terça-feira, 30 de abril de 2024

PENTECOSTES JUDAICO E PENTECOSTES CRISTÃO

 

PENTECOSTES JUDAICO E PENTECOSTES CRISTÃO

Caro leitor, no último artigo que escrevemos para este jornal, fizemos uma comparação entre a Páscoa judaica e a Páscoa cristã, compreendendo como a nossa religião se inspirou na religião judaica, dando um novo sentido aos símbolos usados no judaísmo.

O tempo Pascal se encerra com a festa de Pentecostes, que por sua vez também é originalmente uma festa judaica adaptada ao cristianismo. Na tradição cristã, a festa de Pentecostes recorda a vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos reunidos no cenáculo. Celebra-se nesse dia o nascimento da igreja, que, com a unção do Divino Espírito Santo, assume a missão de evangelizar todo o mundo, anunciando Jesus como caminho, verdade e vida. Essa tradição está fundamentada em Atos, capítulo 2, que narra a vinda do Espírito Santo. O Evangelho de João, por sua vez, narra a vinda do Espírito Santo no dia da ressurreição de Jesus, quando Ele, Ressuscitado, se manifesta à igreja e, soprando sobre a comunidade cristã, unge-a com o Espírito Santo e a envia em missão. Portanto, acerca da vinda do Espírito Santo, tem-se, na Bíblia, duas tradições.

Do ponto de vista judaico, o que se celebrava em Pentecostes? Era a chamada festa das colheitas ou das primícias (Ex 34,22; Lv 23,16; Dt 16,9). Os primeiros frutos da terra eram colhidos nessa festa, que acontecia 50 dias depois da Páscoa. Por que Lucas colocou a vinda do Espírito Santo nesse dia? Talvez seja para mostrar ao leitor-ouvinte que o Espírito Santo é dado àqueles que serão colhidos para a ressurreição. Afinal de contas, o Espírito Santo é chamado no Novo Testamento de primícias (Rm 8,23); Cristo, que foi o primeiro ressuscitado pela força do Espírito Santo (Rm 8,11), é chamado de primícia (1Cor 15,20.23), e os que se convertem ao cristianismo também recebem este nome (Rm 16,5; 1Cor 16,15). Em suma, o Espírito Santo é dado àqueles que serão colhidos para a vida eterna.

Mas há outro sentido na festa de Pentecostes. Além de se celebrar o princípio das colheitas, comemorava-se o dia no qual Moisés recebeu a Torá no Sinai (Ex 31,18). Torá significa “instrução, ensino”, mais do que propriamente lei. O povo de Israel nunca foi fiel a essa instrução do Sinai, até que um dia Deus prometeu que escreveria essa instrução no coração do povo (Jr 31,31-34) para resolver esse problema. Assim, o segundo sentido que Lucas dá ao Pentecostes cristão é que, pela ação do Espírito Santo, Deus escreve a sua Torá dentro do coração do ser humano, de tal maneira que cada um, desde seu interior, saiba discernir a própria vontade de Deus (Rm 8,4-5).

Assim, do Pentecostes judaico, festa originalmente agrícola que depois teve o sentido da Aliança de Deus acrescentado, passa-se ao Pentecostes cristão com os mesmos sentidos ampliados e plenificados: nesse dia, o Espírito Santo vem à humanidade para ungir aqueles que serão colhidos para viver eternamente no céu, desde que vivam a fidelidade à instrução divina, que este mesmo Espírito Santo escreverá em seus corações. Permitamos que nossa vida seja guiada pela luz do Espírito Santo, e em cada momento decisivo de nossa vida, peçamos sua luz e nos perguntemos: o que Jesus faria se estivesse aqui em meu lugar?

Deus te abençoe e conceda saúde e paz.

Padre Frei Inácio José, doutorando em teologia bíblica pela FAJE, bolsista Fapemig.

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