Domingo
de Ramos e da Paixão do Senhor
Este
domingo marca o início da Semana Santa. Dois mistérios são recordados neste
dia: a entrada de Jesus na cidade e sua paixão. É o único domingo do ano
dedicado à meditação da paixão de Jesus.
O
primeiro evangelho, Marcos, capítulo 11, versículos 1 a 10, retrata Jesus
entrando na cidade, cumprindo a profecia de Zacarias, capítulo 9, versículo 9,
na qual o Rei de Israel entraria montado em um jumentinho na cidade. O jumento,
no Antigo Testamento e na cultura antiga em geral, simboliza um animal
pacífico, ao contrário do cavalo de guerra. Ao entrar montado no jumentinho, o
Messias demonstra ser um rei pacífico, ao passo que, se entrasse num cavalo,
demonstraria poder bélico. Jesus desejou ser proclamado rei, mas não como o rei
Davídico, político-militar, e sim rei de outra natureza.
A
primeira leitura, retirada de Isaías, capítulo 50, versículos 4 a 7, traz o
terceiro cântico do servo. Essa figura enigmática aparece em quatro textos da
profecia de Isaías, apresentando-se como servo escolhido por Deus para
restabelecer Israel e iluminar as nações. Neste terceiro cântico, ele demonstra
coragem e fortaleza diante das perseguições. Conserva o rosto impassível como
pedra, porque crê que não será humilhado. Para a fé cristã, a figura desse
servo foi completamente realizada na pessoa de Jesus Cristo.
A
liturgia traz alguns versículos do Salmo 21(22). "Meu Deus, meu Deus, por
que me abandonaste?" é o refrão e talvez o verso mais conhecido deste
salmo. Quando os evangelistas narram a Paixão de Cristo, o fazem inspirados
neste salmo. Até a metade dele, quem está rezando manifesta sua angústia por
sentir-se abandonado por Deus diante das perseguições sofridas. Mas, da metade
em diante, o orante demonstra plena confiança em Deus, que o salvará e
libertará.
A
segunda leitura, retirada de Filipenses, capítulo 2, versículos 6 a 11, traz um
hino cristológico que mostra o esvaziamento de Deus em Cristo, assumindo a
condição de escravo e padecendo à morte por nós. Aquele que foi o mais
humilhado será, depois, por Deus, o mais exaltado, para a glória do céu. Daí
decorre o exemplo para o povo cristão também praticar a humildade em suas
relações pessoais e sociais.
O
evangelho de Marcos, capítulo 14, versículo 1 ao capítulo 15, versículo 47,
traz a narrativa da paixão na versão marcana. Foi o primeiro dos evangelhos a
ser escrito. O texto é longo porque pretende ser uma meditação sobre o sentido
da paixão do Senhor, não sendo um relato histórico. Historicamente, sabemos que
Cristo foi preso e morto numa cruz. Todos os detalhes entre um fato e outro são
catequeses. Especialmente neste contexto, chama atenção os versículos 29 a 32,
quando os mestres da lei zombam de Jesus crucificado, dizendo que ele não pode
salvar-se a si mesmo e que só acreditariam que ele seria o rei de Israel se
descesse da cruz. Sabendo teologicamente que aquele que está morrendo na cruz é
Deus na segunda pessoa da Santíssima Trindade, contemplamos o modo de Deus
salvar a humanidade. Deus não se salva para nos salvar; anula-se para que
tenhamos vida. Deus permite-se morrer para que nosso pecado seja perdoado e
tenhamos a vida eterna. Uma lição maravilhosa para o povo cristão: não há outra
forma de estabelecer o reinado de Cristo na história senão dando a vida pelos
demais. O caminho já foi ensinado há muito tempo. Basta a conversão sincera e
assumir esse caminho para que o Reino de Deus cresça cada vez mais em nossa
história.
Desejo
a você, caro leitor, uma feliz Semana Santa.
Padre
Frei Inácio José, doutorando em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de
Filosofia e Teologia (FAJE).

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