismo de Jesus. Após a
manifestação da voz do pai por meio da nuvem, os discípulos enxergam somente a
Jesus, mostrando que agora não escutam mais nem Moisés nem o testemunho dos
profetas, porque Jesus é o verdadeiro revelador do rosto do pai. Além disso, o
desejo de Pedro de montar três tendas é motivado pelo medo. A palavra
"skene" em grego pode significar também templo ou tabernáculo. É a
tentação de permanecer nos momentos de contemplação inútil, resistindo a descer
da Montanha e ir caminhar rumo à Cruz e à doação de vida. Este segundo domingo,
portanto, nos ensina que o caminho da Cruz é o único para a ressurreição. Padre
Frei José, doutorando em teologia bíblica pela FAJE.
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